Cultura

A Europa contra hollywood

No Velho Mundo, os maiores cineastas se unem em defesa da produção local contra o avanço dos blockbusters americanos. Repete-se assim uma novela conhecida dos brasileiros

A Europa contra hollywood

Chamada.jpg
REAÇÃO FRANCESA
Fila em cinema parisiense: governo quer garantir espaço para os filmes locais

Nas últimas semanas teve início na Europa um movimento que a classe cinematográfica brasileira conhece bem. Consagrados diretores da França, Itália, Espanha, Alemanha e Inglaterra, apenas para ficar nos países com uma produção mais forte, assinaram uma petição que circula na internet pressionando o Parlamento Europeu a votar contra a inclusão do audiovisual na rodada de negociações entre os EUA e o Velho Continente. Alguns deles, como o espanhol Pedro Almodóvar ou o austríaco Michael Haneke, são notórios ganhadores do Oscar. Eles entendem que se um tratado de livre comércio como o planejado entre as duas economias incluir o cinema e a televisão poderá acarretar a derrocada da atividade em seus respectivos países. “Diante dos EUA, cuja indústria de entretenimento é a segunda maior fonte de exportações do país, a liberalização do setor audiovisual e cinematográfico levará ao desmantelamento do que vem protegendo, promovendo e ajudando a desenvolver a cultura europeia”, lê-se no manifesto intitulado “A exceção cultural não é negociável”. É o cerco da Europa ao avanço de Hollywood.

“Exceção cultural” é um termo que os europeus usam para qualificar a conhecida reserva de mercado. Ou seja: o que se reivindica é a manutenção de leis protecionistas que garantam subsídios sem os quais, de acordo com os cineastas, seria impossível manter longe do vermelho o seu trabalho. Essa reação da classe cinematográfica aconteceu após pronunciamento do comissário de comércio da União Europeia, Karel de Gucht, acenando para a inclusão da atividade cultural na pauta de discussões. A pressão, que conta com o apoio de artistas americanos como David Lynch, foi ouvida. Na Alemanha, o órgão estatal de financiamento do cinema soltou um comunicado alertando para a ameaça de as superproduções dos EUA ocuparem as salas, varrendo da programação os títulos nacionais.

IEpag104Cinema.jpg

No encerramento do Festival de Cannes, na semana passada, a ministra da Cultura francesa, Aurélie Filippetti, declarou que a “exceção cultural é uma linha vermelha que não será negociada por nós”. O Parlamento europeu não teve saída: na quinta-feira 23, votou contra. Tal queda de braços se dá quando Hollywood teve uma baixa de 1% no faturamento nos países da zona do Euro, única região onde isso aconteceu em 2012. “Cinema não é fast-food e não deve ser regido pelas simples leis do mercado”, diz Walter Salles, signatário da petição.

Fotos: Jean-Pierre Muller/afp photo; divulgação