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Entrevista

Zeca Pagodiho

“Ganho mesada da minha mulher”

“Ganho mesada da minha mulher”

Aos 54 anos, o maior sambista do País diz que não controla o próprio dinheiro, tenta dormir cedo e mantém uma alimentação saudável. Só não abre mão da cerveja gelada

por João Loes
Edição 07.08.2013 - nº 2281

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VERSÃO COMPORTADA
Zeca diz que não abre mão de jantar pelo
menos uma vez por semana com toda a família

O cantor e compositor Zeca Pagodinho é do tipo que muda sem mudar. Já vive na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, há anos, mas não abandona seu sítio em Xerém, bairro humilde de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Diz não ser mais da boemia, mas vez ou outra escorrega para a noite. Reclama que está cansado demais para fazer shows, mas brilha com frequência em palcos pelo Brasil. No ano em que completa três décadas de carreira e 54 anos de idade, Zeca ainda é o sambista que sempre foi, embora suas condições de vida e de trabalho tenham melhorado substancialmente desde que se tornou um dos artistas mais populares e bem remunerados do País. Mas o sambista não é dado a luxos. Uma cervejinha aqui, uma melhoria no sítio em Xerém ali e pronto. Viagens não lhe interessam. Carros, muito menos – ele não dirige. Com o mundo a seus pés, Zeca diz trocar tudo pela roda de amigos e por uma cerveja gelada. Ao sítio em Xerém, onde funciona o “Clube dos Canalhas”, ele vai todo final de semana e passa os dias cozinhando, cantando e, claro, bebendo. É exemplo máximo de quem só faz o que quer e, por isso, não só por sua boa música, cativa tanto. Em conversa com ISTOÉ, durante a temporada de shows que fez em São Paulo no mês de julho, falou de samba, das manifestações que têm tomado o Brasil e do medo que sente da morte.

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"Não gosto de viajar. Só Rio, Xerém, Xerém, Rio.
Eu sinto muita saudade das minhas coisas, da
minha cadeira, da posição da minha televisão”

 

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“Já fui da boemia, hoje não sou mais.
E a minha rapaziada também está igual.
Como o Arlindo Cruz, por exemplo.
Faz o show e vai embora dormir"

ISTOÉ

O sr. começou a nova turnê, “Vida que Segue”, por São Paulo. Acha que a capital paulista é o túmulo do samba?

Zeca Pagodiho

O quê? Quem fala isso?

ISTOÉ

Vinicius de Moraes.

Zeca Pagodiho

Mas ele (Vinicius) não foi samba, foi bossa nova.

ISTOÉ

Acho que ele se considerava sambista, sim.

Zeca Pagodiho

Você viu o Vinicius alguma vez na Vai-Vai ou na Camisa Verde (escolas de samba paulistanas)? Pois é… A gente é sambista. E se o samba não estala aqui (São Paulo), não estala em lugar nenhum. Aqui é que tem que ser o canal. Eu me lembro que, antigamente, todo mundo que gravava um LP, quando vinha para São Paulo, virava um sucesso. Era assim: se vinga aqui, vinga no Brasil. E tem muita gente boa em São Paulo.

ISTOÉ

Hoje, quando o sr. vem fazer shows em São Paulo, consegue reencontrar seus amigos, visitar as quadras?

Zeca Pagodiho

Às vezes, mas, muitas vezes, não dá, não. Porque quando a gente encontra os amigos, sabe como é, né? Você não quer mais sair de onde está. E eu estou aqui para o show. Um dia a gente foi lá para a Camisa Verde. A gente estava de carro e eu falei: “Passa em frente à minha escola.” Vimos uma muvuquinha e eu decidi entrar. Era uma festa da velha guarda. Aí danou tudo. E para sair de lá? E tem show à noite, como é que faz? Aí já bebe mais que o limite, não dá. Você sai do foco e não quer voltar.

ISTOÉ

No show, um assistente troca a cerveja do sr. a toda hora…

Zeca Pagodiho

Ele que não troque… Eu vou beber coisa quente? Eu não. Santo é que bebe bebida quente.

