Cultura

Uma cidade partida

É véspera da aguardada virada do milênio. No barracão da favela, dois amigos se reencontram.

Um está jurado de morte e o outro conseguiu sair da prisão justamente por prometer liquidar o companheiro, acuado ali na sua frente. A cena sufocante, protagonizada pelos ótimos Matheus Nachtergaele e Luiz Carlos Vasconcelos, é um dos grandes momentos de O primeiro dia (Brasil, 1999), com estréia nacional na sexta-feira 29, filme que Walter Salles e Daniela Thomas realizaram em tempo recorde durante uma pausa na produção de Central do Brasil. Antes de ser alvejado, Francisco (Nach-tergaele) pede ao amigo João (Vasconcelos) para rezar. A oração sai como secos e pausados estilhaços. “Pai Nosso que estás me vendo aqui que nem um bicho, santificado seja pela vida de merda que deu pra mim!” .

Assim é O primeiro dia. Amargo, claustrofóbico. Um entra-e-sai por vielas de morro, corredores de apartamento e escadarias de penitenciária pelos quais circula uma poesia selvagem que remete aos filmes inaugurais de Glauber Rocha, Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. “Queríamos imprimir um sentido de urgência, buscamos uma vibração, um batimento que você encontra às vezes em primeiros filmes”, afirma Salles. Rodada em apenas três semanas, sempre com a câmera na mão, a história incorpora aquele ponto de vista semidocumental tão bem-sucedido em Central do Brasil. O projeto é fruto de um convite do canal de televisão francês Arte, que escolheu dez cineastas de vários países para dirigir os episódios da série 2000 vu par… Com este formato, foi exibido com o título de Minuit. Acrescido de mais 15 minutos, ganhou as telas dos cinemas como uma obra independente e enxuta. Em pouco mais de uma hora, Walter Salles e Daniela Thomas, na segunda parceria – a primeira foi em Terra estrangeira, de 1995 –, tecem uma condensada trama noir na qual a contagem regressiva da passagem do ano funciona como uma bomba-relógio.

Estrabismo – A explosão, no caso, se dá através do encontro do ex-presidiário João com a fonoaudióloga Maria (Fernanda Torres), que, ao ser abandonada pelo parceiro na véspera das festividades, mergulha em completo desespero. Ele está fugindo da morte, ela da vida. É quando a favela cario-ca e os apartamentos de classe média se abraçam num lapso de reconhecimento. Walter Salles diz que a inspiração para a história veio dos textos do psicanalista Jurandir Freire Costa e do livro Cidade partida, de Zuenir Ventura, sobre o apartheid social brasileiro. “Partimos da idéia de que desaprendemos a ver o outro, aquele que não é igual a nós”, explica. “Pensamos portanto em falar da alteridade neste final de milênio e em inverter os papéis dos dois protagonistas no espaço utópico daquela última noite. Daí veio a idéia de que o homem que escapa da prisão é justamente aquele que carrega consigo a possibilidade de salvar.”

No topo do apartamento de Maria, numa homenagem a Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, João atira para o alto, enquanto espocam os fogos de artifício. “O um vira dois, o nove vira zero, quem matou agora salva, ninguém mais vai morrer nesta cidade”, desabafa como um Corisco trazido da caatinga para Copacabana. Segundo Daniela Thomas, estas referências afloraram inconscientemente por fazerem parte do imaginário nacional. Ela vai mais longe. “Existe uma vocação brasileira para fazer um cinema barato. Temos mais capacidade para este tipo de filme. Fica melhor, com mais sangue. Isto é muito claro no Cinema Novo”, afirma. Brilhante radiografia do “estrabismo” das classes sociais, que hoje só se comunicam pela violência, O primeiro dia reitera o talento de Walter Salles – que em março começa a rodar seu novo longa-metragem, inspirado em Abril despedaçado, do escritor albanês Ismail Kadaré – e cria expectativas sobre os projetos futuros de Daniela Thomas, cujos planos incluem para breve um longa-metragem assinado apenas por ela.