Edição nº2484 21.07 Ver edições anteriores

Tatame da pesada

Bem antes de dar origem ao MMA, se popularizar como esporte competitivo e de ao mesmo tempo ser associado a brigas violentas e considerado uma das técnicas mais perfeitas e eficientes do mundo das lutas

O jiu-jítsu brasileiro ensinava artistas, militares de direita, intelectuais de esquerda e políticos de todos os lados a pura defesa pessoal.

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Figuras vinculadas aos governos militares dividiam o tatame
dos Gracie com playboys, intelectuais de esquerda e os mais
variados tipos. Na foto, fichas de matrícula de alguns alunos “da pesada”

Por conta da popularização gigantesca das competições de MMA, de certa forma inventadas e difundidas pela família Gracie, muita gente imagina que a origem do chamado “jiu-jítsu brasileiro” tenha sido nos fundos de algum beco, ou numa academia voltada apenas para a competição e as lutas de vale-tudo. É verdade que a popularização da arte e dos nomes de seus precursores Carlos e Hélio Gracie ainda nos anos 50 e 60 tem muito a ver com as vitórias surpreendentes do próprio Hélio e de alguns de seus primeiros pupilos em lutas inacreditáveis em lugares como o Maracanãzinho lotado. Em geral, o franzino Hélio aceitava encarar adversários muito mais pesados e fortes e na enorme maioria das vezes lhes aplicava castigos implacáveis.

Mas, de fato, a origem das academias Gracie tinha muito mais a ver com o ensino de técnicas de defesa para cidadãos normais, e não superatletas.Técnicas aprendidas por Carlos em Belém do Pará com um empresário japonês de nome Misuyo Maeda, o Conde Koma, e aperfeiçoadas pelo irmão mais novo e frágil de Carlos, Hélio.

A ideia era lidar com o já àquela altura famigerado bullying nas escolas ou com agressões, assaltos e covardias que pudessem se dar na vida de pacatos (ou não) jornalistas e arquitetos de esquerda, políticos, radialistas, militares e figuras da direita, bon vivants e quem mais tivesse interesse em, ao longo de algumas aulas, conhecer as alavancas e movimentos que dispensavam a força bruta para imobilizar e subjugar qualquer agressor.

Com esse foco e a fama que foi conquistando, a academia de Carlos e Hélio começou a atrair gente de projeção já na época e outros que se tornariam muito conhecidos mais adiante.

As imagens ao lado, pelo que se sabe inéditas na mídia, são das fichas de matrícula de alguns desses alunos. São peças de uma reportagem preparada pelo jornalista Carlos Eduardo Freitas para a edição de fevereiro da “Trip”, que tratará do tema “Segurança”.
Vejamos alguns high lights do curioso relato:

“A lista de alunos famosos chama a atenção. Entre eles, o ex-presidente militar João Figueiredo, o ex-ministro militar Mário Andreazza, jornalistas como Roberto Marinho, Assis Chateaubriand, Samuel Wainer e Carlos Lacerda, o radialista Flavio Cavalcanti, o cantor Nelson Gonçalves, o playboy Jorginho Guinle e o arquiteto Oscar Niemeyer, além de um sem-número de empresários e executivos. “Tive muitas aulas com eles. Gostava muito daquele ambiente”, lembrou Niemeyer em raro depoimento sobre o jiu-jítsu para o programa “Sensei SporTV”, em 2009, quando faleceu Hélio. “Tive pelo menos um ano de aulas. Meu pai mandou fazer um tatame para a gente. Carlos fingia que perdia, e eu ficava entusiasmado com aqueles golpes todos, achava o máximo”, contou Guinle, em depoimento publicado no livro de Reila Gracie, filha de Carlos e sua biógrafa.

Nas aulas dadas por Carlos e Hélio, os alunos não eram avaliados apenas pela execução dos golpes, mas também por quesitos como coragem, disciplina, respeito e educação. “O Hélio não aceitava qualquer atitude covarde. Tínhamos uma orientação ética”, conta o psicólogo João Alberto Barreto, aluno e depois assistente de Hélio, um dos poucos no mundo que são donos de uma faixa vermelha na luta, a mais alta graduação do jiu-jítsu, dada apenas aos graduados diretamente com os velhos Gracie. “Hoje em dia o jiu-jítsu está banalizado por conta do MMA. Eu, enquanto professor, não formo lutadores, mas sim ajudo a transformar pessoas”, afirma o publicitário aposentado e professor de jiu-jítsu Flavio Behring, pupilo de Hélio e Barreto, outro faixa vermelha, que sofria de asma e mudou de vida desde que passou a viver na academia Gracie.

O que aconteceu depois, ao longo das décadas, com as técnicas, o esporte, as academias, as bravatas e as brigas homéricas, a fama, o dinheiro e a filosofia do interessantíssimo jiu-jítsu brasileiro é assunto para documentários, volumes e volumes de livros e análises de historiadores e especialistas.

Nesse momento aliás, está em processo de pré-produção um filme sobre a história do filho de Hélio, Rickson Gracie, uma espécie de mito contemporâneo da arte suave. A conferir.

Foto: MUSEU GRACIE/ REVISTA TRIP


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