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A força do PMDB

Desde a Constituinte, o PMDB nunca acumulou tanto poder. Com isso, reforça o papel de principal aliado do governo e pode ganhar musculatura para voos próprios em 2018

A força do PMDB

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O PODERIO DO COADJUVANTE
A partir do próximo mês, o PMDB será o dono dos três postos da linha sucessória da
presidenta Dilma Rousseff: vice-presidência da República, ocupada porMichel Temer, e
presidências da Câmara e do Senado, com as eleições de Henrique Alves e Renan Calheiros

Com a eleição praticamente certa de Renan Calheiros para o comando do Senado e de Henrique Eduardo Alves para a Câmara, o PMDB retoma o controle das duas Casas legislativas como não fazia desde a Assembleia Constituinte há mais de 25 anos. Terá ainda o domínio sobre os três postos da linha sucessória, uma vez que já ocupa a vice-Presidência da República com Michel Temer. O efeito prático disso é uma capacidade incomparável de barganha com o Executivo. Mas o que alimenta os sonhos mais fisiológicos dos peemedebistas traz embutida uma contradição. As conquistas ou derrotas políticas dos próximos dois anos poderão ser diretamente creditadas, ou debitadas, na conta do partido. Uma responsabilidade quase inconveniente para uma legenda que dispensou o protagonismo de seus fundadores para encarnar o papel de coadjuvante e aliado principal do governo.

O PMDB de hoje é uma espécie de avesso do MDB da Anistia, das Diretas Já e da Constituinte. Não é mais um partido de grandes nomes, como Ulisses Guimarães, Tancredo Neves e Franco Montoro, mas de cargos e cifras. Uma agremiação política que se revela poderosa pela capacidade de compor e tem se tornado uma máquina de eleger prefeitos e deputados. Nas eleições do ano passado, por exemplo, conquistou 1.024 das 5.568 prefeituras em disputa, ou 18,4% do total. Bem à frente do PSDB com 702 municípios e do PT com 635. A preocupação em encravar sua bandeira nos milhares de distritos políticos do território nacional está na raiz da atual lógica partidária da legenda. Se no velho MDB o poder emanava de cima para baixo, no PMDB ocorre de baixo para cima. Engloba, dessa maneira, interesses dos mais diversos recantos do Brasil.

A ausência de ideologia garante aos peemedebistas liberdade para alianças ao sabor de seus interesses regionais. O tamanho e a capilaridade se traduzem no imprescindível papel de fiador da estabilidade institucional. Foi assim com José Sarney, depois com o tucano Fernando Henrique e até hoje com Lula e Dilma. Foi excluído por Fernando Collor, que rompeu com a legenda e não terminou o mandato. “É um superpartido”, diz o cientista político Antônio Lavareda. O sucesso do PMDB, segundo ele, está na habilidade de colocar a estrutura do partido a serviço tanto de interesses paroquiais de prefeitos, como das articulações nacionais com o Planalto.

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Na lógica interna partidária há uma divisão de tarefas. Os articuladores políticos fazem o papel institucional, dialogam com os demais partidos e discutem a aprovação de projetos. Os fisiologistas cobram a fatura pelo apoio da legenda. Um exemplo de articulador é o próprio Temer, conhecido por seu perfil diplomático. Entre os fisiologistas, destaca-se o deputado federal Eduardo Cunha (RJ), candidato a líder do partido na Câmara. Um profissional do toma lá da cá que não mede esforços para conseguir o quer. Os papéis, embora opostos, são complementares. Temer e Cunha se reúnem semanalmente para discutir sobre as estratégias partidárias. Participam das conversas outras figuras de proa como Henrique Alves, Renan Calheiros, José Sarney e Romero Jucá.

Esse colegiado substitui a figura de um líder central a ditar regras e posições partidárias – como ocorre no PT de Lula. Para o diretor do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Antônio Queiroz, o tamanho do PMDB é resultado dessa divisão de poder entre caciques regionais. “A união dessas forças dá corpo aos pleitos e projetos do partido”.

Por ironia e conveniência, esse sucesso é atribuído pelos atuais líderes ao legado de Ulisses. “Ele nos deixou essa capacidade de dialogar e decidir o melhor caminho” , afirma o deputado Henrique Alves (RN). Não é uma opinião consensual. O senador Pedro Simon (RS) reclama que sequer foi ouvido, nem a bancada, sobre a escolha de Renan para suceder Sarney e teme que o futuro da legenda esteja na mão “de radicais”. Aos que se beneficiam de ter o PMDB como aliado, porém, é preciso saber que, entre os peemedebistas, há quem acredite que o desgaste da polarização PT-PSDB dá ao PMDB oportunidade histórica de voltar a ser protagonista.

Fotos: Ailton de Freitas/Ag. O Globo