Brasil

Coroné dos zóio azul

O governador Tasso Jereissati é acusado de beneficiar suas empresas com di nheiro público e de repetir as mesmas práticas dos velhos caciques cearenses

Conhecido como o homem que derrotou os antigos coronéis da política cearense em nome da modernidade, o governador Tasso Jereissati (PSDB), chamado carinhosamente pelos eleitores de Galeguin dos Zóio Azul, chega à metade de seu terceiro mandato mergulhado em contradição. Está sendo acusado de repetir um dos principais pecados da velha oligarquia do Estado: receber dinheiro público de forma privilegiada para usar em proveito próprio. Os autores da acusação não são os políticos de oposição, mas os auditores do Tribunal de Contas da União, que fizeram várias investigações no Banco do Nordeste do Brasil, instituição federal presidida por Byron Queiroz, indicado para o cargo por Tasso, de quem foi secretário de Planejamento. De acordo com os auditores do TCU, a administração do banco é marcada por várias irregularidades. Uma delas foi o empréstimo à empresa Refrescos Cearenses – cujo proprietário é Tasso – de cerca de R$ 24 milhões, quase três vezes mais que o valor máximo fixado por técnicos do próprio BNB, com dinheiro do Fundo Constitucional de Desenvolvimento do Nordeste (FNE). Essas e outras irregularidades praticadas pelo banco com dinheiro do FNE serão julgadas nos próximos dias no TCU, em Brasília. Além disso, o BNB também concedeu à empresa de Tasso um outro financiamento, com juros de 7,7%, muito abaixo do cobrado a outras empresas, que pagaram taxas de 11,37%. O governador também é um dos nomes investigados pela CPI do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor), instalada na Câmara Federal. Ele foi acusado de usar em suas empresas notas frias para fraudar a prestação de contas ao BNB.

A tese polêmica – Criado há 46 anos, o BNB nasceu para fomentar o desenvolvimento do Nordeste e uma das suas principais atividades é a concessão de financiamento às empresas da região com dinheiro do FNE. Sua sede fica em Fortaleza. Desde a posse de Queiroz, várias irregularidades passaram a ser cometidas no banco, de acordo com a avaliação dos auditores do TCU. Uma delas foi a concessão de crédito a algumas empresas acima do estabelecido em suas próprias normas. A empresa de Tasso – uma engarrafadora da Coca-Cola – que, pela classificação de risco feita pelos técnicos do BNB só poderia receber créditos de até R$ 9 milhões, acabou levando quase três vezes mais. O relatório do TCU afirma que o banco permitiu “concentração de recursos para um único grupo econômico”. Para justificar essa liberalidade, Queiroz tem uma tese lapidar. “Quem faz as normas não é escravo delas”, afirmou em entrevista ao jornal cearense O Povo, no mês passado.

