Mundo

Brancos miseráveis

Na África do Sul, berço do apartheid, surge uma nova face da pobreza: as favelas exclusivamente brancas

Brancos miseráveis

hamada.jpg
DECADÊNCIA 
Famílias convivem em meio à sujeira no acampamento
de Coronation Park, em Krugersdorp

Durante quase 50 anos, a África do Sul viveu à sombra de um regime extremo de segregação racial, que resultaria em um país radicalmente dividido entre brancos e negros. O bairro onde as pessoas viviam, os lugares que frequentavam, as pessoas com quem se relacionavam, tudo era determinado pelas autoridades. A perversidade desse modelo é reproduzida em estatísticas: apesar de responder por 90% da população, os negros e mestiços foram subjugados pelos brancos, detentores de amplos privilégios sobre o restante da sociedade. Foi por isso que uma reportagem veiculada pela premiada rede britânica BBC alcançou enorme repercussão internacional. Nela, o editor John Simpson mostra a condição de miséria e violência que algumas comunidades brancas enfrentam hoje no país, e questiona “se os brancos têm algum futuro na África do Sul.” Vivendo em acampamentos próximos à capital, Pretória, sem água nem eletricidade, em meio à sucata de carros abandonados e móveis velhos, os antigos opressores são agora o retrato da vulnerabilidade – ainda que isso corresponda a uma parcela pequena da minoria branca.

1.jpg
A entrega mensal de donativos. Dois lados
da miséria, agora partilhada pelos brancos

A polêmica se concentrou na declaração de Ernst Roest, líder africâner da organização AfriForum, que afirmou à BBC que cerca de 400 mil brancos – ou mais de 10% da população branca – podem estar vivendo na miséria no país e que há, pelo menos, 80 pequenas favelas exclusivamente brancas apenas nos arredores de Pretória. Roets usou sua conta no Twitter para dizer que 400 mil é uma estimativa da sociedade civil (“não há números oficiais”) e que, principalmente nas regiões oeste e norte de Pretória, há mais de 70 acampamentos de sem-tetos brancos, a maioria escondida em terras privadas. “São pessoas excluídas porque não recebem apoio governamental por serem brancas”, afirmou. “Pergunte a eles próprios se vocês não acreditam.” Diante da enorme repercussão, o governo africano decidiu se pronunciar. “A África do Sul nunca esteve numa situação em que os brancos têm sido perseguidos”, disse Keith Khoza, principal porta-voz do Congresso sul-africano, em entrevista ao jornal africano “Mail & Guardian”. “Casos de crime e pobreza atingem todos os sul-africanos, independentemente da cor de suas peles.” A opositora Aliança Democrática também condenou a reportagem da BBC. “O artigo e o vídeo criam a impressão de que os negros não sofrem na nova África do Sul”, declarou.

2.jpg

Pela escassez de números oficiais, mensurar o tamanho real dessas comunidades é praticamente impossível. “Há, sim, acampamentos de brancos, mas é difícil saber onde eles estão”, disse à ISTOÉ Georgina Alexander, pesquisadora do Instituto Sul-Africano de Relações Raciais (SAIRR, na sigla em inglês), de Johannesburgo. O SAIRR calcula que a dimensão do problema seja bem menor. Baseado no censo de 2011 (últimos dados disponíveis), o instituto estima que existam 7.754 famílias, chefiadas por um branco, que vivem em habitações informais, como barracos montados em propriedades e acampamentos sem-teto. Considerando a média de 3,6 pessoas por família, o SAIRR chega a 27.915 brancos miseráveis na África do Sul, o que corresponde a a 0,05% da população total do país. Segundo Georgina, não é possível dizer se os brancos são excluídos do acesso à ajuda governamental, já que não há informações discriminadas por raça sobre quem é coberto pela rede de proteção do Estado. “O fim do apartheid trouxe o fim da segregação legislada”, afirma. “Desde então, houve muito progresso na integração racial, embora a maior parte ocorra nas classes média e alta, como nas escolas privadas e universidades.”

3.jpg

Depois do fim do apartheid, em 1994, o Congresso sul-africano lançou programas que tinham como metas reduzir a desigualdade e promover uma distribuição de renda mais justa. A mudança começaria por cima, na transferência de ativos financeiros e propriedades para as mãos de negros via empréstimos, por exemplo. Além disso, as empresas deveriam empregar negros e mestiços numa proporção semelhante à da população média do país, em todas as áreas de sua operação. Não demorou para surgirem denúncias de que os novos contratos tinham fortes relações com favorecimento político. Em alguns casos, a acusação é de que o poder público passou a pagar mais por serviços menos qualificados só porque eram fornecidos por negros. E os brancos, não raro, reclamam da dificuldade em conseguir um emprego depois da graduação na universidade. De acordo com o relatório mais recente do SAIRR, de 19 de maio, os negros com diploma superior estão mais propensos a encontrar um emprego nos primeiros 12 meses após a formatura do que os brancos.

4.jpg

Desde o início da redemocratização, a taxa de desemprego cresceu entre os brancos de 3% para 5,7%. Mas, para os negros, o patamar ainda está ao redor dos 30%. E, afinal, os brancos da África do Sul ainda têm mais chances de ser empregados do que habitantes das principais economias do mundo (nos Estados Unidos, o índice de desemprego em 2012 ficou em 7,8%; no Canadá, em 7,2%; e na zona do euro, em 11,8%). A conclusão do relatório do SAIRR é que as políticas afirmativas não conduziram os brancos ao desemprego nem à pobreza numa escala significativa, porque os brancos, que ainda têm mais acesso à educação, investiram na criação de novos negócios. As mudanças que o fim do apartheid trouxe à África do Sul para uma sociedade mais integrada e representativa ocorrem de forma lenta e é inegável que o branco ainda seja a cor predominante das elites. As diferenças nascidas da pele, contudo, agora criam novos desarranjos e prejudicam quem menos deveria se preocupar com as cores: os igualmente miseráveis.

Fotos: REUTERS/Finbarr O’Reilly
Fotos: REUTERS/Finbarr O’Reilly