Edição nº2476 26.05 Ver edições anteriores

Abaixo o PS4; viva o Capitalismus

“Quando a renda é concentrada, é possível extrair o máximo daqueles que podem e aceitam pagar mais”

Indignação geral justificada com o preço do PlayStation 4. O videogame custa R$ 839 no Canadá e não passa de R$ 1.500 no resto do mundo. As exceções? R$ 2.406 na Argentina e R$ 4.000 por aqui. As multinacionais seriam mais gananciosas no Brasil? Um videogame chamado Capitalismus ajuda a responder.

Cada jogador, chamado de empresarium, escolhe entre dois países para lançar seu produto: Ricus ou Carus. Em Ricus, você gasta $2 por produto, cujo sucesso é decidido em um cara ou coroa. Saiu cara? Você cobra $24 (preço de venda), paga $4 de imposto e fica com $20. Descontando os $2 que custou o produto, lucrou $18. Deu coroa? Pela regra, você não vende nada e ainda perde $10, além dos $2 do seu custo, ficando com um prejuízo de $12. Portanto, você ganha $18 em metade das rodadas e perde $12 na outra metade.

A cada duas rodadas, você tem um lucro médio de $6. O segundo país se chama Carus. Nele há quatro regras distintas. 1ª) O custo por produto é de $4. 2ª) O imposto é de $12. Portanto, cada vez que sair cara sobram apenas $8 para você ($24–$12–$4). 3ª) O governo criou um imposto adicional sobre lucro abusivo: metade das vezes que sair cara, ele considerará que saiu coroa. Em vez de ganhar $24, você perderá $10, que somados aos $4 pagos por rodada totalizam um prejuízo de $14. Em resumo, em Carus, você ganha $8 em ¼ das vezes e perde $14 em ¾ delas. Portanto, a cada quatro rodadas, em média, você tem um prejuízo de $34 ($8–3x$14). 4.ª) O governo pode elevar os impostos a qualquer momento.

Por que os custos por produto são maiores em Carus? Matérias-primas, mão de obra, transportes, legislação trabalhista protecionista, infraestrutura precária, burocracia e regulação excessivas, impostos abusivos. Se as regras parassem por aí, ninguém jogaria em Carus, mas em Capitalismus os empresariums determinam os preços de vendas de seus produtos e, por consequência, suas margens de lucro. Para lucrar em Carus, os mesmos $6 lucrados em média a cada duas rodadas em Ricus, os empresariums teriam de praticar um preço de venda de $58 em cada lançamento bem-sucedido, em vez dos $24 praticados em Ricus. Neste caso, em média a cada quatro rodadas, eles ganhariam $54 ($58-$4), e perderiam $42 (3x$14), lucrando $12, o equivalente a $6 de lucro médio a cada duas rodadas em Ricus.

A elevação de $24 para $58 do preço de venda em Carus é a parte mais óbvia do que, em Capitalismus, chamam de Custo-Carus, mas ainda tem mais. Como o risco é maior em Carus, os empresariums não aceitam ganhar, em média, a mesma coisa que em Ricus. Para compensar, só topam jogar lucrando mais, o que eleva ainda mais o preço de venda dos produtos em Carus. Os empresariums querem cobrar mais em Carus, mas como conseguem? Se são movidos a ganância, por que não cobrar mais em Ricus também? Porque há limites no que os consumidores aceitam pagar, mas eles são bem mais elásticos em Carus.

Carus tem uma das piores distribuições de renda e poder de consumo de Capitalismus. Em Ricus, onde a distribuição de renda é melhor, as empresums maximizam o lucro vendendo maiores volumes; em Carus, vendendo mais caro. Quando a renda é concentrada, é possível extrair o máximo daqueles que podem e aceitam pagar mais, principalmente por produtos e serviços que conotam status. A segunda razão vem do Custo-Carus. O governo de Carus aumentou repentinamente impostos para produção, importações e venda, provocando perdas para alguns empresariums. Muitos desistiram de fazer negócios por lá, diminuindo as opções de compra dos consumidores. Menos competição permite que em Carus os empresariums cobrem mais.

O que os consumidores de Carus poderiam fazer? Boicotar produtos com preços abusivos, forçando os empresariums a praticarem preços menores, e também cobrar do seu governo a redução de impostos, regulamentações e custos trabalhistas e a expansão de investimentos em infraestrutura, reduzindo o Custo e o Lucro-Carus. Tudo ficaria tão diferente que o país talvez até precisasse mudar de nome.

Ricardo Amorim é economista, apresentador do programa “Manhattan Connection”, da Globonews, e presidente da Ricam Consultoria  


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