Economia & Negócios

Truque do Guaraná

AmBev acena com investida global do refrigerante brasileiro e pressiona pela aprovação da fusão no Cade

A AmBev – fusão da Brahma com a Antarctica – deu aula de esperteza e diplomacia. No início da semana passada, Victório De Marchi e Marcel Herrmann Telles, co-presidentes da empresa, estiveram reunidos com o presidente da CUT, Vicente Paulo da Silva, para discutir a situação dos funcionários das duas companhias de bebidas. Na quarta-feira 20, foram recebidos pelo presidente Fernando Henrique Cardoso para comunicar, juntamente com o presidente mundial da PepsiCo, Steve Reinemund, que o Guaraná Antarctica será engarrafado e distribuído em todo o mundo pela PepsiCo. Golpes de mestre para quem é acusado pela concorrência de ser uma ameaça ao emprego e à liberdade de preços. Com a investida internacional, a AmBev parte para a exploração do grande potencial de seu refrigerante e ainda coloca sobre o governo a responsabilidade de viabilizar o sucesso de uma iniciativa genuinamente nacional, que depende dos pareceres favoráveis à fusão da Secretaria de Acompanhamento Econômico, Secretaria de Direito Econômico e do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Enquanto a decisão final não vem, a AmBev prepara a estratégia para desembarcar em solo estrangeiro. A idéia é começar a vender lá fora a partir de maio do próximo ano, começando pelo mercado americano. O acordo com a PepsiCo prevê que a empresa compre o concentrado de guaraná da AmBev e passe a engarrafar, distribuir e vender o produto nos quase 200 países em que atua. Num segmento que movimenta US$ 70 bilhões por ano, o Guaraná Antarctica tem a pretensão de abocanhar uma fatia de 1%, equivalente a US$ 700 milhões. Desse total, 20% seriam destinados ao fabricante do concentrado. “No início esse valor será integralmente reinvestido”, garante Marcel Telles. À AmBev caberá controlar mundialmente o posicionamento, a qualidade e o preço do produto. Propor a parceria com a PepsiCo foi uma das primeiras medidas da AmBev. “Já fazíamos exportações pontuais para alguns países (no ano passado foram quatro milhões de litros), mas só com a logística oferecida pela Pepsi teremos uma operação eficiente”, admite Victório De Marchi, diretor-geral da Antarctica. Com as exportações, a produção deve saltar dos atuais 800 milhões de litros para um bilhão, em cinco anos. Para a PepsiCo, o acordo significa um incremento nas vendas que pode chegar a 9%. Atualmente, a companhia é o segundo maior fabricante de refrigerantes do mundo, com 20,8% do mercado. A liderança pertence à Coca-Cola, com 51%. No mercado de cervejas também há mudanças. No último dia 14, uma reunião selou o divórcio entre Budweiser e Antarctica. A cervejaria americana agora busca importadores para continuar a vender por aqui. “Eles têm produto e dinheiro. Podem até comprar uma fábrica no Brasil”, considera Telles.