Cultura

Festa libertária

O 8º Festival de Artes Cênicas traz a São Paulo um panorama da cultura cigana

Workaholic de carteirinha, a atriz e empresária Ruth Escobar tem nostalgia da cigana que ela nunca foi. Na terça-feira 19, falando de seu carro em movimento por um telefone celular enquanto voltava de uma entrevista no programa Jô Soares Onze e Meia, ela se recordou de um festival cigano que viu nos Estados Unidos, para onde viajava com frequência por estar casada na época com um americano. “Mas é lógico que como toda crian-ça, eu também queria ser cigana, era toda anárquica”, confidencia. Seja qual for o motivo, Diáspora cigana foi o tema escolhido para o 8º Fiac – Festival Internacional de Artes Cênicas, que Ruth criou e dirige, cuja nova edição acontece em São Paulo a partir da quarta-feira 27. Reunindo dez atrações de diferentes países, a maratona acontece no Teatro Municipal, na Sala São Paulo e em seis unidades do Sesc.

De acordo com Ruth, “o critério de escolha foi o profissionalismo dos artistas, testado em palcos internacionais”. Os diferentes espetáculos, voltados para a música, a dança e a poesia, entre outras manifestações, funcio-nam como uma espécie de mapeamento das andanças dos ciganos pelo mundo. Pouca gente sabe, mas o pianista e arranjador mineiro Wagner Tiso, único representante brasileiro na programação, é descendente de ciganos ucranianos. Entre as atrações estrangeiras, as mais esperadas são a Companhia Eva La Yerbabuena, com a participação da dançarina de flamenco Carmen Linares, e a Kocani Orkestar, da Macedônia. Concorridas também são as apresentações do compositor bósnio Goran Bregovic – autor de trilhas dos filmes de Emir Kusturica –, e do grupo indiano Divana, do Rajastão, grande sucesso na edição anterior do festival, que teve como tema A presença do sagrado nas artes.

Essa ebulição combina com a personalidade de Ruth, uma atriz que não pisa nos palcos desde 1992, quando fez Relações perigosas. No momento, ela cuida da reedição de sua biografia, Maria Ruth, lançada em 1986, agora acrescida de novas fotos. Sua maior preocupação, no entanto, é o projeto A criança e o mar, colônia auto-sustentável para menores que quer ver multiplicada pela costa brasileira. A primeira unidade será inaugurada em dezembro, em Ubatu-mirim, no litoral paulista, num terreno de 145 mil metros quadrados, comprado por ela há 25 anos. Apesar da alegada falta de tempo, Ruth já planeja o 9º Fiac, cujo tema será a comemoração dos 500 anos da presença de Portugal no Brasil, “E, quem sabe, por que não voltar a representar?”, sugere antes de desligar o seu celular, a caminho de mais uma reunião.