Cultura

O ditador deprimido

Nova biografia de Getúlio Vargas revela face melancólica do estadista que mais de 20 anos antes de se matar já fantasiava com a própria morte

O ditador deprimido

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Uma guerra civil, um levante comunista, um golpe de Estado, duas constituições, uma guerra mundial e muitas, muitas cisões políticas e militares. O segundo volume da trilogia que pretende dar conta da vida do ex-presidente Getúlio Vargas atravessa um dos mais conturbados e revistos períodos da história brasileira – o que compreende os anos de 1930 a 1945, como avisa o subtítulo do livro que chega às lojas no próximo fim de semana. Mas o maior interesse de “Getúlio: do Governo Provisório à Ditadura do Estado Novo (1930-1945)” (Companhia das Letras), do jornalista Lira Neto, não se encontra nos fatos históricos, mas no retrato exasperado, hesitante e quase sempre decepcionado do estadista.

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Foto para a revista "Life", em 1941, na época do
chamado "discurso da virada pró-americana"

Dono de dois Jabutis, ambos por biografias (de José de Alencar e Padre Cícero), Lira Neto municiou-se dos diários de Getúlio (ao todo, 13 cadernos), de sua correspondência pessoal e de longas conversas com a neta do governante, a socióloga Celina Vargas do Amaral, para recontar esse trecho da saga getulista – a primeira, que abarca a formação do advogado gaúcho até a tomada do poder, permaneceu por 11 semanas na lista dos mais vendidos em São Paulo. A leitura, mais ainda que na obra anterior, transcorre numa constante oposição entre a onipotência e as ações truculentas e precisas do político e seu comportamento melancólico longe das câmeras, em desabafos desanimados e fatalistas, como se vivesse sempre em via de desistir.

Ao assumir o poder provisório, Getúlio não tinha 50 anos. Mas já na época mal dormia à noite e cochilava durante o dia, no meio do expediente, por cantos não tão discretos dos edifícios públicos da capital do País, o que rendia a fotojornalistas do Rio de Janeiro material de encher os olhos da oposição. Sua indisposição preocupava os companheiros políticos. “Teu pai anda escrevendo umas coisas em um caderninho que ele esconde sempre.

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FORMAÇÃO
Getúlio, em visita à Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, em 1938,
ano de consolidação do Estado Novo e do fim do romance com Aimée Simões Lopes

Hoje ele me leu algumas notas que me deixaram preocupado”, escreveu Oswaldo Aranha, em 1932, a Alzira Vargas, primogênita do líder do Estado.
Em 1932, ou seja, 22 anos antes de dar cabo à própria vida, Getúlio rascunhou, numa das cadernetas que hoje pertencem à fundação que leva seu nome, um primeiro bilhete suicida. Durante a Segunda Guerra Mundial, ao declarar-se contra o Eixo, registra mais uma vez que não aguentaria o fato de poder ter tomado a decisão errada. Até a véspera de sua queda, em 1945, muitas outras anotações revelam uma fantasia recorrente do caudilho: morrer em combate. Em um ataque ao Palácio da Guanabara, o livro conta que os filhos tiveram de insistir para que ele saísse da mira dos atiradores.

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Os meses que se seguiram a essa invasão a balas da residência dos Vargas (encerrada com o fuzilamento dos rebeldes integralistas dentro dos domínios do prédio oficial) trazem uma lacuna nas linhas de infelicidade e desapontamento dos diários do presidente. Mal as balas do ataque à família foram recolhidas, Getúlio se dirigiu para a garçonnière onde se encontrava com Aimée Simões Lopes, que alcunhara de Bem-Amada em suas anotações. Mas a amante o deixaria naquele mesmo ano. Nos meses que se seguiram, os diários voltam a suas cores soturnas. Foi uma fase em que o presidente passava horas de suas tardes a olhar para a cama vazia onde vivera, em plena implantação do Estado Novo, uma “paixão alucinante e absorvente”, da qual parece nunca ter se recuperado. Mais tarde ele escreveria que com o fim daquele ano, 1938, também terminava o que seria sua “fina razão de viver”.

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E, como ensina a escola da literatura melancólica, ironia e sarcasmo não faltavam, mesmo em momentos limítrofes, como quando o tiraram do poder, cortando a energia elétrica do Guanabara. “Isso está mais parecendo uma ação de despejo que um golpe de Estado. Só falta aparecer o oficial de justiça”, escreveu.

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Leia um trecho do livro que expõe o lado romântico do ex-presidente do Brasil:

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Fotos: Diário da noite/D.A Press Brasil;Felipe Rau/Agência Estado; Bettmann/Corbis