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Governabilidade, problema dos outros

O descaso com a governabilidade e o apreço pela retórica são mais populares do que a jabuticaba. Nelson Rodrigues dizia que, no Brasil, da discussão não nasce a luz; nascem perdigotos

A cena é inesquecível para quem viu na televisão. Em outubro de 2000, o então ministro da Fazenda, Pedro Malan, foi ao Congresso explicar por que o governo, às voltas com um periclitante ajuste fiscal, sempre torpedeado pela oposição, não poderia aumentar substancialmente o salário mínimo. O País não tinha condições financeiras, disse o ministro, para suportar as consequências do aumento. O mínimo só poderia ser reajustado pelo índice de inflação, de acordo com a previsão orçamentária para 2001.

Sentado na sua frente, o então combativo deputado Aloizio Mercadante, do PT, trovejou um desprezo robespierriano: “O aumento previsto no orçamento não paga nem a tinta da caneta Montblanc que o senhor usa”. O ministro respirou, meteu a mão no bolso do paletó e disse: “Deputado, eu uso BIC”. Entre seus dedos rolava uma desclassificada esferográfica sem pedigree.

Treze anos depois, tal como na cena acima, a retórica continua a dar mais ibope do que a governabilidade, que é sempre problema dos outros. A política brasileira corre atrás dos interesses imediatos, abusa da demagogia e trata a existência de limitações, restrições e impossibilidades como um azar de quem ocupa o poder.

Durante o governo FHC os tucanos invocavam o conceito de governabilidade com frequência, aflitos com a incompreensão da oposição (e da população) diante do custo social do ajuste fiscal – achatamento salarial, desmonte da infraestrutura, privatização de estatais – necessário para controlar a inflação e repor a economia suicida numa trajetória administrável.
Hoje o PT se aflige com a incompreensão da sociedade diante de um processo político que vai muito mal, obrigado, enquanto a oposição torpedeia o governo abalado por uma crise complexa de representatividade.

O combativo senador tucano Aloysio Nunes, por exemplo, disse ao “Estado de São Paulo” (30/6/2013) que “a pauta da reforma política é do PT, não da sociedade”. E despejou um desprezo dantoniano: “Não está na nossa preocupação, no Congresso, fazer uma grande reengenharia política no Brasil. No fundo, o que existe é a intenção do PT e da presidenta Dilma de implantar um projeto para se perpetuar no poder”.

As propostas de plebiscito, referendo ou constituinte estavam mesmo erradas. Mas ignorar a crise de representatividade é pior. Onde estava o senador quando 2,5 milhões de pessoas protestavam em 438 cidades? Talvez não tenham protestado alto o suficiente. Ou será que imagina que o problema se resume ao governo do PT? A oposição não abre mão de esperar qualquer iniciativa do governo para disparar as acusações costumeiras de chavismo, stalinismo, corrupção e safadeza. A graça do acusador é pretender que os outros são ignóbeis.

No Brasil, o descaso com a governabilidade e o apreço pela retórica são mais populares do que a jabuticaba. Nelson Rodrigues dizia que da discussão não nasce a luz; nascem perdigotos. Todo tucano tem o seu dia de petista, e vice-versa. Todo político é um surfista que precisa ficar em cima da onda. O problema é que o mar está de ressaca. Todos deveriam guardar uma BIC no paletó ou no tailleur.

Ricardo Arnt é diretor da revista Planeta


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