A Refrescos Cearenses teria sido também beneficiada em outra operação de crédito. O BNB captou dinheiro no Exterior para emprestar no mercado brasileiro. Mais de 90% dos financiamentos concedidos com esses recursos foram feitos a uma taxa de juros de 11,37% ao ano. Para a empresa do governador, que tomou dinheiro em 1997, a taxa foi bem diferente. Ficou em módicos 7,7% – a mais baixa de todas. Procurado para comentar esse possível favorecimento ao governador, Queiroz preferiu não dar entrevista. A assessoria técnica do BNB enviou fax à ISTOÉ rebatendo as irregularidades identificadas pelos auditores do TCU. Os técnicos afirmam que o secretário de Controle Externo do TCU no Ceará, Paulo Nogueira de Medeiros, “reformulou” o relatório dos auditores do próprio tribunal, dando como regular a operação em que a empresa de Tasso recebeu o empréstimo. De acordo com as normas do TCU, no entanto, o secretário não tem o poder de reformular relatórios, apenas de convocar ou divergir da opinião dos auditores. Em Brasília, a interpretação de Medeiros não teve eco. O ministro-relator do TCU, Adylson Motta, analisou o processo e concluiu que houve “concessões de crédito a empresas em desacordo com pareceres técnicos do próprio BNB, bem como com suas próprias normas internas”.
Procurado várias vezes por ISTOÉ para comentar as acusações, o governador não deu retorno. Talvez por estar ocupado demais com o cenário político. Tasso continua sonhando em disputar a sucessão de Fernando Henrique com apoio do próprio presidente, que chegou a sinalizar – antes do episódio Eduardo Jorge – que o governador poderia ser seu candidato dentro do PSDB. Ultimamente, Tasso tem se aproximado de seu afilhado Ciro Gomes, presidenciável do PPS. Os dois têm se encontrado no palanque de Patrícia Gomes, ex-mulher de Ciro e candidata à Prefeitura de Fortaleza coligada com os tucanos locais.
Os ministros do TCU terão muito trabalho quando começarem a julgar os deslizes cometidos no BNB. Os auditores constataram que apesar de o banco ter recebido nos últimos dez anos o valor de R$ 9,2 bilhões por conta do FNE, só tem de patrimônio a quantia de R$ 5,9 bilhões. Ou seja, o BNB tem disponível apenas 64% da quantia enviada pelo Tesouro Nacional. Além disso, os auditores reclamam de operações em atraso que não são lançadas no balanço como prejuízo. As 12 principais empresas inadimplentes estão “em difícil situação financeira ou já faliram”. Outro ardil: uma renegociação com empresas de duvidosa capacidade de pagamento transformou os saldos atrasados em normais, fazendo com que o balanço do FNE apresente um “ativo saudável quando na verdade é de liquidez duvidosa”. Os auditores afirmam no documento que o BNB dita regras favoráveis ao banco e prejudiciais ao fundo. Mas talvez o mais grave tenha sido a grande concentração de recursos liberados para um pequeno número de empresas. “De um total de 334.812 operações realizadas, 3.776 (1%) concentraram 40,99% dos recursos”, apontam os técnicos. Do saldo devedor bruto de R$ 6,2 bilhões, nada menos que R$ 2,5 bilhões destinaram-se a 1% dos beneficiários.

O interessante é que toda essa farra acontece sob as vistas do conselho de administração do banco, que tem um ilustre na presidência: o ministro do Planejamento, Martus Tavares. A atuação à frente do ministério não exime Tavares de suas responsabilidades junto ao BNB – ele foi, inclusive, notificado judicialmente de todas as irregularidades. ISTOÉ encaminhou ao ministro várias perguntas sobre os problemas detectados pelo TCU, mas ele repassou à direção do BNB a tarefa de responder. A assessoria do banco enviou texto manifestando a sua discordância dos critérios utilizados pelos auditores do TCU. Um dos pontos de divergência é a acusação de concentração de recursos em poucas empresas beneficiadas. “A informação levantada não trata de desembolso, mas de saldos devedores de uma data estática, não se prestando para tal afirmação”, diz o BNB. Sobre o expediente de apresentar como ativo saudável o que é de liquidez duvidosa, a assessoria afirma que “as renegociações de dívidas do BNB são efetivadas com base em dispositivos legais”. Apesar dessa argumentação, o ministro Adylson Motta acolheu o relatório do TCU.

À bancarrota – “A verdade é que o banco está falido”, resume Tomaz de Aquino e Silva Filho, presidente do Sindicato dos Bancários do Ceará. De acordo com o relatório dos auditores do TCU, há R$ 1,7 bilhão em empréstimos vencidos, mais do que o dobro do patrimônio líquido do BNB. “O governador está usando no BNB a mesma estratégia que levou o Banco do Estado do Ceará (BEC) à bancarrota.” Tomaz refere-se à ruinosa administração do governo de Tasso, que acabou deixando um rombo milionário no BEC. Em quatro anos, a instituição passou de exemplo de banco público estadual a uma situação caótica. Em 1999, o BEC tinha um déficit de R$ 900 milhões, resultante da excessiva liberalidade na concessão de créditos que acabaram não sendo pagos. Como no caso BNB, Tasso foi acusado de usar o BEC para conceder altos créditos a poucas empresas – muitas pertencentes a financiadores da campanha do governador e uma delas, a EIT, de propriedade de Geraldo Rola, participante do conselho de desenvolvimento estadual instituído por Tasso. Rola também consta do relatório do TCU como proprietário de uma das maiores devedoras do BNB, a empresa Maisa. O prejuízo do BEC acabou sendo coberto por um empréstimo que o governo estadual fez com o governo federal. A instituição foi federalizada no ano passado e deverá ser privatizada posteriormente. Políticos e sindicalistas reclamam que o prejuízo causado pela má gestão do banco está sendo coberto pelo contribuinte. Está em curso uma ação popular com o objetivo de responsabilizar o governo e os antigos administradores do BEC pelo rombo.

