Comportamento

A força da mensagem da humildade

Em sua primeira viagem internacional oficial, Francisco, o papa do povo, mostra ao mundo uma nova forma de liderar a Igreja Católica, com simplicidade e transparência

A força da mensagem  da humildade

NA MULTIDÃO

Ao sair dos domínios do Vaticano pela primeira vez como líder máximo da Igreja Católica, em sua viagem internacional inaugural, Francisco, o papa latino-americano que tem arrebatado fiéis a cada gesto, fala ou aparição, terá a oportunidade de amplificar sua mensagem de humildade, que, mais do que um marcante traço de personalidade, já começa a provocar profundas modificações na milenar instituição religiosa, tão alquebrada por escândalos de ordem financeira e moral. No Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, o pontífice argentino falará para milhões de pessoas, em eventos no Rio de Janeiro e em Aparecida (SP), mas sabe que os olhos e ouvidos do mundo, além do 1,2 bilhão de católicos, estarão voltados para ele, mestre em quebrar protocolos (que o diga o comitê responsável por sua segurança no Brasil, preocupadíssimo com os já famosos improvisos papais). Não à toa, seus discursos têm sido preparados há meses, por ele próprio – essa também uma novidade, pois os outros pontífices tinham assessores para tal tarefa. Para o dominicano Frei Betto, esta semana, no Brasil, será inaugurado de fato o pontificado de Bergoglio. “Durante a jornada, ele vai abrir o jogo e dizer a que veio”, diz.

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NA MULTIDÃO
No Brasil, Francisco deve quebrar protocolos para
se aproximar dos fiéis, como já faz na Praça São Pedro 

Não que o papa Francisco tenha se furtado de marcar suas posições. Em pouco mais de quatro meses de pontificado, já promoveu uma pequena revolução na engrenagem da Santa Sé, inaugurando o que muitos vaticanistas têm chamado de “papado do terceiro milênio”. Sua alma simples, completamente desprovida de vaidade e avessa a luxos, já provocou grandes mudanças, tanto na dinâmica interna da Igreja quanto na sua burocracia. Desde que assumiu o trono petrino, o sumo pontífice vem dando testemunhos diários do valor que dá à modéstia e à sobriedade. Ele optou por não morar no luxuoso apartamento a que tem direito, por exemplo, e continua na residência que ocupou na época do conclave. Tem se recusado a circular nos Mercedes-Benz oficiais e faz questão de almoçar no refeitório, ao lado dos religiosos, além de ter abandonado as vestimentas pomposas típicas dos papas. “É o estilo dele, desde que ele era bispo em Buenos Aires, e ele não tem por que mudar”, afirma João Batista Libânio, teólogo jesuíta do Instituto Santo Inácio, em Belo Horizonte. “Agora, o desafio será conseguir imprimir esse estilo pessoal de simplicidade à instituição Igreja.”

O pontífice acredita que, com seu testemunho, irá estimular a hierarquia católica a se despir da pompa e circunstância que costuma circundá-la. Mas, para não deixar dúvidas, Francisco já expediu algumas regulamentações, como a que orienta os religiosos das dioceses do mundo inteiro a não circularem com veículos caros – prática muito comum, por sinal. Para frei Libânio, a mensagem de humildade do papa tem um objetivo tão claro quanto nobre, principalmente quando lembramos que Bergoglio é um jesuíta: ele quer aproximar a igreja, encastelada nos ricos templos, de seu rebanho. E o santo padre parece verdadeiramente disposto a mover montanhas para que essas barreiras finalmente caiam. Não foram poucos os exemplos de interferência institucional nesses primeiros meses de papado no sentido de atingir esse propósito. O primeiro e mais expressivo foi a mudança na política de punição dos desmandos de uma antiga instituição da Santa Sé, o Instituto para as Obras de Religião (IOR), conhecido como Banco do Vaticano.

