Cultura

O mordomo da Casa Branca

A história de Eugene Allen, que trabalhou 34 anos para oito presidentes americanos e presenciou as maiores crises de seus governos

O mordomo da Casa Branca

DISCRETO Allen veste seu antigo uniforme e, mais jovem, no aniversário de Gerald Ford (à dir.) na Casa Branca: no centro do poder (Kevin Clark/The Washington Post/Getty Images)

Assista ao trailer:

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Em mais de dois séculos, a Casa Branca foi ocupada por 43 presidentes. Nenhum deles, contudo, passou tanto tempo em suas dependências quanto Eugene Allen (1919-2010), um simples serviçal cuja trajetória é resgatada no filme “O Mordomo da Casa Branca”. Allen, que era negro como todos os trabalhadores da copa e cozinha, serviu oito governantes (o primeiro foi Harry Truman). Compareceu diariamente e por 34 anos ao prédio neoclássico, em Washington, sem registrar uma ausência. Ao morrer, o telejornal mais visto no país noticiou: “Poucos americanos conseguiram acompanhar tanto a história e poucos estiveram tão próximos do poder.”

Allen estava na Casa Branca quando os Kennedy chegaram devastados de Dallas, após o assassinato de JFK. Foi convidado, mas não compareceu ao enterro para poder permanecer no posto, sendo presenteado por Jackie Kennedy com uma gravata do falecido marido. Colocou-a numa moldura.

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DISCRETO
Allen veste seu antigo uniforme e, mais jovem, no aniversário
de Gerald Ford (abaixo) na Casa Branca: no centro do poder

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Foi também ele quem cuidou das dores de estômago de Lyndon Johnson, quando manifestantes exigiam o fim da Guerra do Vietnã, do lado de fora. Sua receita: uísque com leite. No filme, Allen recebeu o nome de Cecil Ganes, é interpretado por Forest Whitaker e aparece um pouco glamorizado. Na realidade, ele não começou como mordomo: entrou para o staff em 1952 para lavar louças e lustrar a prataria. Antes, havia passado por hotéis e clubes frequentados por racistas endinheirados, onde aprendeu que para sobreviver num mundo segregado era melhor não opinar sobre política e nunca dirigir a palavra, a não ser se perguntado. Ou seja: fingir-se invisível.

Foi notado, claro. Dwight Eisenhower, pintor de domingo, fez para ele uma paisagem. Gerald e Betty Ford o tratavam por Gene e celebravam o seu aniversário nas salas íntimas do palacete: ele completava anos no mesmo dia em que nascera o presidente. Era tão querido do casal Reagan que um dia Nancy disse-lhe: “Amanhã não precisamos dos seus serviços.” Allen achou que havia ganhado uma folga, mas, na verdade, estava sendo convidado para jantar com a mulher na visita oficial do chanceler alemão Helmut Kohl. À mesa, tomou o champanhe que havia estocado no dia anterior.

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NO CINEMA
Forest Whitaker interpreta Allen no filme 

Tudo isso poderia parecer um nobre exemplo de integração racial, caso não estivessem ecoando nas ruas as maiores manifestações pelos direitos civis. A situação incendiária, marcada por mortes e linchamentos da população negra, obrigou a Casa Banca a partir para resoluções drásticas que Allen, entre uma e outra rodada de chá, ouvia sem se fazer notar. Um dos momentos mais tensos deu-se com a decisão de Eisenhower de enviar tropas federais para garantir a presença de estudantes negros na Little Rock School, em Arkansas. Nessas crises, Allen chegava a ser consultado. Aconselhou o mesmo Eisenhower a relevar o cancelamento da transmissão televisiva de um show de Nat King Cole, argumentando que haveria um boicote do público sulista aos anunciantes.

Até então desconhecida, a história de Allen foi descoberta pelo jornalista Wil Haygood, autor do livro “O Mordomo da Casa Branca” (Novo Século). Após a vitória, o presidente Barack Obama convidou Allen para a área vip na cerimônia da posse – e não para um jantar, como mostra o filme. Chamou-o de um autêntico patriota. Sua trajetória teria contribuído para a mudança de mentalidade que abriria espaço para os ex-secretários de Estado Colin Powell e Condoleezza Rice, dizem os estudiosos. Por essa lógica, Allen seria o anti-Edward Snowden por excelência, o homem que meteu a língua nos dentes sobre as informações confidenciais de vigilância americana. Sem nunca comentar nada do que se passava dentro da Casa Branca – nem com a mulher ou o próprio filho –, o mordomo que sabia demais revelou apenas a ponta do iceberg do que viu e ouviu no centro de decisões do planeta.

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