Lavareda – Outra dor de cabeça para o governador deverá ser causada pelo sub-relatório da CPI da Câmara para tratar de irregularidades nos financiamentos concedidos pelo BNB com dinheiro do Finor. No escândalo que estourou em 1990, vários empresários foram acusados de usar notas fiscais frias para fraudar a prestação de contas ao banco. A acusação foi feita pelo empresário Carlos Wendt, do ramo de engenharia e construção, que afirmou em depoimento na Polícia Federal ter fornecido notas frias para muitos beneficiários de financiamento do Finor. Três das empresas citadas por Wendt pertenciam a Tasso. O processo acabou sem punir ninguém, já que prescreveu. Apesar disso, o deputado José Pimentel (PT-CE), que sugeriu a criação da CPI, afirma que vai citar o caso em seu relatório.
Para piorar a situação de Tasso, começa a ser questionada a atuação da empresa MCI em seu governo. De propriedade de Antonio Lavareda e dirigida por Fernando Caldas – irmão de Eduardo Jorge Caldas –, a MCI presta serviços de pesquisa a vários governos estaduais e também ao governo federal. No Ceará, além das pesquisas, a empresa estaria fazendo também a intermediação entre as agências de publicidade e o Executivo. “A Secretaria de Governo tem contrato com a MCI, que passa a ser uma intermediária na contratação das agências”, estranha o deputado federal Sérgio Novais (PSB). Ele encaminhou pedidos de informação ao governo para saber porque a MCI foi contratada sem licitação. “O governo do Ceará terceirizou a Secretaria de Comunicação e o trabalho da MCI é coordenar todo o trabalho das agências”, afirma Elziane Colares, presidente do Sindicato das Agências de Publicidade do Ceará. Nesse episódio, Tasso vai tão longe em seu estilo globalizante de administrar que parece ter privatizado a própria máquina do Estado.

 

Público e privado no mesmo prato

 

Byron Queiroz, o apadrinhado de Tasso Jereissati, deve muitas explicações sobre sua gestão à frente do Banco do Nordeste do Brasil. Um dos pontos mais comprometedores é o fato de que, em meados da década de 70, Queiroz conseguiu através do BNB incentivos fiscais do Fundo de Investimentos do Nordeste (Finor) para três empresas de sua propriedade. À época da aprovação, a operação foi legal. Mas o problema passou a existir quando, em 1995, Queiroz assumiu a presidência do banco e passou a gerir operações de crédito feitas para as próprias empresas. Mais ainda: de acordo com informações da Sudene prestadas à CPI do Finor, as empresas de Queiroz estão há seis anos sem remeter balanços e prestar contas sobre os recursos recebidos. Elas estão, inclusive, inscritas no Cadin, que é o cadastro nacional de inadimplência para pessoas jurídicas. Questionado sobre a situação, o presidente do BNB respondeu através de sua assessoria que “são empresas que, a partir de 1993, passaram a pertencer a seus filhos” e também que “têm contabilidade nos moldes regulamentares”.