ISTOÉ

O sr. também bebe vinho durante o show.

Zeca Pagodiho

Quando a garganta começa a arranhar, por causa do gelado da cerveja. Fico com medo de ficar rouco. E ali, como tem muita luz quente, se você fica bebendo e cantando, pode perder a voz.

ISTOÉ

A relação do sr. com a cerveja é famosa. Já sofreu pressão para parar de beber? Ou para não beber publicamente?

Zeca Pagodiho

Sim, do médico. E o médico que pediu, eu troquei. Nunca mais falou comigo. Por que eu vou parar de beber? Já me viu fazendo arruaça pela rua, brigando? Eu não sou um pau d’água, eu sou um bebedor de cerveja. Gelada, por favor. E copo limpo.

ISTOÉ

O sr. dirige automóvel?

Zeca Pagodiho

Nem a minha vida eu dirijo. Só ando de táxi e, se tiver engarrafamento, eu desço, entro no primeiro botequim que vejo, ligo para casa e digo: “Olha, vou ficar aqui bebendo até acabar esse nhem-nhem-nhem…”

ISTOÉ

O sr. gosta de ficar sozinho?

Zeca Pagodiho

Eu não! Nasci sozinho… vou ficar sozinho? Na minha casa em Xerém, sempre tem muita gente, mas no quintal. Quando quero ficar sozinho eu vou para o meu quarto e durmo. E no quintal continua a festa. É uma beberrança, uma cantoria. Mas é bem animado. Em Xerém a gente faz o pior pagode do mundo, porque está todo mundo doidão. Não tem artista lá. Lá é o pessoal do botequim, da rua. Outro dia teve um cara que foi lá e fez um solo de triângulo! Agora está na ata: proibido tocar triângulo.

ISTOÉ

Tem uma ata em Xerém? Um regulamento?

Zeca Pagodiho

Tem, do Clube dos Canalhas. Tem que ter. Pensa aí, quatro bêbados, um com um triângulo. Três batucando na mesa, cada um em um ritmo e o quarto, em outro ritmo, no triângulo. Eu olhando aquilo assim… tem de ter uma ata!

ISTOÉ

O sr. se esforça para manter a rotina familiar? Faz as refeições com a família?

Zeca Pagodiho

Na minha casa, tem a mesa de jantar com o meu lugar marcado. E, nas segundas-feiras, todo mundo vai para lá, porque os garotos moram cada um em um apartamento, na Barra da Tijuca. Mas quase todo dia tem alguém.

ISTOÉ

O que o sr. acha das manifestações que ocorreram no Brasil em junho?

Zeca Pagodiho

Acho muito legal, demorou! Só não acho legal essa zona que alguns fazem, quebrando tudo. Isso aí eu não acho bacana. Mas cobrar, já está mais do que na hora. A gente não pode mais pagar o que a gente paga e ver criança na rua jogando bolinha. Se for para o hospital, pode saber que vai morrer. Pode inaugurar, dizer que está tudo novinho, mas entra lá e não tem nada dentro! Não tem médico, não tem maca, não tem aparelho, não tem nada. A educação também está muito ruim. Outro dia vi uma coordenadora falando na televisão “a gente vamos”. Se a coordenadora fala assim, imagine o aluno? Eu acho que está esquisito. Muita fome, muita miséria no Brasil.

ISTOÉ

O que mais dá prazer ao sr.? Gosta de viajar, por exemplo?

Zeca Pagodiho

Não gosto de viajar. Só Rio, Xerém, Xerém, Rio. Para fora do Brasil eu vou pouco, mas vou agora de novo, por causa dos meninos. Vou de férias com as crianças para Miami. E em setembro faço Brazilian Day em Nova York e Las Vegas. Não gosto de sair, eu sinto muita saudade das minhas coisas, da minha cadeira, da posição da minha televisão.

ISTOÉ

O que dá mais dinheiro: vender disco ou fazer show?

