Comportamento

Estas preciosidades podem ter virado cinza

Possível queima de sete obras de grandes mestres choca o mundo da arte e evidencia a dificuldade de recuperar peças roubadas

Estas preciosidades podem ter virado cinza

LADOS OPOSTOS O francês Breitwieser (à esq.) roubou 239 obras de arte. Acima, Chris Marinello, da ALR, com -O Jardim-, de Matisse, obra recuperada que tem valor estimado de US$ 1 milhão ()

Cercados de mistério, roubos de arte recheiam histórias policiais contadas em filmes e livros. Mas a realidade supera a ficção quando apresenta desfechos imprevisíveis como o que foi protagonizado recentemente pela romena Olga Dogaru, mãe de Radu, um dos três ladrões presos em janeiro de 2013 por um dos maiores roubos de arte do século. Ele e seus colegas surrupiaram sete pinturas de grandes mestres do museu Kunsthal, na cidade de Roterdã, na Holanda. Após serem tiradas do museu, as pinturas foram colocadas dentro de travesseiros e levadas no porta-malas de um carro para a casa da família Dogaru, na aldeia de Caracliu, na Romênia, conforme um relatório feito por promotores que investigam o crime organizado no País. Ali foram enterradas no quintal de uma casa abandonada na vizinhança e depois transferidas para o cemitério de uma igreja nos arredores até serem incineradas por Olga no seu fogão a lenha. “Percebi que meu filho tinha cometido um delito grave e quis destruir as provas para que não tivessem como condená-lo. Esperei até que as pinturas queimassem completamente”, disse ela às autoridades.

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A queima teria ocorrido quatro dias após buscas policiais em sua casa, em fevereiro. Se Olga falou a verdade, os quadros perdidos para sempre são “Cabeça de Arlequim”, de Pablo Picasso, “Ponte de Waterloo, Londres”, e “Ponte de Charing Cross, Londres”, de Claude Monet, “Leitora em Branco e Amarelo”, de Henri Matisse, “Autorretrato”, de Meyer de Haan, “Mulher Diante de uma Janela Aberta”, de Paul Gauguin, e “Mulher de Olhos Fechados”, de Lucien Freud.

As declarações da mãe romena levaram-na à prisão preventiva e a um futuro julgamento. “No momento, as autoridades informam que estão sendo analisados resíduos onde supostamente teriam sido queimadas as pinturas”, disse à ISTOÉ o americano Christopher Marinello, diretor-executivo e conselheiro- geral da The Art Loss Register (ALR), o maior banco de dados privado do mundo sobre objetos de arte, antiguidades e coleções perdidas ou roubadas. Os resultados dos testes estão previstos para a próxima semana.

Acostumado a recuperar objetos, Marinello questiona se as pinturas foram realmente aniquiladas ou se a versão da mãe do acusado é uma tentativa de desviar a atenção da polícia. “Destruir obras de arte é um ato de desespero. Normalmente, ladrões têm esperança de obter algum valor a partir de sua atividade criminosa”, observa.

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LADOS OPOSTOS
O francês Breitwieser (à esq.) roubou 239 obras de arte.
Acima, Chris Marinello, da ALR, com -O Jardim-, de Matisse,
obra recuperada que tem valor estimado de US$ 1 milhão

A hipótese do ex-investigador do FBI Robert Wittman, um dos maiores caçadores de arte da atualidade, é que as sete pinturas podem de fato ter sido eliminadas. “Os achados de testes feitos pelo National History Museum, em Bucareste, para determinar se as cinzas na aldeia romena são das pinturas parecem consistentes com as datas de algumas das obras”, disse Wittman à ISTOÉ. Ele é autor do best-seller “Infiltrados” (editora Zahar). “É uma vergonha terrível que essas obras de valor inestimável possam ter sumido”, condena Wittman.

Olga não foi a única mãe a dar sumiço a tesouros da humanidade. Em 2001, Marielle Schengel, mãe de Stéphane Breitwieser – um francês famoso por roubar 239 obras de arte na Europa enquanto trabalhava como garçom –, cortou dezenas de telas e soterrou seus restos no lixo, onde ficaram por várias semanas. Breitwieser, aficionado por arte, conservava as peças ao seu redor, para admirá-las. À polícia, Marielle disse que destroçou as pinturas e atirou estatuetas, joias e cerâmicas em um canal do rio Reno por raiva do filho, mas acredita-se que o fez para sumir com provas que pudessem condená-lo. A história está descrita na autobiografia “Confissões de um Ladrão de Arte”, lançada por Breitwieser em 2007. “Dar fim é um crime muito pior do que roubar”, disse à ISTOÉ o historiador da arte e escritor americano Noah Charney, fundador da Associação para a Investigação de Crimes contra a Arte. “Essas mães deveriam ficar na cadeia mais tempo do que os seus filhos”, afirma Charney, autor de “O Ladrão de Arte”, publicado em 13 idiomas.

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Outro caso rumoroso se desenrola na Holanda. “O ex-proprietário de uma galeria contratou alguém para queimar pinturas valiosas a fim de recolher o dinheiro do seguro. A pessoa deu fim a dois quadros e se arrependeu, colocando outros à venda. Foi quando os recuperamos”, conta Chris Marinello, da ALR. Ele se preocupa em desqualificar ideias romanceadas sobre roubos de arte. “Não há nada excitante ou encantador sobre esses crimes. Em geral, são cometidos por ladrões comuns procurando maneiras rápidas de ganhar dinheiro”, diz o especialista.

Fotos: Reprodução