Apesar da afirmação, até o final de julho, Queiroz ainda constava na Junta Comercial do Ceará como acionista das empresas Companhia Agropecuária do Médio Jaguaribe, Companhia Agropastoril Vale do Pavuçu e Fazenda Canto do Angico S/A. ISTOÉ questionou o ministro do Planejamento Martus Tavares, presidente do Conselho de Administração do BNB, sobre as providências tomadas com relação a essa esdrúxula situação em que o presidente do banco é responsável pela gerência de recursos repassados às suas próprias empresas ou à de seus filhos. Tavares passou à sua assessoria a informação de que o BNB “apenas opera o Finor, mas quem administra o fundo e suas operações é a Sudene”, concluindo que esses casos não seriam passíveis de análise do conselho. “A verdade é que essa situação deveria ser avaliada pelo Conselho de Administração do BNB, mas os conselheiros não se interessam em tratar disso”, critica o presidente do Sindicato dos Bancários do Ceará, Tomás de Aquino e Silva Filho.

 

Sempre que uma nova denúncia de corrupção no governo paulista vem à tona, o governador Mário Covas (PSDB) fica agressivo e esbraveja ser um político de honestidade inquestionável. Não é bem assim. O número de inquéritos no Ministério Público (MP) e de ações na Justiça mostra que a gestão do governador merece ser vista com olhos de lince. Apenas com relação à Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), à Companhia de Seguros Gerais do Estado de São Paulo (Cosesp) e aos negócios do governo com as empresas De Nadai Alimentação e Tejofran — ambas de amigos do governador – existem 143 inquéritos no MP. Na Justiça, tramitam 27 ações por improbidade administrativa. Essas ações contêm um suposto prejuízo de aproximadamente R$ 436 milhões. Um superfaturamento equivalente a 2,5 vezes a falcatrua do prédio do TRT do foragido juiz Lalau.

Em nenhuma dessas investigações o nome do governador é citado como beneficiário dos contratos suspeitos, mas elas mostram como os amigos de Covas têm se dado bem nos negócios com o Estado. Não é por outra razão que tanto promotores como deputados estranham o empenho do governador em defender seus amigos investigados, estejam eles no governo ou fora dele. “Ao contrário do presidente Fernando Henrique, o governador chama para si toda a responsabilidade. Não se trata de lealdade, mas de uma clara estratégia para intimidar as investigações”, diz o deputado petista Paulo Teixeira. Desde 1996 ele tenta instalar na assembléia uma CPI para investigar a CDHU. “O rolo compressor do governo é tão potente que o governador parece brincar com a oposição”, afirma o deputado. De fato, o comportamento de Covas em relação ao ex-presidente da CDHU Goro Hama pode ser visto como provocativo.

Goro é réu em oito processos, todos por improbidade administrativa e enriquecimento ilícito. Apenas este ano, a Justiça bloqueou seus bens quatro vezes. As investigações do MP sobre a CDHU indicam que nos contratos que deram origem aos 21 processos em tramitação no Judiciário houve desvios de cerca de R$ 155 milhões. Em abril deste ano, o Tribunal de Contas do Estado (TCE) descobriu que o Programa Mutirão, segundo maior projeto habitacional da gestão tucana, contrata empreiteiras para realizar os serviços que caberiam aos mutirantes. Os contratos apresentam custos elevados e os métodos de medição das obras são distintos daqueles acertados nos editais. Os 144 contratos assinados entre 1996 e 1999 estão sob suspeita. Em janeiro, Goro pediu demissão da CDHU. Apesar de tantas denúncias, o governador aceitou a demissão do amigo a “contragosto”. Hoje, Goro é assessor especial de Covas.

Marmitex – O empresário Sérgio de Nadai é um antigo companheiro do governador e, embora nunca tenha feito parte do governo, está na alça da mira do TCE e do MP. Ele é um dos diretores da De Nadai Alimentação, empresa que fornece alimentação para os prisioneiros da Casa de Detenção de São Paulo e para internos da Febem. Nos últimos anos, a De Nadai pôde festejar como poucas o sucesso financeiro. Em 1994, quando Covas foi eleito, a empresa registrava um capital de R$ 197 mil. Em janeiro de 1998, o capital era de R$ 4 milhões. Nesse período, a De Nadai manteve inúmeros contratos sem licitação com o governo paulista.

