Cultura

O desabafo de Orson Welles

Em conversas inéditas gravadas nos três últimos anos de sua vida, o diretor de "Cidadão Kane" faz fofocas envolvendo Marilyn Monroe e Greta Garbo e ataca ídolos como Woody Allen e Charles Chaplin

O desabafo de Orson Welles

Sempre brilhante em cena, o comediante Charles Chaplin mostrava-se tolo e mesquinho quando o assunto era a defesa de seus interesses. Não muito diferente, mesmo um shakespeariano como sir Laurence Olivier tinha lá suas mazelas. Vaidoso ao nível da estupidez, era no fundo um apaixonado por si próprio. Ainda assim eram grandes atores, o contrário de Ingrid Bergman, que perto deles, não atuava propriamente: fazia apenas boas poses para a câmera. No mesmo patamar estaria Humphrey Bogart, que, apesar da formação intelectual, nunca ultrapassou a condição de intérprete de segunda categoria. Essas opiniões sobre alguns dos maiores mitos da época de ouro de Hollywood soariam como puro disparate caso não tivessem saído da boca de um dos grandes gênios do cinema americano, o cineasta Orson Welles. O diretor de “Cidadão Kane” desancou muitos amigos de profissão em conversas informais com um desconhecido cineasta que se tornara seu confidente. Entre 1983 e 1985, quando Welles foi encontrado morto em seu quarto com uma máquina de escrever sobre a barriga, os dois marcaram ponto no restaurante Ma Maison, em Beverly Hills. Aos 68 anos e fazendo uso de uma cadeira de rodas, o ex-enfant terrible não conseguia dinheiro para realizar seus filmes e muito menos atuar ou fazer comerciais – estava com a carreira acabada. Mas seu sarcasmo e provocação continuavam afiados. Guardadas durante três décadas numa empoeirada caixa de sapatos, as 40 fitas foram transcritas e publicadas na semana passada nos EUA no livro “My Lunches with Orson – Conversations Between Henry Jaglom and Orson Welles” (Meus Almoços com Orson – Conversas entre Henry Jaglom e Orson Welles). É o seu desabafo derradeiro sobre o ambiente milionário que fez a sua fama e depois lhe fechou todas as portas.

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Welles tinha mesa cativa no Ma Maison, onde se destacava dos frequentadores pela presença exótica e a voz tonitruante em contraste com o latido agudo da poodle negra, sempre a postos em seu colo. Entre um prato e outro, falava sobre tudo – política, notícias do momento, o inevitável cinema e, especialmente, os caprichos de astros e produtores. Nessas horas, sua língua revelava-se mais perigosa que as mordidas de Kiki. “Até entendo a distância que os estúdios mantêm de mim. Por que não o fariam? Nunca lhes proporcionei grandes lucros”, disse sobre ser abandonado por Hollywood. Ressentido em sua posição de marginal chique, atacava os bem-sucedidos comercialmente, caso de Woody Allen, em cujos filmes não via qualquer valor artístico. “Ele tem a doença chapliniana, aquela combinação de arrogância e timidez que me faz ranger os dentes. Allen odeia a si próprio e ao mesmo tempo se adora. É uma situação, no mínimo, contraditória.”

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A lembrança de Chaplin fazia todo sentido, já que o ator-clown o havia passado para trás na produção do filme “Monsieur Verdoux”, não o creditando pela autoria do roteiro (o comediante o comprou por US$ 1,5 mil e atribui a Welles apenas a “inspiração” do filme). “Chaplin estava sendo acusado de plágio por ‘O Grande Ditador’ e me disse que, para reforçar sua defesa, deveria ser o autor de todos os seus filmes. Garantiu que, terminado o caso, me daria o crédito”, diz ele. Não o fez e essa é uma das velhacarias que ele aponta no ex-amigo, uma espécie de moeda corrente em um meio em que o poder e o desmando eram reis aos quais nem o entrevistado evitava o papel de vassalo. Veja, por exemplo, o que se passou com a iniciante Marilyn Monroe, antiga namorada do cineasta. Welles diz que ninguém dava a mínima para a loira e que, ao apresentá-la ao produtor Darryl Zanuck, ele se dispôs a contratá-la por apenas US$ 125 por semana. “Seis meses mais tarde, Darryl estava pagando US$ 400 mil e todos os homens a desejavam”, disse ao amigo Jaglom.

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Apesar de odiar o seu nariz de bebê, Welles foi um notório sedutor e casou-se com um dos grandes símbolos sexuais de sua época, a atriz Rita Hayworth, sobre quem fala pouco no livro: diz apenas que ela não gostava de sair de casa. No final dos anos 1940, quando o casamento de cinco anos estava arruinado pela paixão do cineasta por uma jovem italiana, Rita tentou resgatar Welles convidando-o para passar um fim de semana em um hotel às margens do Mediterrâneo. Foi até ela em um voo de carga, entre caixas e pacotes, e passou em sua companhia uma noite. Cinco dias após a sua despedida, Rita casou-se com o milionário italiano de origem paquistanesa Aly Khan. Segundo Welles, fazia anos que ela queria abandonar a loucura que era o mundo do cinema, um universo movido a vaidade e arrogância onde o próprio Welles confessa que nunca deveria ter posto os pés.

Fotos: everett Collection/Keystone Brasil Paramount/The Kobal Collection; Divulgação; MIGUEL MEDINA/AFP PHOTO