Cultura

O espelho da alma

Livro reúne retratos de anônimos e das celebridades mais importantes do século, assinados por Cartier-Bresson

O francês Henri Cartier-Bresson, 91 anos, costuma citar o pintor impressionista Edgar Degas sempre que lhe perguntam por que odeia dar entrevistas. “É muito bom ser célebre, com a condição de não ser reconhecido.” Maior mito da fotografia mundial, ele também odeia ser fotografado e, desde 1973, se dedica quase integralmente ao desenho, feito a lápis, crayon e caneta, reservando seus registros apenas a um círculo íntimo. Continua, eventualmente, a frequentar reuniões de amigos fotógrafos, onde finge não vê-los disparar as famigeradas máquinas portáteis em sua direção. A vida e a fotografia o fizeram tolerante. Andou pelo mundo – dos anos 30 aos 70 –, com sua inseparável Leica em punho, acumulando façanhas e grandes imagens. Sua arma maior era a maneira discreta de trabalhar. Misturando-se à multidão ou quase furtivamente, fazendo da câmera um prolongamento dos perspicazes olhos azuis. Registrou cenas antológicas e, especialmente, as pessoas mais brilhantes deste século.

São esses retratos de celebridades, justapostos a expressivos rostos anônimos, que compõem o luxuoso livro Tête à tête – retratos de Henri Cartier-Bresson (Companhia das Letras, 144 págs., R$ 66), enriquecido ainda de seus desenhos e de uma elucidativa introdução. Estão todos, ou quase todos lá, nas 134 fotos selecionadas. De Picasso a Samuel Beckett, de Marilyn Monroe a Jean-Paul Sartre, passando por Ezra Pound e Che Guevara. Estes retratos em branco-e-preto perpetuam um estilo inconfundível que fez escola, demonstrando senso de equilíbrio e geometria únicos, embora Cartier-Bresson assegure que jamais se preocupou em elaborar seus instantâneos. Mas é difícil fugir ao lugar-comum de que, no caso do mestre francês, a fotografia capta a alma das pessoas. Talvez por isto, Cartier não aprecie muito contemplar seus famosos portraits. É que a lembrança de grandes amigos que já se foram lhe traz sentimentos dolorosos. Juntamente com eles, se foi também um tempo de dias mais glamourosos e menos banais, em que a vida se confundia com a aventura. Cartier-Bresson é a maior prova disto.

FLAGRANTES com a marca inconfundível De Cartier-Bresson: