Cultura

Miseráveis milionários

Chega ao Brasil a versão para o cinema do clássico de Victor Hugo, que em duas semanas faturou US$ 120 milhões nos EUA

Miseráveis milionários

Assista ao trailer:

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Milhões estão enchendo os bolsos de “Os Miseráveis”. Na primeira semana de exibição nos EUA, o filme, baseado na obra de Victor Hugo, rendeu o dobro de seu orçamento de US$ 61 milhões. Agora, com a estreia em outros países – no Brasil, inclusive, a partir da sexta-feira 1º – e as oito indicações ao Oscar, as cifras ficarão ainda maiores. Essa façanha, tratando-se da adaptação de um romance lançado há mais de 150 anos, inteiramente cantada e com duração superior a duas horas e meia, é mais uma prova de como o público de diferentes épocas mostra-se fascinado por seu enredo. Já era assim em relação ao musical, que registrou recordes notáveis: “Os Miseráveis” é a produção que está há mais tempo em cartaz no mundo (28 anos), foi montada em 42 países e vista por 60 milhões de pessoas. A chegada de sua versão cinematográfica representa a coroação do fenômeno.

Distante do formato romântico da maioria das obras do gênero, o filme não se prende ao amor entre dois personagens jovens, Cosette (Amanda Seyfried) e Marius (Eddie Redmayne), mas sim no embate moral entre o ex-condenado Jean Valjean (Hugh Jackman) e o policial Javert (Russell Crowe). Cada um à sua maneira, eles tentam ser íntegros, mesmo quando as circunstâncias os forçam a atitudes extremas. O pano de fundo é uma rebelião de grandes proporções. Desiludida com o fracasso da Revolução Francesa, a juventude parisiense tenta novamente tirar um rei do poder armando barricadas e lutando pelos ideais de justiça social. Mas a revolta fracassa por não ter apoio da população.

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Hugh Jackman (acima) vive o ex-prisioneiro Valjean, que se torna
dono de uma fábrica e promete ajudar a operária Fantine (Anne Hathaway),
demitida injustamente. No seu encalço está o policial Javert (Russell Crowe, abaixo)

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Esse drama histórico e ambicioso já fora levado muitas vezes às telas. Mas há muito se tentava fazer uma filmagem do musical, por ele ter dado ao enredo épico uma embalagem muito mais envolvente. O produtor da versão teatral, Cameron Mackintosh, chegou a vender os direitos para Hollywood no final dos anos 1980. Como a produção nunca decolou, o contrato expirou e ele decidiu assumir a empreitada, convidando o cineasta Tom Hooper, de “O Discurso do Rei”, para responder pela direção. Sua visão detalhista fez com que o filme ficasse inicialmente com quatro horas de duração. Houve então cortes drásticos sem prejuízos à compreenssão e a duração foi reduzida em cerca de uma hora e meia.

O filme se inicia com a prisão de Valjean, condenado a 19 anos por ter furtado um pão. Solto, em liberdade condicional, ele continua vivendo como um marginal por não conseguir emprego. Recebe a ajuda de um religioso e inventa para si uma nova identidade, reaparecendo como dono de uma fábrica têxtil e prefeito de uma pequena cidade. Só que agora foragido. É nesse momento que o ex-presidiário reencontra Javert (Crowe), o policial que passa a vida perseguindo-o. Momentos grandiosos, que chegam a contar com mais de 200 atores, muitos dos quais participantes das versões teatrais, foram rodados em Gourdon, uma aldeia no sul da França, e em locações na Inglaterra, como a base naval de Portsmouth.

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A garota Cosette (Isabelle Allen, ao centro) fica órfã e é adotada pelo herói
da história. Sua personagem é o símbolo da infância ultrajada pela miséria

O trio de protagonistas enfrentou algumas batalhas pessoais, além de cantar ao vivo, sem o recurso do playback. Jackman se submeteu a três horas de audições e a arriscadas mudanças físicas. Perdeu peso ao custo de dieta e de três horas diárias de academia, e deixou a barba crescer. Antes de filmar a cena de abertura na prisão, ficou sem beber água por 36 horas, ganhando a impressionante aparência de um condenado. Crowe, que começou a carreira em musicais, decidiu relembrar os tempos em que fazer um teste e conseguir um papel significava ter ou não dinheiro para o aluguel. Em vez de ir ao local marcado de carro, foi andando, na chuva, pelos 28 quarteirões. Isso o faria brigar por um papel que ele considerava tão bom quanto o que viveu em “Uma Mente Brilhante”.

Anne Hathaway, que interpreta a prostituta Fantine, mãe da garota Cosette, criada por Valjean, participa do filme por apenas alguns minutos, mas com um desempenho que já lhe deu o Globo de Ouro. Seu grande momento é quando canta a música mais famosa da produção, “I Dreamed a Dream”, antes de morrer de tuberculose. Ela repetiu a cena por oito horas, até ficar satisfeita. A palavra final agora está nas mãos dos jurados do Oscar.

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Fotos: Divulgação