Edição nº2488 18.08 Ver edições anteriores

Irritação selvagem

“Meus dados cadastrais que inocentemente forneço para ler uma página que me interessa na internet são vendidos para empresas”

Não estou num bom dia para escrever sobre coisa alguma. Só o que me vem à cabeça é reclamar, reclamar, reclamar. Afastem-se de mim. Sou um ser insuportável.

Na verdade eu estou triste. Muito triste. E, como não tenho nenhuma vocação para atristeza, transformo qualquer sinal de infelicidade em uma profunda irritação com coisas que merecem, sim, meu desconforto, mas jamais o meu fígado.

Estou muito cansada do congestionamento infernal que me faz chegar 40 minutos atrasada ao aeroporto só para ter que esperar mais uma hora porque a aeronave em que eu embarcaria está com problemas técnicos e vamos ter que trocar de portão, de avião e de tripulação.

Não aguento mais falar sobre o mensalão, mas ninguém vai para a cadeia e vamos ter que aguentar mais uma rodada de togas em legítima fúria no Supremo Tribunal Federal e meu temor é que acabemos concluindo que os réus eram todos inocentes, coitadinhos.

Estou furiosa por ter sido enganada pagando por um serviço de internet banda larga na minha casa e recebendo uma bandinha que faz coreto de cidade do interior parecer enorme. O serviço de atendimento telefônico informa que estou certa, mas que os técnicos só podem me visitar dentro de três semanas e não, não podem marcar horário, o que significa que tenho que ficar o dia todo esperando.

Perdi a paciência com essa comoção toda por causa do esquema de espionagem que o Obama patrocinaria contra o governo brasileiro quando meus dados cadastrais, que inocentemente forneço para ler uma página que me interessa na internet, são vendidos para empresas que lotam minha caixa postal oferecendo coisas que eu não quero comprar.

Estou indignada com as imagens recorrentes dos hospitais públicos que tratam gente tal e qual lixo e igualmente indignada com a maneira como essas imagens são repetidas à exaustão em todos os canais de televisão, transformando o drama individual e legítimo de cada doente em um massacre público e cruel.

Estou irritada com o fim das manifestações de rua que paravam o trânsito, mas abriam as comportas da insatisfação popular contra tudo e contra todos, justo como eu me sinto neste momento, justo nesta hora em que eu estava pronta para aderir de corpo e alma a qualquer protesto, qualquer levante, qualquer motim.

Minha irritação é tristeza e me transforma em uma selvagem.

Estou triste porque uma das pessoas de melhor coração que já conheci na vida foi embora justamente numa parada cardíaca fulminante, aos 52 anos de idade, e isso não é justo. Nem com ela nem comigo, que sou uma egoísta e não posso perder aquilo que conquisto de melhor: a amizade, a generosidade, a alegria.

Estou triste porque minha amiga se foi sem que eu pudesse dizer a ela o quanto tudo que ela fez foi mais importante do que qualquer coisa que eu jamais faça porque nela era tudo tão espontâneo e natural.

Estou triste e tão irritada porque, em homenagem a ela, decidi cumprir um dos acordos que fizemos e jamais respeitamos, mas que desta vez vou ter que honrar: parei de fumar.

Agora é sério, Siomara Tauster. Já não podemos mais fazer de conta uma para a outra e depois rolar de rir da traquinagem. Fim da brincadeira. O que é muito, muito triste. 


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