Em janeiro de 1996, o governo contratou a empresa do amigo de Covas para atender a sete mil detentos com café da manhã, almoço e jantar. O contrato, feito em regime de urgência, vigorou até julho daquele ano. A alimentação diária de cada preso custou R$ 6,50. Em agosto, a De Nadai venceu concorrência para manter o mesmo serviço, mas o valor da diária subiu para R$ 7,80. Esse segundo contrato expirou no final de 1996. Em janeiro de 1997, sem licitação, alegando urgência, o governo voltou a contratar a De Nadai. “Se em agosto o governo sabia que no final do ano terminaria o contrato, é estranho que em janeiro tenha feito um negócio em regime de urgência”, reclama o deputado estadual Renato Simões (PT).
Em fevereiro de 1997, o governo fez nova licitação para uma contratação que durou até o final do ano. Apenas duas empresas disputaram. A De Nadai ganhou a briga e elevou a diária para R$ 8,10. Um ano depois, o amigo de Covas ganhou nova licitação. Novamente, com apenas duas empresas. A De Nadai apresentou a diária de R$ 8,10, apenas R$ 0,05 menor do que o concorrente, uma empresa chamada Capital. Para o ano de 1999, o governo promoveu nova concorrência. Mais uma vez, apenas a De Nadai e a Capital disputaram. A De Nadai levou com a diferença de R$ 0,10 e o preço da diária caiu para R$ 7,20. Em janeiro deste ano, a De Nadai foi mais uma vez contratada, sem concorrência e por três meses. Quatro empresas apresentaram propostas. Três delas calcularam em R$ 5,81 a diária. A De Nadai apresentou R$ 5,80. Em abril, o governo fez um novo contrato emergencial e só a De Nadai participou, mantendo o preço de R$ 5,80. “Essas coincidências precisam ser muito bem investigadas”, diz Antônio Roque Citadini, conselheiro do TCE. “Parece que o governo força situações de emergência.” Em 15 de março, ele determinou que fosse feita auditoria em todos os contratos da De Nadai com a Casa de Detenção de São Paulo.

A De Nadai também é a principal investigada em um inquérito aberto pelo MP para apurar o fornecimento de leite tipo B à Febem, desde abril de 1996. Na época, o governo rompeu o contrato com a Riga Restaurantes por irregularidades. Contratou, então, a De Nadai e, de lá para cá, o contrato já sofreu quatro prorrogações, tudo sem concorrência. No entanto, o que mais chama a atenção é o valor pago pelo litro de leite: R$ 1,40, segundo o contrato. Sérgio De Nadai afirmou que o valor é uma previsão e que na verdade a empresa está recebendo, desde abril, R$ 1,16 por litro. Covas, por sua vez, mencionou um valor diferente: R$ 1,14. Independentemente de quem esteja falando a verdade, o certo é que nas padarias de São Paulo o litro do leite tipo B, em embalagem longa vida, custa em média R$ 1,10. “A padaria já vende com lucro. Como o Estado compra em grande quantidade o valor certamente teria de ser inferior”, escreveu o conselheiro Citadini em seu despacho, determinando a investigação pelo TCE.

O amigo de Covas faz coro com o governador ao dizer que a amizade entre eles não tem influenciado os contratos. Em abril, quando a De Nadai festejou a conquista de um certificado internacional de responsabilidade social, Covas compareceu e prestigiou o amigo. Na época, a De Nadai já estava sob investigação. “O Tribunal de Contas poderia pedir para o governo me pagar em dia e não questionar preços”, declarou De Nadai em junho deste ano. “Trabalho para o Estado a preço de custo e o crescimento da empresa se deve a contratos com empresas privadas.”

