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O dia em que a América parou

Para impedir a reforma da saúde, a direita radical encurrala Obama, paralisa o governo e torna os EUA um país inadimplente

O dia em que a América parou

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Os Estados Unidos são o país mais rico do mundo e também aquele que tem o maior número de cidadãos sem cobertura de saúde, particular ou pública. E assim devem continuar, de acordo com o desejo de uma direita feroz e bem representada no Congresso. Ela não aceita que o poder público gaste um centavo do que arrecada com impostos para amparar milhões de americanos com um plano de cobertura médica. Fanática e fundamentalista do livre mercado, esta direita que está se tornando hegemônica no Partido Republicano acusa o presidente Barack Obama de “socialista” e nesta semana partiu para a chantagem explícita contra seu governo. Para impedir a implementação do Obamacare, o projeto de reforma do sistema de saúde que foi a principal promessa de campanha do presidente, a oposição republicana vetou a liberação de verbas para gastos de curto prazo do governo. Sem o dinheiro extra no orçamento, na terça-feira 1º o governo parou, entrando no chamado regime de “shutdown”, a interrupção de suas atividades não essenciais. Em Washington, cartazes e faixas anunciaram que as instituições federais dos Estados Unidos fechavam suas portas. Cerca de 800 mil funcionários públicos estão de licença compulsória não remunerada. Repasses de verba a cidades e Estados foram suspensos. As escolas mantidas pelo governo também interromperam as atividades. Todos os serviços que dependem do dinheiro da União pararam de funcionar. A chantagem – os republicanos exigem que o Obamacare seja atrasado pelo menos por um ano – vai custar US$ 300 milhões por dia à economia americana, que ensaiava um processo de recuperação.

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SEM ACORDO
Obama declarou que não cederá aos pedidos de negociação
do Partido Republicano, que se nega a aceitar a lei da saúde
 

O presidente Obama lembrou que o governo federal é o maior empregador do país, com dois milhões de civis e 1,4 milhão de militares. “A ideia de colocar o progresso suado do povo americano em risco é o cúmulo da irresponsabilidade e não pode acontecer”, afirmou. O democrata insistiu ainda que a oposição deixe de lado as exigências ideológicas. O presidente da Câmara, o republicano John Boehner, retruca que seus partidários “lutam em nome do povo americano”. Até agora, ninguém recuou de suas posições. “A extrema direita é doutrinária em suas posições políticas e ameaça com retaliações políticas até os republicanos que discordam de suas opiniões”, disse à ISTOÉ Sandy Maisel, professor da Universidade de Colby, nos EUA.

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Em 2010, a Affordable Care Act, Lei de Atendimento de Saúde a Preço Acessível, foi aprovada quando Obama tinha a maioria na Câmara e no Senado. A lei gerou, porém, uma forte reação da ala mais conservadora dos republicanos, conhecida como Tea Party. Com o passar dos anos, mais deputados republicanos foram eleitos em distritos conservadores, sempre com a promessa de derrubar a Obamacare. Em muitos Estados americanos, as seguradoras costumam rejeitar interessados em função de seu histórico de saúde. Em outros, como Nova York, as seguradoras são obrigadas a oferecer a cobertura independentemente do histórico pessoal. Com a lei, todos os americanos receberiam um seguro saúde e o governo concederia subsídios para tornar o plano acessível às pessoas de baixa renda. “A resistência a esse sistema deve-se ao aumento da participação do setor público na área da saúde”, explica Guy Peters, especialista em política pública americana, professor da Universidade de Pittsburgh. “A preocupação com a viabilidade do programa é mínima, o que os republicanos temem é que a lei resulte em uma grande vantagem eleitoral para os democratas.” A luta de Obama para manter sua promessa de governo em pé implicou uma série de concessões aos republicanos – o setor público, por exemplo, foi excluído dos potenciais provedores do seguro saúde.

A última vez que o governo dos EUA passou por uma paralisação semelhante à imposta agora foi em 1995, quando as agências federais também deixaram de funcionar entre 16 de dezembro e 6 de janeiro, durante o governo do também democrata Bill Clinton. “Naquela época, houve realmente um problema de equilíbrio no orçamento proposto por Clinton, algo que precisava ser negociado”, analisa Maisel. “Desta vez, há uma aversão do Tea Party ao Affordable Care Act, sem chances de negociação.” Se até o próximo dia 17 de outubro o Congresso não autorizar o aumento do teto da dívida pública – que equivale a US$ 16,7 trilhões – para o ano fiscal que se inicia, a Casa Branca ficará com apenas US$ 30 bilhões em caixa, comprometendo o pagamento de dívidas. “Os EUA poderão sofrer graves consequências econômicas com efeitos sobre o comércio e uma desaceleração da economia doméstica”, prevê Peters. Para se ter ideia da amplitude do apagão administrativo, até o site da Casa Branca parou de funcionar. O secretário de defesa dos EUA, Chuck Hagel, acredita que o impasse do governo vai prejudicar a credibilidade norte-americana no Exterior e levar aliados a questionar o comprometimento do país com suas obrigações.  

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Créditos fotos: ©kevin lamarque/reuters; ©emmanuel dunand/afp photo;
©jason reed/reuters; ©jim watson/afp photo
fotos: ©AP Photo/J. Scott Applewhite;
©AP Photo/ Evan Vucci