Economia & Negócios

As apostas dos gigantes na briga do Pré-sal

Grandes petrolíferas internacionais se preparam para disputar o leilão de um dos maiores campos de petróleo do mundo. Saiba como isso vai ajudar a economia brasileira

As apostas dos gigantes na briga do Pré-sal

EXPERTISE

O leilão da maior descoberta de petróleo no pré-sal já feito no Brasil, o campo de Libra, na Bacia de Santos, será uma espetacular queda de braço entre as gigantes petrolíferas internacionais. Pelo menos 30 empresas de 21 países devem fazer lances, isoladamente ou em consórcios, para lutar pelo direito de explorar um volume estimado entre 26 bilhões e 42 bilhões de barris. Lançado na semana passado, o edital prevê a entrega de documentos até setembro e a realização do leilão no dia 21 de outubro. Entre as principais concorrentes, é considerada certa a participação da anglo-holandesa Shell, das americanas ExxonMobil e Chevron, da britânica BP e da chinesa Sinopec. Para especialistas, todas elas de alguma forma devem assediar a Petrobras, parceira ideal diante de sua expertise na exploração da camada do pré-sal. Por lei, a petrolífera brasileira tem direito a 30% do campo a ser leiloado e pode disputar os 70% restantes. “A Petrobras é uma referência em tecnologia de exploração em águas profundas, mas terá que se capitalizar para retirar petróleo de Libra”, diz Adriano Pires, consultor do Centro Brasileiro de Infraestrutura. “Por isso, uma parceria com os chineses, que têm disponibilidade de capital, é cada vez mais provável.”

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EXPERTISE
Plataforma da Petrobras: empresa é parceira
estratégica para os estrangeiros interessados no pré-sal

O vice-presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (Aepet), Fernando Siqueira, explica por que os gigantes do petróleo estão tão interessados no leilão, considerado o mais importante do setor em muitos anos: “As maiores economias do mundo têm reservas limitadas e a produção no Mar do Norte decaiu muito de uns tempos para cá”, diz. Segundo ele, os chineses são os mais preocupados com o futuro, pois seus estoques de 12 bilhões de barris duram, no máximo, dois anos. A Inglaterra, que passou a ser importadora, também precisa ampliar seu potencial de exploração. “Elas virão com tudo sobre Libra, onde não há risco. É um bilhete premiado”, afirma o engenheiro Siqueira, que prevê um grande acordo entre as chamadas big oils, Exxon, Shell e Chevron. “Existe uma tentativa de procurar novos campos em certas áreas como o Golfo do México, mas poucos lugares se comparam ao pré-sal brasileiro”, diz o economista Paulo Wrobel, especializado na área de energia.

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POTENCIAL
Magda Chambriard, da ANP:

"O pré-sal desperta o interesse de diversos países"

Nos próximos meses, as gigantes vão fazer seus estudos financeiros para saber até quanto podem elevar seus lances. Para Cristiano Prado, gerente de competitividade industrial e investimentos da federação das indústrias do Rio (Firjan), as petrolíferas também precisam estudar recursos tecnológicos e humanos. “Quem der a jogada certa, pode melhorar seu posicionamento global”, diz Prado. A exploração de Libra é boa para o Brasil em todos os sentidos. De imediato, quem vai lucrar é a indústria brasileira. Para extrair o mineral de uma profundidade de sete quilômetros abaixo do nível do mar, serão necessárias entre 12 e 15 plataformas. Pelas regras, as petrolíferas serão obrigadas a comprar um conteúdo mínimo de 37% de equipamentos fabricados no Brasil, percentual que vai aumentando ao longo dos anos. “Hoje, os estaleiros brasileiros empregam 70 mil trabalhadores, mas em quatro anos vamos pular para 100 mil”, prevê o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Construção Naval e Offshore (Abenav), Augusto Mendonça.

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Apesar do lucro inicial, o Brasil vai começar a faturar mesmo quando a produção estiver a todo o vapor. Em 2022, no ápice, estima-se que a receita do campo de Libra fique em torno de R$ 75 bilhões. Só em royalties, gerariam R$ 11 bilhões. Apesar de o governo defender o uso dessa verba para a educação (75%) e saúde (25%), a destinação ainda está em discussão no Congresso Nacional. Magda Chambriard, diretora da ANP, se encontrou recentemente com investidores em Singapura e na Inglaterra, onde ressaltou o fato de Libra já ter passado por avaliações técnicas. Não só o risco é menor, como o vencedor poderá encontrar soluções para extrair até mais do que o órgão previu. “A primeira licitação do pré-sal está despertando interesse em todo o mundo”, disse Magda à ISTOÉ. “Tanto em Londres quanto em Singapura, notei muito interesse por parte das grandes petroleiras como também dos investidores e da imprensa internacional. Tenho a certeza de que o leilão vai ser um sucesso.”

Fotos: WILTON JUNIOR/AE; Aline Massuca/Valor/Folhapress