O português – As empresas Tejofran e Power também têm bons motivos para comemorar. Juntas elas têm 13 mil funcionários, número superior aos quadros da Ford. Até o início deste ano, na lista dos principais clientes do grupo figuravam estatais como a Dersa (Empresa de Desenvolvimento Rodoviário S.A.), Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e Metrô, entre outras. Na Justiça tramitam quatro processos contra a Tejofran, que podem culminar com a devolução de cerca de R$ 278 milhões aos cofres públicos. No MP existem 11 inquéritos para investigar os negócios mantidos entre o governo e a Tejofran. O TCE já julgou ilegais 11 contratos do grupo e em outros 22 foram encontradas diversas irregularidades, como superfaturamento e falta de licitação. Apenas em um contrato com a Dersa, o conselheiro Citadini descobriu um superfaturamento de 157%, além de falsificação de documentos na licitação. Em outro contrato entre a Power e a CDHU para a contratação de vigilantes a situação é escandalosa. O valor máximo estabelecido pelo governo era de R$ 4,12 por hora para cada funcionário. A Power recebeu R$ 8,33 por hora/homem.
O dono das empresas Power e Tejofran é Antônio Dias Felipe, compadre de Covas, conhecido como Português. Ele batizou o filho do governador, Mário Covas Neto, o Zuzinha, que advogou para a Tejofran até meados do ano passado. Covas nega que a relação de amizade interfira nos negócios do governo e assegura que todos os contratos são legais. Português faz o mesmo discurso (leia quadro abaixo) e lembra que desde 1988 mantém contratos com o governo estadual e com diversas prefeituras.

O tesoureiro – José Maria Monteiro, coordenador da campanha à reeleição de Mário Covas, é investigado pelo MP por ter autorizado a transferência da carteira de seguros de automóveis da Cosesp à Sul América. O repasse de 99,9% dos contratos foi feito sem licitação. Na transação, a Sul América foi assessorada pela Metacor, empresa ligada ao ex-secretário da Presidência, Eduardo Jorge. A Cosesp sustenta que a licitação foi dispensada, pois se tratou de uma operação de co-seguro e não da venda total da carteira. O promotor da Cidadania Fernando Capez ironiza o argumento. “Como eles podem chamar de parceria um contrato que repassa 99,9% da carteira? Para nós, isso foi uma forma simulada de transferir o seguro sem licitação”, afirma o promotor. Ele também apura a nomeação de diretores na Cosesp por suposta indicação de Eduardo Jorge. Além da investigação de Capez, o MP apura em outros 10 inquéritos irregularidades na Cosesp. Dois deles viraram processos na Justiça que poderão obrigar os ex-diretores da estatal a devolver cerca de R$ 3 milhões. “Tenho plena confiança no Zé Maria. Se tivéssemos cometido algum pecado, teríamos cometido esse pecado em comum”, disse Covas em entrevista coletiva. O governador confia mesmo em seus companheiros.

Colaborou – Adriana Souza Silva

O tesoureiro – José Maria Monteiro, coordenador da campanha à reeleição de Mário Covas, é investigado pelo MP por ter autorizado a transferência da carteira de seguros de automóveis da Cosesp à Sul América. O repasse de 99,9% dos contratos foi feito sem licitação. Na transação, a Sul América foi assessorada pela Metacor, empresa ligada ao ex-secretário da Presidência, Eduardo Jorge. A Cosesp sustenta que a licitação foi dispensada, pois se tratou de uma operação de co-seguro e não da venda total da carteira. O promotor da Cidadania Fernando Capez ironiza o argumento. “Como eles podem chamar de parceria um contrato que repassa 99,9% da carteira? Para nós, isso foi uma forma simulada de transferir o seguro sem licitação”, afirma o promotor. Ele também apura a nomeação de diretores na Cosesp por suposta indicação de Eduardo Jorge. Além da investigação de Capez, o MP apura em outros 10 inquéritos irregularidades na Cosesp. Dois deles viraram processos na Justiça que poderão obrigar os ex-diretores da estatal a devolver cerca de R$ 3 milhões. “Tenho plena confiança no Zé Maria. Se tivéssemos cometido algum pecado, teríamos cometido esse pecado em comum”, disse Covas em entrevista coletiva. O governador confia mesmo em seus companheiros.

“Fui o primeiro cliente do Zuzinha”

 

 

Antônio Dias Felipe, 58 anos, dono das empresas Tejofran e Power, nasceu em Portugal, na região de Beira Baixa. Tinha 18 anos quando chegou ao Brasil, em 1960. Trabalhou no ramo de secos e molhados e depois num supermercado, em Curitiba. A Tejofran tem 43 anos e, segundo ele, desde que a empresa foi criada já eram comuns os contratos com o governo. Ele diz que da amizade com o governador “leva o ônus e não ganha o bônus”. A seguir, trechos da entrevista concedida por ele à ISTOÉ:

ISTOÉ – Como é a amizade do senhor com o governador?
Antonio Dias Felipe
– A esposa dele é portuguesa. É uma amizade antiga. Por ser da terrinha, a gente tinha uma identificação na vida.

