Comportamento

Andes brasileiros

Uma histórica onda de frio transforma as paisagens e traz ao País temperaturas típicas de inverno europeu, mas o Brasil não está preparado para isso

Andes brasileiros

PAISAGEM Serra do Tabuleiro (SC), vista de Florianópolis, amanheceu

A Serra do Tabuleiro ama­nheceu grisalha na terça-feira 23. Velha conhecida na paisagem de Florianópolis (SC), ela estava salpicada de neve no topo. Tinha ares andinos, literalmente. Isso porque uma massa de ar polar ficou aprisionada por vários dias no norte da Argentina e, quando chegou ao Brasil, registrou um frio histórico. Nevou em pelo menos 128 cidades da região sul do País. Em Curitiba, os flocos não caíam há 38 anos. O clima gerou caos nos aeroportos e bloqueou estradas, provocou deslizamentos e prejuízos para agricultores, mostrando o despreparo das autoridades brasileiras. Mas também tingiu de branco carros e telhados, enfeitou quintais com bonecos de gelo e movimentou o turismo das áreas serranas.

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PAISAGEM
Serra do Tabuleiro (SC), vista de Florianópolis,
amanheceu com jeito de alpes suíços

São Joaquim, Urupema, Urubici e Bom Jardim da Serra, em Santa Catarina, receberam milhares de visitantes. Nesta última, a sensação térmica chegou a 25ºC negativos, temperatura digna de inverno europeu (leia quadro) e ideal para saborear os vinhos produzidos no entorno. Um atleta arriscou até deslizar de snowboard ao lado das araucárias no município catarinense de Rancho Queimado, a 810 metros de altitude. “Extrapolou todas as expectativas”, diz o presidente da Santa Catarina Turismo, Valdir Walendowsky. “Se tivéssemos o triplo da capacidade hoteleira, estaríamos lotados.”

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Como veio se deslocando do interior do continente rumo ao oceano, a massa polar deixou rastros gélidos inclusive nos Estados do Acre, Rondônia, Mato Grosso do Sul e São Paulo. Todos tiveram quedas acentuadas de temperatura. Durante dois dias, os termômetros da capital paulista não passaram de 10ºC, com mínima registrada em 4ºC. Na pele, a sensação chegou a -1ºC para quem circulava na avenida Paulista, enfrentando rajadas de vento, na noite da quarta-feira 24.

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ESPETÁCULO
Em São Joaquim, a moto congelou com as temperaturas negativas.
Em Canoinhas, noites foram de neve pesada

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O clima europeu preocupou a Secretaria de Assistência Social da Prefeitura de São Paulo, que colocou 400 profissionais para convencer moradores de rua a permanecer em abrigos da prefeitura – e evitar mortes por hipotermia. “Poucas vezes o paulistano sentiu um frio assim; o pior deles talvez tenha sido em 1975”, diz a meteorologista Josélia Pegorim, da Climatempo. “E, mesmo para quem já havia previsto essas condições, surpreendeu-se com a quantidade e a abrangência da neve em tantas cidades.”

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