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O menestrel do ministro

Advogado paranaense e dublê de cantor, Edson Abdala conta como criou a música em homenagem ao amigo Luís Roberto Barroso, indicado ao STF

O menestrel do ministro

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AMIGOS HÁ 17 ANOS
Novo ministro do STF, Luís Barroso orgulhou-se
da homenagem: “Foi feita sob medida”, disse

Ao ser indicado pela presidenta Dilma Rousseff ao Supremo Tribunal Federal na quarta-feira 22, o advogado Luís Roberto Barroso ganhou os holofotes. Chamou a atenção em seu perfil o gosto musical eclético, que vai de Chico Buarque a Beethoven, passando por Edith Piaf, Ana Carolina e Elvis Presley. Porém, não são apenas nomes consagrados da música que alimentam a alma de Barroso. Em seu blog, o futuro ministro mostra admiração também por talentos desconhecidos do grande público, como o paranaense Edson Abdala, de 54 anos. Advogado criminalista e professor licenciado da PUC do Paraná, ele é criador da canção “Um só Coração”. Ao ritmo da bossa nova, a música se propõe a retratar a história e os feitos de Barroso tanto no meio jurídico como na vida pessoal. Ela pode ser ouvida entre os 105 posts publicados na página pessoal do escolhido por Dilma para o STF. Barroso escreveu sobre a canção: “Feita sob medida, com os exageros e o colorido de uma amizade antiga, que une nossas famílias.” Abdala ofertou a música como um presennte de Natal para Barroso. “Ela revela mais sobre ele do que sobre mim. Mas é um charme e alegrou-me o coração”, concluiu o ministro. Abdala não lhe poupou elogios, sape­cando versos como estes: “Constitucionalista, verdadeiro alquimista do Direito Mundial, Seja em Harvard, Yale, aventura sem igual. E ainda por cima também canta e declama um bom fado tropical”, diz o refrão.

A ISTOÉ, Abdala conta que criou a canção em dezembro de 2011 antes da festa de fim de ano em que recebeu o ministro em sua casa. “Foi muito rápido. Ficou pronto em poucos dias. A melodia veio praticamente em uma inspiração só”, explica. “A letra também não demorou muito, mas eu sou bem parnasiano”, acredita. Apesar de não se considerar um profissional, Abdala toca violão e possui mais de 40 composições próprias. A maioria é de cunho religioso, porém há sete homenageando amigos, como Barroso e o cantor Toquinho. Além de bossa nova, ele compõe em outros gêneros. Possui até uma tarantela. De acordo com ele, o gosto pelas notas veio com os pais e foi aprimorado pela irmã. “Eu desde novo ouvia muita bossa nova e não os Beatles ou o iê-iê-iê.”

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Abdala conheceu Luís Roberto Barroso em 1996, durante um congresso na PUC do Paraná. Desde então, passaram a se encontrar ao menos uma vez por ano. De acordo com o menestrel do ministro, pesou na escolha da bossa nova como gênero da música-homenagem a combinação de duas características do novo ministro apontadas no início da letra da música: “carioca da gema, habitué de Ipanema”. “Tem de haver um casamento entre letra e música. E a do Barroso pedia algo leve”, explica Abdala. A participação do amigo, professor como ele, em encontros acadêmicos também foi aclamada na canção: “nos congressos detona, não se deixa na lona. Paciência natural”.

Edson Abdala diz ter recebido a notícia sobre a indicação de Barroso ao STF pelo filho, estudante de direito, na quarta-feira 22. Para não incomodar o colega, resolveu não telefonar. Apenas enviou um e-mail parabenizando-o. “Ele está em plena condição, tem independência e capacidade intelectual para ocupar a função”, torna a elogiar. Questionado se pretende fazer uma nova letra para a canção agora que seu amigo estará no Supremo, Abdala rejeitou, de pronto, a ideia. “Eu não fiz a canção para o ministro do Supremo, fiz para o meu amigo.” Minutos depois, porém, não descartou a hipótese de atualizar a versão: “Pode acontecer, quem sabe. Essas coisas ocorrem naturalmente. A gente nunca planeja.”

Fotos: Ailton de Freitas / Ag. O Globo