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O que seria possível fazer no lugar de Paes?

Desrespeitado e ofendido, o prefeito do Rio de janeiro reage dando um soco no provocador. Com isso, abre uma discussão: a atitude pode prejudicá-lo ou vai humanizar Eduardo Paes como um cidadão comum capaz de indignar-se e até perder a cabeça

O que seria possível fazer no lugar de Paes?

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REAÇÃO HUMANA
O prefeito Eduardo Paes pediu desculpas pela reação que
teve depois de ser seguidamente ofendido por Botika

A prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB), não segue o roteiro que costumam traçar as autoridades políticas. Ele gosta de andar sem seguranças, mantém o hábito de pedalar pelas ruas e não abre mão de frequentar restaurantes, cinemas e casas de shows. Como qualquer cidadão, Paes enfrenta filas e por vezes é até abordado por flanelinhas. Na noite do sábado 25, o prefeito acabou sendo vítima desse estilo despojado. Na companhia da mulher e de dois casais amigos, Paes foi ao Yumê, um restaurante japonês no bairro do Horto, novo point gastronômico da cidade. Quando se dirigiu à calçada para fumar, foi abordado pelo músico Bernardo Botikay. Segundo testemunhas, Botika, como é conhecido, mais de uma vez xingou o prefeito de “bosta” e de “vagabundo”, entre outros adjetivos. Diante das ofensas, Paes, 43 anos, não se conteve e acabou socando o artista. A briga só não prosseguiu dada a interferência da turma do deixa disso e também dos seguranças. Na manhã seguinte, por intermédio de uma nota distribuída à imprensa, o prefeito resumiu o episódio e pediu desculpas à população por sua reação intempestiva: “Apesar da agressividade eu não poderia ter reagido como fiz”. Na terça-feira 28, o músico foi à delegacia e retirou a queixa que fizera contra Paes.

Juridicamente, Botika encerrou o caso ao retirar a queixa contra o prefeito. Para Eduardo Paes, no entanto, fica uma questão em aberto: qual pode ser a consequência política de seu gesto? O cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio, lembra que na democracia os protestos mais eficientes são baseados em argumentações, mas que a reação do prefeito também pode trazer resultados negativos, uma vez que opositores poderão vir a tratar o tema como uma prova de despreparo para o exercício da função pública. Além disso, concorrentes de má-fé poderão vir a estimular que novos atos de provocação venham a ocorrer com o intuito de desestabilizar o prefeito. “A crítica política pode muitas vezes trazer resultados, desde que consiga mobilizar as pessoas. Mas a agressão física nunca se justifica”, analisou o professor Ismael. O cientista político Jorge Alberto Saboya, professor da UERJ, também acredita que o episódio possa trazer consequências negativas para o prefeito. “Mandatários, mesmo em seus momentos privados, continuam respondendo por sua função pública. Quando o prefeito deixa de ser prefeito? Só quando acaba o mandato”, avalia.

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Apesar da tendência apontada pelos especialistas, a nota emitida por Eduardo Paes pedindo desculpas à população e detalhando as agressões verbais a que foi submetido pode, no entanto, reverter esse quadro. Da forma como se posicionou, o prefeito ficou mais humanizado do que já era e isso pode aproximá-lo dos eleitores, desde que episódios semelhantes não voltem a ocorrer. “Quem já enfrentou insultos de algum chato num local público sabe o que o prefeito passou e por que ele perdeu a paciência”, diz o novelista Agnaldo Silva.

Se é positivo que uma autoridade se comporte como os cidadãos comuns, mas é negativo que um prefeito reaja como um simples mortal, o que então poderia fazer Eduardo Paes depois de ser seguidamente ofendido, na frente de sua mulher e dos amigos? A resposta é dada pelo experiente advogado Arthur Lavigne. “O prefeito deveria chamar a polícia e deter o músico, que seria levado à Justiça por crime de injúria”, afirma. O problema é que o mundo político prepara armadilhas que o universo jurídico não pode desarmar. Certamente o músico Botika estava apenas em busca de alguns minutos de fama e os conquistou, ou a serviço de algum opositor.

Colaborou:: Mariana Burgger
Fotos: Roberto Castro/ AG ISTOÉ; Fabio Rossi / Agência O Globo; ALEXANDRE VIEIRA / Agência o Dia