ISTOÉ – O senhor frequenta a casa dele?
Felipe
– Não, sou muito ocupado para isso e ele também.

ISTOÉ – Mas o senhor é padrinho do filho do Covas. Compadres normalmente têm bastante amizade.
Felipe
– Sou padrinho em mais de 20 ou 30 casamentos. Esse foi o mais notório.

ISTOÉ – Como foi o trabalho do Zuzinha na Tejofran?
Felipe
– Eu fui o primeiro cliente dele, em 1988 ou 1989, quando ele abriu o escritório de advocacia. Era um contrato de R$ 2 mil a R$ 2,5 mil por mês e vigorou até meados do ano passado.

ISTOÉ – O senhor ajuda as campanhas do PSDB?
Felipe
– Dei oficialmente R$ 50 mil, em 1998. Na campanha anterior foram uns cento e poucos mil.

ISTOÉ – Essas relações não tornam questionáveis as relações de suas empresas com o governo?
Felipe
– É fácil você ver uma mulher na rua e dizer que ela é uma prostituta. Você não tem a responsabilidade de provar. Há um desgaste, até que se prove o contrário. Tem muito concorrente que anda com os recortes de jornal e fica distribuindo faxes.

ISTOÉ – Mas o TCE considerou 11 contratos seus com o governo do Estado ilegais e outros 22 irregulares…
Felipe
– Sem o menor fundamento. Quando os órgãos competentes ou nós, através do departamento jurídico, trazemos os elementos questionados eles voltam atrás. É uma festa bater no Mário Covas e eu apanho por tabela. Eu levo o ônus e não ganho o bônus.

ISTOÉ – Alguns contratos foram considerados escandalosos, como os que foram firmados com a Dersa e a CDHU.
Felipe
– No contrato com a Dersa nada foi comprovado. No contrato da Power com a CDHU somos minoritários. Não sei porque o tribunal achou que era irregular.

Gilberto Nascimento

De tempos em tempos, o empresariado nacional vem a público para defender reformas nos sistemas tributário e de previdência, redução das taxas de juros, linhas de financiamento mais generosas. Na semana passada, foi diferente. Articulado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), um manifesto publicado quarta-feira 2, nos principais jornais do País, tinha o objetivo de demonstrar confiança no presidente Fernando Henrique Cardoso. Aproveitava para elogiar a condução da política econômica, afirmando que o País está “no caminho certo”. Que coincidência: no mesmo dia, o governo enviava à Câmara dos Deputados um projeto de reforma tributária que vai em sentido contrário às conhecidas reivindicações dos que assinaram o documento – por exemplo, ao tornar permanente a Contribuição Provisória sobre Movimentações Financeiras (CPMF).

Além de associações de classe, aderiram trinta empresários de peso, como Jorge Gerdau Johannpeter, Antonio Ermírio de Moraes, Emílio Odebrecht, Olavo Setúbal e um crítico notório das políticas econômicas desnacionalizantes, Cláudio Bardella. O objetivo político do manifesto era tentar atenuar a crise detonada pelo escândalo do TRT e as denúncias envolvendo o ex-secretário-geral da Presidência Eduardo Jorge. Mas acabou servindo para expor ainda mais a fragilidade do presidente. Além disso, levou o empresariado brasileiro à desunião – basicamente, por vaidades e discordâncias nos detalhes.
A reação contrária mais vigorosa foi a do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Horácio Lafer Piva. Ele recusou-se a assinar a declaração e criticou abertamente a iniciativa da CNI, comandada pelo deputado federal Carlos Eduardo Moreira Ferreira (PFL – SP), ex-presidente da Fiesp. A análise de Piva foi a seguinte: não há, no momento, crise de governabilidade. Pela forma como o apoio foi dado, ficou parecendo que a própria legitimidade do governo está sendo questionada, ou, no limite, que a democracia estaria em perigo no País. Piva reafirmou, entretanto, seu apoio ao governo e ao presidente.

