Medicina & Bem-estar

O relógio secreto do DNA

Pesquisa identifica um conjunto de alterações no genoma diretamente associadas ao envelhecimento. A descoberta influenciará o estudo de novas terapias anti-idade e o tratamento do câncer

O relógio secreto do DNA

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Quem poderia imaginar que as células dos seios femininos são, em média, dois a três anos mais velhas do que os tecidos de outras partes do corpo, como rins e fígado? Já o coração costuma ser nove anos mais jovem do que a idade cronológica de seu proprietário (se você fez 40, ele ainda está com cerca de 31). A responsabilidade por essas diferenças é de um relógio biológico que está embutido no nosso código genético, conforme um estudo feito pelo pesquisador Steve Horvath, um professor de genética humana e bioestatística da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Por quatro anos, ele examinou oito mil amostras de 51 tipos de tecidos e células de todo o corpo. “Encontrei um conjunto de 353 alterações químicas situadas em certos pontos do DNA claramente relacionadas com o envelhecimento. Elas existem desde antes do nascimento até em indivíduos com 101 anos”, disse Horvath à ISTOÉ.

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Naturais do corpo humano, essas mudanças químicas no DNA (chamadas de metilação) parecem bloquear ou ativar, nas células, a atividade de genes vinculados à produção de substâncias como os hormônios adrenalina e insulina. “Embora já se soubesse que a metilação tinha algum papel no envelhecimento, essa foi a primeira vez que se identificou um conjunto definido de alterações correlacionadas de modo muito preciso com o envelhecimento”, disse à ISTOÉ o biólogo Emmanuel Dias-Neto, chefe do laboratório de genômica médica do A.C. Camargo Cancer Center, em São Paulo. Ele fez parte do grupo que realizou o primeiro sequenciamento completo do DNA humano, anunciado em 2003.

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O novo relógio biológico poderá ser usado para calcular a idade da maioria dos tecidos e tipos de células do corpo humano. “Esse recurso é quase duas vezes melhor do que a medida do comprimento dos telômeros”, explica Horvath. Os telômeros a que ele se refere são estruturas presentes nas extremidades dos cromossomos, onde estão abrigados os genes que compõem o DNA. Uma de suas funções é proteger a integridade dos genes durante o processo de renovação celular, impedindo que os cromossomos se embaralhem. Até agora, o encurtamento dos telômeros – o que deixa as células mais vulneráveis às modificações – era o principal indicador conhecido pelos cientistas para mensurar o avanço do envelhecimento celular.

A descoberta desse conjunto de marcadores terá consequências. Uma delas é a melhor compreensão do que apressa ou retarda o envelhecimento humano. Outra, a exploração de caminhos inéditos para desacelerá-lo. De acordo com o próprio Horvath, uma possibilidade é a reprogramação genética das células. Em seu artigo, ele argumenta que estudos anteriores mostraram ser possível retroagir a ação do tempo sobre uma célula adulta convertendo-a em uma célula pluripotente induzida. Isso implica promover quatro alterações no DNA da célula, o que leva o tecido a atingir um estado semelhante ao de células-tronco embrionárias, aquelas que podem se transformar em qualquer tecido do corpo. No entanto, o pesquisador concorda que é necessário encontrar medidas menos extremas para acertar o recém-descrito relógio biológico.

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ACHADO
O biólogo Dias-Neto acredita que a descoberta ajudará a entender
por que o câncer acontece e pode levar ao diagnóstico mais precoce

Outro campo sensível a esse avanço é o estudo do câncer. A análise de 20 tipos de tumores evidenciou que o tecido cancerígeno é cerca de 36 anos mais velho do que o normal. A desigualdade foi igualmente observada nos tecidos saudáveis que circundam tumores de mama. Eles tinham 12 anos mais do que era esperado. “Achados como esses poderão nos ajudar a entender por que o câncer acontece e podem auxiliar a fazer um diagnóstico mais precoce”, diz o biólogo Dias-Neto. 

O oncogeneticista Bernardo Garicochea acredita que a descoberta influenciará o tratamento da doença e a demanda por novos medicamentos. “Existem remédios antigos que agem sobre essas variações nos genes em tumores onde elas são muito importantes, como a leucemia mieloide aguda e a mielodisplasia”, descreve Garicochea, que é diretor de ensino e pesquisa do centro de oncologia do Hospital Sírio-Libanês. A constatação da influência desse mecanismo deve levar à procura de substâncias mais modernas para atuar sobre esse alvo. Mais pesquisas também serão necessárias para determinar se as 353 alterações químicas no DNA representam um processo biológico que causa o envelhecimento ou é apenas um reflexo. “É uma nova perspectiva que se abre”, diz o pesquisador.