Medicina & Bem-estar

As raízes do câncer

Em um trabalho histórico, cientistas identificam os processos que levam às mutações genéticas associadas aos 30 tipos mais comuns da doença. A informação deverá servir de base para a criação de novos métodos de prevenção e de tratamento

As raízes do câncer

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COMEÇO
Um tumor é gerado a partir de transformações no DNA das
células provocadas por agentes internos ou externos ao corpo

É sabido que todos os tumores são causados por mutações no material genético presente nas células. Também é conhecido que a ação de agentes internos e externos pode deflagrar essas alterações. Mas o que a medicina ainda não conseguiu compreender são os caminhos pelos quais ocorrem essas mudanças no DNA, fortes o suficiente para transformarem uma célula saudável em um tecido tumoral. Na semana passada, um time internacional composto por 25 pesquisadores deu um passo fundamental para superar esse desafio. Após analisar milhares de mutações encontradas no código genético de 7.042 pessoas com as 30 formas mais comuns de câncer, a equipe conseguiu caracterizar vários processos biológicos que dão origem às alterações do DNA que, por sua vez, impulsionam o desenvolvimento da doença. Ou seja, chegaram à raiz da enfermidade. “Achamos dentro do genoma dos tumores os vestígios arqueológicos das mutações que dão início ao desenvolvimento da maioria dos cânceres”, afirmou o professor Mike Stratton, que participou do estudo e é diretor do Wellcome Trust Sanger Institute, da Inglaterra. O trabalho, de importância histórica, foi divulgado pela renomada revista científica “Nature”.

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Os cientistas descobriram que cada um desses processos deixa um determinado padrão de assinatura – ou impressão genética – no material genético atingido. Ao todo, foram identificadas 21 dessas assinaturas. Os pesquisadores viram, por exemplo, que dois processos de mutação diferenciados se associam para produzir o câncer de ovário, enquanto seis processos estão envolvidos no desenvolvimento dos tumores de fígado. Dos 30 tipos de câncer analisados, 25 apresentavam assinaturas decorrentes de mutações relacionadas à idade. Outra, causada por defeitos na reparação de DNA, foi encontrada em tumores de mama, ovário e pâncreas.

Outros padrões, muito frequentes nos de maior incidência, estão relacionados a uma família de enzimas que protege as células de infecções virais. As células respondem a esse gênero de infecções ativando essa classe de enzimas. Sua função é a de infligir modificações nos vírus de modo que não funcionem mais. “Acreditamos que quando a célula ativa essas enzimas há efeitos colaterais”, explicou Stratton. “Seu próprio genoma se modifica também e ela fica muito mais propensa a se tornar uma célula cancerígena, já que tem uma série de mutações. É uma espada de dois gumes.”

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O trabalho repercutiu em todo o mundo. “As assinaturas genéticas descobertas nesse fascinante e importante estudo identificam vários e novos processos que iniciam o desenvolvimento do câncer. Entender isso irá nos levar a novas formas de prevenção e de tratamento da enfermidade”, disse o cientista Nic Jones, chefe do Instituto de Pesquisa do Câncer do Reino Unido. No Brasil, o oncologista Paulo Hoff, diretor clínico do Instituto de Câncer de São Paulo e diretor-geral do Centro de Oncologia do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, partilha da mesma opinião. “É um avanço importante para compreender as diferenças e semelhanças entre os tumores. Até agora, era possível identificar alterações em um ou outro gene relacionadas a um tipo de câncer. Essa pesquisa mostrou que é preciso uma combinação de alterações”, diz Hoff. Para o especialista, a comprovação de que existem padrões que se repetem em vários tipos de tumores influenciará o tratamento. Ele prevê também a necessidade de se fazer estudos para avaliar quais são os padrões de mutações mais comuns na população brasileira. “Sabemos que os tumores de estômago dos japoneses possuem diferenças em relação aos mesmos cânceres em brasileiros, o que poderá talvez ser explicado pelos padrões de mutação que agora estão sendo mapeados”, diz Hoff.

Foto: National Institutes of Health/ap; Joao Castellano/Ag. Istoé