Chamou a atenção também a reação do presidente da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), Clésio Andrade. Em nota divulgada no dia do manifesto, Andrade afirma que seu nome foi colocado ali sem o seu consentimento. A CNI reconheceu que tinha atropelado a confederação de empresas de transporte, afirmando, também em uma nota, que, como o CNT não respondera no prazo combinado, havia entendido que “consentira tacitamente” com os termos da declaração.
A iniciativa da CNI aparentemente pretendia acalmar os investidores estrangeiros, demonstrando que o País está longe de uma crise institucional. Os números mostram que, ao menos por ora, o ânimo deles não é dos melhores: em julho tiraram R$ 310 milhões da Bolsa de Valores de São Paulo.

Enquanto as lideranças empresariais nacionais discutem a melhor forma de declarar seu apoio ao governo, sua participação na economia brasileira perde força. De 1995 para 1999, o total investido por estrangeiros no País cresceu de 5,7% do Produto Interno Bruto (PIB) para 9,7%. Um exemplo emblemático do processo de desnacionalização foi a Metal Leve, do setor de autopeças, que pertenceu ao empresário paulista José Mindlin – aliás, um dos que assinaram o manifesto a favor de FHC.

 

Que o brasileiro não acredita nos políticos é fato público e notório. Mas a última pesquisa realizada pelo Instituto Brasmarket, com 2.584 entrevistados em todos os Estados, revela que essa velha descrença tem aumentado. E muito. Comparando os dados da mesma pesquisa publicada por ISTOÉ em abril passado, a constatação é simples: com o aumento de seus índices de desaprovação em 17,0% em menos de quatro meses – de 42,0% para 59,0% –, é sobre os ombros do presidente Fernando Henrique Cardoso que recai a culpa de todos os males da política nacional. A decepção é tanta que o número dos que pensam na volta do regime militar como solução é alto. Segundo a pesquisa, 38% dos brasileiros são a favor do retrocesso e acham que a vida nos tempos de ditadura era melhor. Para 66,6%, a corrupção só aumentou de lá para cá. Na região Sudeste, este índice é ainda mais alto e a maioria (46,8%) acha que sob o comando do Exército o Brasil teria chances de voltar a ser o “país do futuro”. Não por acaso, o Sudeste é a região que mais desaprova o governo FHC: 61,1%.
A crença no regime ditatorial também é alimentada pelo aumento da criminalidade no País. O Instituto Brasmarket realizou pesquisa com 3.948 entrevistados para saber o que o brasileiro pensa sobre a violência. Resultado: 62,2% culpam os governantes pela falta de segurança. Apenas 9,2% responsabilizam a polícia, embora 45,7% desaprovem seu desempenho e 28,8% o considerem regular. Mas o dado desanimador para o governo é saber que a imensa maioria dos entrevistados (88,1%) não soube citar absolutamente nenhum investimento ou medida do presidente para melhorar a área de segurança pública. A pesquisa revela ainda que, para a população, o governo federal não se esmera o suficiente para resolver o problema da criminalidade.

Sem desculpa – Não é só o presidente Fernando Henrique que está desacreditado pelos cidadãos. Os índices de aprovação dos poderes Legislativo e Judiciário também caíram em relação à pesquisa anterior. Os dados mostram que a credibilidade do Senado, da Câmara e da Justiça está baixíssima: respectivamente, os índices de desaprovação são 57,8%, 53,5% e 63,3%. Prova de que o brasileiro, embora acostumado, ainda se choca com escândalos de corrupção, como o desvio de R$ 169 milhões dos cofres públicos, verba destinada para a construção do fórum trabalhista de São Paulo. Dois dos principais responsáveis pela maracutaia compunham os quadros do nosso sistema político: o ex-senador Luiz Estevão e o juiz foragido Nicolau dos Santos Neto. E nem a punição dos envolvidos no caso – a cassação de Estevão e a prisão decretada do juiz – ajudaram a salvar a imagem dos nossos Três Poderes.