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ANSIEDADE
Doze estudantes do Seminário Arquidiocesano São José, no Rio de Janeiro,
ajudarão o pontífice durante as celebrações no Rio

Não é de hoje que o órgão e seus diretores se veem envolvidos em denúncias de roubo e corrupção. Mas, no passado, eram raras as ocasiões em que demissões e afastamentos, mesmo de funcionários de baixo escalão, aconteciam. Pois, dessa vez, em escândalo revelado durante o atual pontificado, no final de junho, dois dos mais importantes diretores da instituição, Paolo Cipriani e Massimo Tulli, acusados de participação em esquema de lavagem de dinheiro, foram pressionados a pedirem demissão e deixaram seus cargos dias depois da notícia do crime. Em meio ao escândalo, Francisco criou uma comissão, da qual faz parte uma perita da Universidade de Harvard, e apontou um prelado, ou delegado pes-soal do papa, para avaliar de que maneira o Banco do Vaticano se encaixa na missão universal da Igreja Católica – se é que se encaixa. Afinal, com 19 mil correntistas, custo operacional anual de 25 milhões de euros e lucro no período de cerca de 70 milhões de euros a instituição parece funcionar em estranha dissonância com o que prega a igreja à qual pertence. E o papa sabe que incoerências como essas afastam os fiéis. “São Pedro não tinha conta bancária”, disse, resumindo o que pensa sobre o IOR durante uma homilia, na Casa Santa Marta, onde mora.

Uma possível reforma do Banco do Vaticano, um dos objetivos da comissão montada a pedido de Francisco, se insere num contexto bem maior de mudanças estruturais previstas para a Cúria Romana, órgão administrativo da Santa Sé que é tão poderoso quanto problemático. Palco de nepotismo e de desvios financeiros, a Cúria e seus problemas – que teriam, inclusive, motivado a renúncia de Bento XVI – surgiram como grande tema das discussões entre os cardeais antes da eleição do novo papa. A opinião geral era de que o órgão precisava de uma reforma ampla, um verdadeiro choque de gestão para que, como o Banco do Vaticano, voltasse a funcionar como uma instituição religiosa, não mundana. Bergoglio, já como Francisco, não tardou a atender aos anseios de seus colegas e dele próprio, que também havia apontado a reforma da Cúria como um tema prioritário. Em abril, menos de um mês depois de eleito papa, montou uma comissão com oito cardeais de nacionalidades diferentes, sendo apenas um membro da Cúria e quatro de países em desenvolvimento, cuja missão é fazer um rigoroso levantamento dos quadros e atribuições da estrutura administrativa da Santa Sé. Como se trata de um tema com urgência sem igual, o grupo trabalhará inclusive durante as férias de verão europeias, quando tudo, inclusive o Vaticano, costuma fechar. O próprio santo padre abrirá mão de suas férias, outro fato inédito. Em outubro, os resultados do levantamento serão apresentados e devem começar as mudanças, que podem se iniciar com a substituição do atual secretário de Estado, o polêmico cardeal Tarcisio Bertone. “Desde a chegada de Francisco, os ares de renovação são muito fortes” diz dom Angélico Sândalo Bernardino, bispo emérito da diocese de Blumenau, em Santa Catarina.

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ESTILO
Estátua de Frei Galvão (acima), santo brasileiro,
foi levada à Aparecida para bênção papal. Pontífice circulará
pelo Brasil de helicóptero e em papamóvel sem vidros blindados

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Desde o início do pontificado de Francisco, as mudanças são tantas, que poucos especialistas em Igreja Católica se arriscam a prever que dimensão essa renovação alcançará. Para o teólogo Leonardo Boff, o argentino, atento ao crescimento de fiéis por novas regiões do mundo, pode desmembrar a Cúria. Boff avalia que algumas congregações romanas, os órgãos que funcionam como os ministérios, sairão de Roma e passarão a funcionar em locais mais alinhados com suas missões. Na Ásia, por exemplo, poderia estar o ligado ao trabalho missionário, enquanto na África, o de justiça social. Distantes de Roma e próximos de onde eles são mais necessários, esses “ministérios” trabalhariam de forma mais eficiente, adequando a Igreja ao processo de globalização e aproximando-a de seu rebanho. Seriam mudanças radicais até para um jesuíta pouco ortodoxo, como Bergoglio, mas Boff acredita que elas são mais do que possíveis. “Francisco irá questionar cardeais e bispos de todo o mundo”, diz. “Os religiosos terão de mudar, ser menos arrogantes, escutar mais e dialogar mais.”

