Comportamento

Supremacia jamaicana em xeque

O envolvimento de grandes estrelas do esporte da Jamaica em casos de doping deflagra crise e suscita questionamentos sobre a origem do fantástico desempenho dos atletas da ilha caribenha

Supremacia jamaicana em xeque

Conhecida como a ilha da velocidade por seus recordes no esporte, a Jamaica está no epicentro do mais recente escândalo que abala o atletismo. Na semana passada, a Comissão Antidoping do País anunciou que cinco de seus astros foram flagrados em exames realizados em junho, durante as provas seletivas nacionais para o Campeonato Mundial de Atletismo, que ocorrerá em agosto, em Moscou, na Rússia. Os velocistas Asafa Powell e Sherone Simpson e os lançadores de disco Allison Randall e Travis Smikle tomaram o estimulante oxilofrina. O quinto nome – ainda não divulgado – seria o do velocista Nesta Carter, que ainda não falou publicamente sobre o caso. A velocista Veronica Campbell-Brown, considerada a favorita da Jamaica, também foi pega recentemente em exames antidoping duas vezes. O escândalo deflagrou uma indignação nacional e uma profunda crise.

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PROIBIDO
Asafa Powell era o recordista mundial antes de Usain Bolt. Por doping, ele
acaba de ser suspenso do próximo Campeonato Mundial, em agosto, em Moscou

Lutando para salvar suas carreiras, Powell e Sherone disseram que o composto foi consumido sem o seu conhecimento, misturado a suplementos alimentares indicados pelo fisioterapeuta e ex-atleta canadense Chris Xuereb, com quem trabalham há dois meses. Medicamento aplicado em cardiologia para aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial, a oxilofrina estimula o sistema nervoso central, reduz o apetite e aumenta a oxigenação e a atenção.  Em testes feitos fora das competições, não é considerada doping. “Pode trazer uma vantagem mínima nas saídas, ainda que não haja comprovação disso”, diz o médico Eduardo de Rose,  do Conselho da Agência Mundial Antidoping (WADA). A imprensa jamaicana divulgou que a substância estaria presente em uma laranja amarga do País usada em suplementos alimentares.

Os atletas estão suspensos e sob investigação. Mais de 50 substâncias coletadas em seu poder e do fisioterapeuta estão sendo analisadas pela polícia. A pena pode ser de até dois anos longe das competições – punição mais branda do que a reservada para usuários de compostos proibidos, como os anabolizantes. O médico Eduardo de Rose não crê no uso inadvertido. “Os atletas foram descuidados e são responsáveis”, diz. O fato de vários atletas terem recorrido à mesma substância também sugere que o ato foi consentido. “Vê-se que é uma substância que está na moda entre os velocistas”, afirma de Rose.

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Um dos efeitos colaterais do doping dos jamaicanos será a intensificação da vigilância sobre eles.  Outro é suscitar questionamentos sobre sua performance. Cinco dos homens considerados os mais rápidos do mundo são nativos da ilha caribenha – Usain Bolt, Yohan Blake, Asafa Powell, Nesta Carter e Steve Mullings. No entanto, pelo menos quatro estão ou estiveram envolvidos em escândalos de doping. Powell e Carter agora. Em 2009, antes do Mundial de Berlim, Blake e outros quatro atletas testaram positivo para o estimulante dimetilamina e ficaram fora da prova. Steve Mullings foi banido do esporte em 2011, aos 28 anos, após reincidência de caso de doping. “Tudo isso faz pensar sobre a superioridade dos corredores jamaicanos, os melhores no atletismo. A gente começa a indagar se os resultados são deles ou se os atletas são ajudados pelo uso de substâncias ilícitas”, afirma Sandra Soldan, médica antidoping da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos.

O preparador físico Irineu Loturco, diretor técnico do Núcleo de Alto Rendimento Esportivo do Pão de Açúcar, diz que os casos de doping mancham a história do atletismo jamaicano, ainda que não apaguem o brilhantismo de um País capaz de produzir um enorme número de recordistas. “O doping explica em parte, não totalmente, algumas vitórias dos jamaicanos”, acredita Loturco.

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O escândalo terá impacto no panorama do próximo Mundial. O americano Tyson Gay, o segundo mais rápido do mundo e que recentemente venceu Bolt, também foi pego nos exames antidoping realizados agora. Asafa Powell, ex-recordista antes de Bolt, também não vai em razão da suspensão por doping. Por causa de uma lesão, o jamaicano Yohan Blake, o terceiro mais veloz, também anunciou que não irá a Moscou. “Mas Bolt deverá ir motivado para defender seu País”, diz o preparador Loturco.

Fotos: Anja Niedringhaus/AP; Kai Pfaffenbach/Reuters; JEWEL SAMAD, KIM JAE-HWAN, ADRIAN DENNIS – AFP