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Por que os ventos da austeridade não sofram por aqui?

No mundo inteiro, autoridades dão exemplos de comedimento com gastos e simplicidade nos costumes

Por que os ventos da austeridade não sofram por aqui?

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Mais do que a exata tradução da opção franciscana, a imagem do papa Francisco carregando a própria mala remete a uma reflexão política, que nada tem a ver com a fé ou com as doutrinas da Igreja. Além de líder religioso, o papa é a autoridade máxima de um Estado que funciona amparado em mais de dois mil anos de história. Não seria de se estranhar, portanto, que pompas e regalias inimagináveis fizessem parte do dia a dia de quem ocupa tal posição. Mas, ao carregar a própria mala e ao transitar em automóveis comuns, o papa se coloca como um líder igual a seus liderados. Se contrapõe ao figurino político tradicional que afasta os comandantes dos comandados. E, assim, coloca-se em harmonia com os gritos que, de formas diferentes, ecoam nas ruas de todo o planeta. Quando os comandados ocupam as praças para pedir transparência e respeito com os recursos públicos, estão, na verdade, pedindo uma nova ordem. E quem carrega mais de dois mil anos de história mostrou ter compreendido isso. No Brasil, os eleitos, independentemente da coloração partidária, estão muito distantes dessa compreensão. Por aqui, ainda predomina a noção de que poder e mordomia caminham lado a lado. Quanto mais benesses, maior o poder. É essa a máxima que insiste, por exemplo, em manter no ar os jatinhos da FAB em missões privadas. Austeridade ainda é apenas um vocábulo usado em discurso. Está longe de ser uma ação concreta.

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No poder desde 1707, quando os reinos da Inglaterra e da Escócia se uniram, até a realeza britânica vem há algum tempo demonstrando sintonia com essa nova ordem que os políticos brasileiros teimam em não enxergar. Na terça-feira 23, o príncipe William e a duquesa de Cambridge, Kate Middleton, deixaram o hospital St. Mary levando nos braços o recém-nascido George Alexander Louis. As ruas ao redor da maternidade estavam tomadas por uma multidão que passou dias e noites em vigília à espera para saudar o bebê real. Com um sorriso no rosto, o casal acenou para o povo. Em seguida, o príncipe abriu a porta traseira de sua Land Rover, acomodou o bebê em uma cadeirinha especial e ele mesmo sentou-se ao volante rumo ao Palácio de Kensington. Nada de carros oficiais, motoristas, batedores para evitar o trânsito londrino ou ostensiva segurança. Fora da realeza, o primeiro-ministro David Cameron protagoniza diariamente cenas que parecem obras de ficção aos olhos dos que se acostumaram aos hábitos das autoridades brasileiras. Apesar do poder que detém tanto na Inglaterra como em toda a Europa, Cameron vai trabalhar de metrô. E invariavelmente faz parte do percurso em pé, pois, quando entra no trem, o mesmo costuma estar com os assentos todos ocupados. Durante atividades de lazer, o primeiro-ministro também faz questão de se portar como um cidadão comum. Há cerca de 20 dias, retornava de férias com a mulher, filhos e uma babá de Ibiza para Londres. Viajava na classe econômica, como qualquer mortal inglês.

Também na Holanda a identificação com uma nova forma de exercer o poder se faz visível. Em abril, quando o príncipe herdeiro, Willen-Alexander, casado com a argentina Máxima Zorreguieta, foi entronizado, houve uma festa em Amsterdã que levou às ruas mais de um milhão de pessoas. Para o palácio real se locomoveram autoridades dos cinco continentes. Na ocasião, coube ao novo rei encaminhar uma mensagem a seus convidados pedindo para que não levassem nenhum tipo de presente, em respeito à austeridade que a crise econômica tem imposto aos vários governos europeus.

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É verdade que o papa, o príncipe, o primeiro-ministro e o rei pertencem a uma espécie de políticos forjada ao longo de séculos, que vivenciaram guerras e revoluções. Isso os faz bem diferentes dos políticos brasileiros. No entanto, tal constatação não pode servir de justificativa para o que se observa por aqui. Nem mesmo o fato de estarmos em um continente historicamente novo serve de desculpa. E a prova disso está no vizinho Uruguai. Lá, o presidente José Mujica, casado com uma senadora, abriu mão de morar no palácio presidencial e vive em seu pequeno sítio nos arredores de Montevidéu. Vai trabalhar todos dias dirigindo o próprio carro, um Fusca 1987. Durante o dia, quando precisa se deslocar, usa o carro oficial: um Corsa. E o aparato de segurança que o cerca é formado por apenas duas pessoas. “Sou um uruguaio e tenho que viver como vive a maior parte dos uruguaios. Só assim poderei entender quais as reais necessidades do país e trabalhar por elas”, diz o presidente de 77 anos. São ensinamentos que vêm de longe e de perto. Não aprende quem não quer.

Fotos: Riccardo De Luca/AP Photo; Kevin Coombs/REUTERS; ANDREW COWIE/AFP PHOTO