Zeca Pagodiho

Isso é outra coisa que eu também não acompanho. Não sei fazer essa conta. Nunca me preocupei com isso. Quanto vendeu…

ISTOÉ

Quem cuida do dinheiro do sr.?

Zeca Pagodiho

Minha mulher, meu filho. Só quero ganhar a minha mesada e ir para a rua gastar. Ganho mesada da minha mulher. E, às vezes, ela atrasa o pagamento. Falei para a Mônica que vou processá-la por isso, pois, no mês passado, não me pagaram. Falei que eu queria os meus dois pagamentos. Mas eu não gasto muito, não.
 

ISTOÉ

Quantos shows o sr. faz por ano?

Zeca Pagodiho

Não tenha a menor ideia, mas sei que é menos que a minha empresária gostaria que eu fizesse. Não tenho mais saúde para fazer isso, não. Gosto de dormir cedo. Já fui da boemia, hoje não sou mais, não. Só tem violência. Acordo de manhã, um matou não sei quem, outro matou ali. Não dá. Vou sair para onde? E a minha rapaziada também está tudo do mesmo jeito que eu. Não está mais saindo, não. Arlindo Cruz, Jorge Aragão, o Fundo de Quintal. O pessoal faz o show depois vai embora dormir! Vê os músicos da minha banda. Era para todo mundo estar no botequim. Vai lá ver, estão todos na tevê, assistindo a jogos de futebol, vôlei.

ISTOÉ

O sr. sofre muito assédio feminino?

Zeca Pagodiho

Isso é… deixa de lado. Ah, amigo… eu estou no mundo, né? Se quiser me dar um beijo eu vou dizer que não? Que a minha mãe não deixa? Não custa nada… não posso é… sei lá… (gargalha).

ISTOÉ

O sr. acha que contribuiu para diminuir o preconceito com o pagode?

Zeca Pagodiho

Acho que sim. A gente elevou o patamar de produção, dos arranjos, de cuidado, dos lugares onde a gente se apresenta.

ISTOÉ

O sr. cuida da saúde? Faz exercício, tem uma alimentação saudável?

Zeca Pagodiho

Cuido da saúde, mas não faço exercício. Nenhum exercício. Só assim, ó (levanta o copo até a boca). Não faço porque não gosto, acho muito chato. Olha, você vê a pessoa ficar andando, correndo… dá um tempo! Andei até caminhando… mas não dá. Quanto à comida, estou com 54 anos, então não posso mais comer o que eu comia: um mocotó aqui, uma pimenta ali, uma tripa acolá. Minha glicose está sempre alta, tenho de ficar controlando.

ISTOÉ

Certa vez o sr. disse que “as apostas eram de que eu não passaria dos 30 anos”. O sr. chegou a acreditar nisso?

Zeca Pagodiho

Nunca acreditei, mas todo mundo apostava nisso, porque eu era muito doido. Eu só vivia na rua, era muito magrinho, não ia para casa, cada dia dormia com uma mulher diferente. Eu vivia na zoeira. Por isso eu evito sair hoje – porque quando vou não tenho medida.

ISTOÉ

O sr. tem medo da morte?

Zeca Pagodiho

Quem é que não tem? Tenho medo da morte e medo de morto. Velório vou só de longe. Hoje nem vou mais. Mando só coroa. Ligo para minha assessora e digo: “Jane, mais um finado.”

ISTOÉ

Mas o sr. gostaria de viver 100 anos?

Zeca Pagodiho

Se eu estiver legal, quero. Mas, se for para alguém cuidar, não. Me dando banho, essas coisas, não quero, não. Peço a Deus, quando não der mais para mim, ó (assobia). De preferência morrer normal, né?

ISTOÉ

O que é morrer normal?

Zeca Pagodiho

Deitar e morrer, pô! Meu primo não morreu assim? “Fui!” E morreu! Ele passou mal, aí falou para o irmão levá-lo ao hospital. Só que o trânsito estava ruim. E ele… “Fui!”. E morreu.
 

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