Cultura

O lado hippie de Steve Jobs

Filme sobre o mago da tecnologia mostra suas experiências místicas, a relação com as drogas e encabeça a onda de cinebiografias sobre personalidades contemporâneas

O lado hippie de Steve Jobs

Confira, em vídeo, outras cinebiografias que chegarão às telas em 2013:

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VISIONÁRIO
Ashton Kutcher como Steve Jobs: criação de
computador pessoal na garagem de casa

Um bicho-grilo californiano enfiado em camisetas e jeans desbotados, que adorava andar descalço e se guiar pelas canções revolucionárias de Bod Dylan. Um rebelde adepto das viagens de LSD e de jornadas espirituais pela Índia, que preferia passar horas meditando a acompanhar as aulas na universidade. Assim é apresentado o mago dos computadores Steve Jobs (1955-2011), na aguardada cinebiografia “Jobs”, que chega aos cinemas dos EUA no mês que vem e no Brasil em novembro. Previsto anteriormente para estrear no início do ano, o filme teve o seu lançamento adiado por não estar provocando o barulho necessário. O oposto acontece agora, quando já se cerca de polêmicas – e a razão não é a escalação do galã Ashton Kutcher para viver o temperamental bilionário da tecnologia, crítica feita ao projeto desde que fora anunciado. Com aparência muito doce para dar vida ao irritadiço e arrogante empresário, Kutcher tem sido elogiado pela sua interpretação meticulosa, que reproduz o sotaque e os mínimos gestos do retratado. O que tem provocado controvérsia é justamente o contrário: o perfil cinematográfico de Steve Jobs não faria jus à riqueza de sua personalidade.

Essa advertência foi levantada por uma figura-chave na sua história, o engenheiro de software Steve Wozniak, parceiro de Jobs na criação da Apple, interpretado no filme por Josh Gad. Ele teme que as pessoas saiam do cinema com a imagem de um santo na cabeça. “Jobs foi uma das pessoas que levaram a empresa a fracassos atrás de fracassos. O marketing da Apple foi criado três anos após a sua saída e por gente que ele desprezava”, declarou Wozniak. O ex-sócio refere-se ao período em que o colega se manteve afastado por não se alinhar ao pensamento da equipe. Mais tarde, ele retornaria ao grupo com mais maturidade – mas não menos visionarismo. “Aqui é o lugar dos malucos, rebeldes e desajustados. São as pessoas loucas o suficiente para pensar que podem mudar o mundo que realmente o fazem”, diz numa cena do filme. É justamente mostrando-o como CEO da Apple que o longa-metragem dá a largada para logo retroceder e alinhar os altos e baixos que Jobs teve de enfrentar para chegar ao posto de grande inovador da informática.

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O diretor Joshua Michael Stern preferiu focar os anos da juventude, quando ele abandona o Reed College, cai de cabeça nas drogas e passa a se interessar por arte. Filho adotivo e vítima de bullying durante a infância, na vida real Jobs capitalizou essa rejeição, passando a se achar um ser especial e escolhido. Tudo isso se soma na formação de uma mente voltada para grandes riscos e inovações – o ápice seria a criação do computador pessoal que funciona como peça de design. O filme começa com o lançamento de um sonho de consumo da época, o iPod, o que soaria como um comercial da Apple não fosse a advertência da produção de que a empresa não apitou em nada na história. Apesar desse retrato positivo, Stern ressalva que não se esquivou do lado negro de Jobs, ilustrado entre outras passagens por sua resistência em aceitar, aos 20 anos, a paternidade de sua primeira filha.

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Ao centrar o enredo em um período preciso – e não na vida inteira do personagem –, “Jobs” se enquadra em um tipo de cinebiografia que cada vez mais agrada ao público e aos produtores. Inclusive no Brasil. “Somos Tão Jovens”, sobre o momento em que Renato Russo decide tornar-se roqueiro (já atingiu a marca de 1,7 milhão de espectadores), é o exemplo mais recente. Seu diretor, Antonio Carlos da Fontoura, afirma que é melhor fazer um recorte na trajetória de uma pessoa do que alinhar momentos importantes à maneira de um clipe. “Histórias sobre toda uma vida correm o risco de ficarem superficiais e também muito chatas”, diz ele. No mesmo filão, estreiam nos próximos meses títulos dedicados à princesa Diana, ao piloto de fórmula 1 Niki Lauda, ao pianista Liberace e até à atriz pornô Linda Lovelace. O que chama a atenção nesses filmes, além de centrarem em um momento ou período específicos, é a atualidade: os perfilados estão vivos ou morreram há pouco tempo. A escolha dessas personalidades, em detrimento de clássicas figuras históricas como Napoleão ou Cleópatra, baseia-se no fato de que estrelas recentes respondem a outro desejo do público: a curiosidade pela vida privada de celebridades.

Fotos: Glen Wilson; STELLA PICTURES; Tony Korody/Sygma/Corbis; Jaap Buitendijk; Bettmann/CORBIS; Divulgação