Economia & Negócios

Real alternativo

Em diversas cidades do Brasil, já é possível fazer compras e até pagar contas no banco usando as chamadas moedas sociais. Até 2015, estima-se que mais de 500 instituições ofereçam o serviço no País

Real alternativo

SÃO PAULO O banco Apuanã

No centro de Fortaleza, no Ceará, é possível fazer compras no supermercado, encher o tanque de combustível e até pagar contas no banco sem usar cartões ou uma nota sequer de real. Basta, nesses casos, ter na carteira cédulas do Palmas, moeda alternativa que está se popularizando nos bairros mais pobres da cidade. Graças à novidade, a dona de casa Maria Sonivanda de Souza Carneiro, 39 anos, conseguiu organizar suas finanças. “No fim do mês, se precisar, posso fazer empréstimos e tenho 30 ou 60 dias para pagar”, diz. Se na prática um palma equivale exatamente a um real, o que explica a preferência pela moeda? O Banco Palmas, instituição que criou o dinheiro alternativo, fez acordo com comerciantes locais para que os estabelecimentos ofereçam descontos aos consumidores. A estratégia é repetida pelos bancos que já lançaram 103 moedas sociais no País. “Elas estão se multiplicando porque ajudam a dinamizar a economia das comunidades menos favorecidas”, diz Paul Singer, economista e coordenador da Secretaria Nacional de Economia Solidária, ligada ao Ministério do Trabalho e Emprego.

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SÃO PAULO
O banco Apuanã é uma das iniciativas que começaram
a ganhar popularidade e expandir o comércio local

Diversos indicadores confirmam o impacto positivo que as moedas sociais geram em uma determinada comunidade. No bairro Conjunto Palmeiras, onde o palmas nasceu, as vendas no comércio cresceram 35% no ano passado e, atualmente, 93% do consumo dos moradores se dá na própria região. “Esses bairros sofreram mudanças profundas”, ressalta Singer. Outro efeito interessante é a atração de investimentos. De olho no movimento financeiro gerado pelas moedas alternativas espalhadas pelo País, a Caixa Econômica Federal aumentou sua presença nos lugares que não usam apenas o real. Para a pesquisadora Juliana Braz do Núcleo de Economia Solidária da USP, o importante agora é ampliar os serviços já existentes. “Os bancos comunitários emitem moedas sociais, mas precisam do real para pagar o valor que compram dos bancos públicos”, diz. “Por isso, é fundamental começar a pensar em como esse sistema financeiro pode se sustentar e ampliar seu fundo de crédito.”

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BANCO PALMAS
Em 2011, o Banco Central reconheceu a legitimidade da moeda
e os comerciantes de grande porte passaram a aceitá-la

Outra iniciativa transformadora é o Banco Bem, que lançou uma moeda com o mesmo nome. Mais de 31 mil habitantes de Vitória, no Espírito Santo, já utilizam os seus serviços. Diretora da Associação Ateliê de Ideias, entidade gestora do Banco Bem, Leonora Mol conta que o projeto nasceu de um grupo de mulheres que pretendiam oferecer crédito a famílias de baixa renda. Hoje, mais de 300 pessoas estão na fila esperando pela liberação de financiamentos. O banco oferece três linhas de crédito: o produtivo e o habitacional, concedidos em reais, e o de consumo, concedido em “bens”. “O banco foi um divisor de águas pela capacidade de mobilizar moradores e empreendedores em torno do desenvolvimento local”, afirma Leonora. O Banco Bem conta hoje com recursos de R$ 300 mil, mas a coordenadora já tem planos para o futuro. “Queremos criar um crédito de turismo que permita às pessoas de baixa renda viajar.” Além de doações de moradores da região, o banco recebe aportes de diversas parcerias (Inter American Foundation, Petrobras e Citi Foundation, para citar alguns exemplos).

“Fora do Brasil, as moedas sociais ajudaram
os países a enfrentar a crise e voltar a crescer”
,
diz Juliana Braz, da USP

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Para estimular o surgimento de mais bancos comunitários, o governo federal investiu, apenas em julho, R$ 18 milhões na chamada economia solidária. Desse valor, R$ 11 milhões abasteceram a carteira de crédito dos bancos alternativos. Resultado: só em São Paulo foram inaugurados cinco estabelecimentos. A Incubadora Tecnológica de Cooperativas Populares da Fundação Getulio Vargas também passou a apoiar financeiramente bancos comunitários com dificuldades de gestão. “A intenção é que eles construam um plano de negócios baseados no autofinanciamento e, assim, dependam menos de aportes do governo”, diz Felipe Bannitz, coordenador-técnico da ITCP-FGV. “Diversas cidades querem implementar o sistema e precisam estar preparadas para esse desafio.” Pelo visto, a moda das moedas alternativas vai pegar. Até 2015, projeta-se a abertura de 500 novos bancos comunitários, que vão atender dois milhões de consumidores. Se cuida, real.