Artes Visuais

No país das bolinhas

Retrospectiva em Buenos Aires traz a japonesa Yayoi Kusama, em prosa, pintura, filme e performance

No país das bolinhas

SEXO Yayoi Kusama posa dentro da instalação -Infinita Sala de Espelhos - Campo de Falos-, em 1965 ()

YAYOI KUSAMA. OBSESIÓN INFINITA/ Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba)/ até 16/9

A obsessão mais recente que se tem notícia em se tratando de pintura de bolinhas é a do britânico Damien Hirst, que nos últimos 20 anos pintou cerca de 1.400 telas da série Spot Paintings. O interesse pela repetição de pontinhos coloridos começara, no entanto, no final do século XIX, quando o pontilhista Georges Seurat desconstruiu a paisagem francesa em milhares de bolinhas. A mania pelas esferas viria a se espalhar pelos artistas da op art, nos anos 1960, mas a maior autoridade em pontos coloridos do planeta é mesmo Yayoi Kusama, cuja paixão por esferas é revisitada na mostra Obsesión Infinita, em cartaz no Museo de Arte Latinoamericano de Buenos Aires (Malba) até setembro, e em itinerância a partir de outubro por Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo e Cidade do México.

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SEXO
Yayoi Kusama posa dentro da instalação
"Infinita Sala de Espelhos – Campo de Falos", em 1965

Ao apresentar 100 obras criadas entre 1950 e 2013, a exposição esclarece que a repetição é um mecanismo presente em todas as fases dessa artista nascida em Matsumoto, no Japão, em 1929. Mais especificamente, a partir das pinturas monocromáticas da série Infinity Net (Rede Infinita), dos anos 1950, quando a artista se instala em Nova York e entra em contato com a comunidade de minimalistas lá residentes. Nessas pinturas, Yayoi repete o desenho de semicírculos brancos sobre fundo branco, criando uma textura sutil de efeito meditativo, associada por ela ao ritmo de ondas do mar.

As técnicas seriais se reproduziriam nas esculturas moles “Accumulations” (Acumulações), realizadas com tecidos, sempre em formas fálicas. Durante todo o ano de 1962, os falos de tecido se multiplicariam em quantidades imensuráveis encobrindo móveis, roupas e objetos, de modo parecido ao que apareciam na obra de outra estrangeira residente em Nova York, a francesa Louise Bourgeois. Mas as bolinhas ganham campo na obra de Yayoi em 1963, quando a artista coloca o próprio corpo em cena, inaugurando a pesquisa da body art na cena underground nova-iorquina. Nessa fase, as bolinhas proliferam por seu corpo e espaços instalativos, em gestos que a artista associa a processos terapêuticos de combate a traumas e alucinações de infância. A prática no ambiente libertário e experimental da Nova York dos anos 1970 não foi suficiente, no entanto, para liberar a artista de seus monstros. Em 1977, ela se internaria voluntariamente em uma clinica psiquiátrica, em Tóquio, onde vive até hoje.

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MÍSTICA
Na instalação "Infinita Sala de Espelhos – Plena do Brilho da Vida",
o espectador sente-se flutuar

Foram mais de 30 anos de obscurecimento até voltar à luz do sistema de arte internacional em exposição no Centro Georges Pompidou, Paris, em 2011. Na ocasião, Yayoi realizou até vitrines para a grife Louis Vuitton. A mostra passou por Londres, Madri e chega a Buenos Aires modificada. “Ao contrário da loucura, esse trabalho – apesar de ter recebido descargas psíquicas e simbólicas – é invariavelmente desenvolvido com um formidável controle de meios”, escreveu a crítica Sheila Leirner na revista “seLecT”, em ocasião da mostra em Londres.

Fotos: Cortesia Ota Fine Arts. Tokio; Victoria Miro Gallery, Londres; David Zwirner, Nova York; Yayoi Kusama Studio