Se a previsão vai ou não se confirmar, não se sabe. O que não se questiona é que, a partir da eleição do “papa do fim do mundo”, muito mais vem sendo esperado e exigido do católico. A recente reforma do Código Penal do Vaticano, colocada em vigor por Francisco, é uma espécie de alerta a todos acerca do novo rigor moral e ético que agora vige na Igreja. As novas leis, que endurecem as penas para crimes sexuais, desvios financeiros e vazamento de documentos, têm validade apenas dentro da cidade-estado, mas estabelecem um padrão de comportamento que, obviamente, se espera universal, sobretudo para quem faz parte da hierarquia cristã. Trata-se de mais uma reforma que pode ser lida à luz do discurso de humildade do papa. Com a nova legislação, que substitui a de 1929, quem vive hoje no Vaticano passa a se submeter a um conjunto de regras iguais ao que se submete qualquer cidadão.

Como sede da primeira viagem oficial do novo papa, o Brasil está em posição privilegiada para conhecer de perto a força dessa mensagem de humildade. O interlocutor preferencial será o jovem, uma fonte constante de preocupação da Igreja Católica, que vê escoar seus fiéis e não promove renovação, inclusive no maior país católico do mundo. Em seus discursos por aqui, de acordo com dom Claudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo e grande amigo do pontífice, Francisco falará sobre os rumos que devem ser dados à Igreja, mas não faltarão palavras de simplicidade e aproximação com os pobres. Na avaliação de Frei Betto, poderá ser também a oportuni-dade de ele começar a tratar de questões espinhosas para a instituição, como métodos anticoncepcionais e celibato clerical. “O papa deverá se apresentar à esquerda nas questões sociais e à direita nas doutrinárias”, afirma.

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Previsões à parte, uma coisa é certa: assim como faz toda as vezes que sai com seu modesto jipe papal pela Praça São Pedro, em meio à multidão de fiéis, Francisco irá burlar a segurança seguidamente. “A preparação dos agentes inclui possíveis quebras de protocolo”, diz Anderson Bichara, da superintendência da Polícia Federal do Rio de Janeiro. Trata-se de apenas mais um complicador no esquema de segurança do papa, em meio a um Rio de Janeiro repleto de manifestações, que também optou por circular em meio ao povo em cima de um papamóvel aberto. “Ele gosta de ser acessível, manda parar o papamóvel e sai andando por aí, para desespero da segurança”, diz o padre Jesus Hortal, que conheceu Bergoglio ainda cardeal.

Como os agentes, as pessoas escolhidas para ficarem próximas ao pontífice também se preparam para as quebras de protocolo de Francisco. “O mestre de cerimônias do Vaticano, monsenhor Guido Marini, disse que o papa fica muito concentrado na sacristia”, conta o diácono Márcio Luís, do Seminário Arquidiocesano São José, no Rio de Janeiro, um dos 12 religiosos escolhidos para ajudar Francisco na sacristia, entre outras responsabilidades. “Mas se, depois da missa, ele nos der a chance de abraçá-lo, certamente o faremos”, diz. Oportunidades não irão faltar.

Colaborou Tamara Menezes
Fotos: Alessandra Tarantino/AP Photo; Orestes Locatel/Ag. Istoé; Thiago Leon/Techimage/Folhapress; Pablo Jacob; Angelo Carconi/Files/AP Photo