Edição nº2475 19.05 Ver edições anteriores

Mensalão e trensalão

Sem uma mudança institucional, não haverá cadeia suficiente para políticos no Brasil

Qual é o objetivo número 1 de um político? Conquistar o poder. Número 2? Continuar no poder. Para isso, o que é necessário? No sistema político brasileiro, muito dinheiro privado para, primeiro, se eleger e, depois, amarrar alianças e minar o poder de adversários. Qual é o preço que se paga? Uma sucessão infinita de escândalos e conluios entre empresas e governos que têm sempre a mesma vítima: o cidadão, que paga altos impostos e recebe péssimos serviços públicos. Por isso mesmo, o novo ministro do Supremo Tribunal Federal, Luís Roberto Barroso, acertou em cheio quando afirmou que não existe “corrupção do PT, do PSDB ou do PMDB”. Existe apenas corrupção – e que não deve ser politizada, segundo ele. Barroso foi ainda mais preciso quando afirmou que “ninguém deve supor que os costumes políticos serão regenerados com direito penal, repressões e prisões”.

No mesmo dia em que ele fez esse discurso, líderes de vários partidos da base aliada chegaram a um acordo em torno de uma proposta de reforma política que aborda, inclusive, temas espinhosos, como o financiamento público de campanha. O julgamento da Ação Penal 470 será um marco, lembrou Barroso, se dele surgir um novo desenho institucional para o País. Afinal, são instituições sólidas que determinam o comportamento dos homens.

Para as forças políticas que hoje não são o alvo principal da espada penal, pode até parecer conveniente politizar a discussão da corrupção e, dela, tentar tirar algum benefício eleitoral. Mas eis que surgem novos escândalos, que põem abaixo o cinismo e a hipocrisia. O escândalo que hoje rivaliza com o “mensalão”, o chamado “trensalão” tucano, tem todos os elementos de um esquema de corrupção subordinado a um projeto de poder. Propinas eram arrecadadas junto a grandes fornecedores do setor público e destinadas a cobrir gastos de campanha – incluindo a do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em 1998. Ou seja: projetos de poder, pagos com dinheiro público. O Brasil tem hoje uma oportunidade única de reformar o seu sistema político.

E será uma pena se, mais uma vez, optar pelo caminho da hipocrisia, até que os falsos moralistas de hoje sejam desmoralizados amanhã.


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