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Nova York sitiada

Força da tempestade Sandy mata mais de 50 pessoas na Costa Leste americana, deixa oito milhões de pessoas sem luz, inunda Nova York, fecha pela primeira vez o metrô da cidade e traz prejuízos de US$ 50 bilhões à combalida economia dos EUA

Nova York sitiada

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CIDADE PARADA
Vista do Brooklyn para Manhattan na segunda-feira 29: inundação isolou a ilha.

Cena 1: ruas de Manhattan totalmente vazias. Cena 2: ventos fortes, chuva, uma violenta tempestade começa a varrer Nova York. Cena 3: carros amontoados uns sobre os outros, estações de metrô inundadas, semáforos quebrados, fachadas de prédio caídas, incêndios, explosões. Somente a linguagem cinematográfica, que tanto usou Nova York como cenário de filmes-catástrofes, consegue traduzir bem o que a cidade viveu na semana passada. Vítimas de uma violenta tempestade pós-tropical na qual o furacão Sandy se transformou, os americanos enfrentaram situações hollywoodianas quando o fenômeno atingiu a Costa Leste do País, na segunda-feira 29, com ventos de até 190 quilômetros por hora. Sem luz e sem comunicação, a cidade que não dorme apagou. Em vários outros municípios, a devastação também foi enorme. O número de mortos, 70 até o fechamento desta edição, só não foi maior graças ao alarme antecipado e ao deslocamento da população para áreas mais seguras. Foi um filme de terror – ao vivo.

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O prejuízo pode chegar a US$ 50 bilhões, levando em conta a paralisação nos aeroportos, comércio, indústria, setor de serviços. A Bolsa de Valores de Nova York, a mais importante do planeta, que movimenta US$ 117,4 bilhões por dia, fechou pela primeira vez desde o atentado terrorista ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Por motivos climáticos, o último fechamento da bolsa foi em 1888. “Ainda que os edifícios de Nova York sejam muito sólidos, o estrago era esperado em razão da violência”, afirma Tania Sausem, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Avisada com antecedência, a população se refugiou, estocou comida e água, se protegeu. O transporte público foi fechado. Com as inundações, túneis e garagens ficaram bloqueados, a água afetou estruturas. Algumas das 468 estações de metrô, paralisado pela primeira vez em 108 anos, ficaram inundadas até o nível dos acessos.

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CENAS DA CATÁSTROFE
Morador do Brooklyn se equilibra numa lata de lixo.

O furacão Sandy uniu condições raramente conjugadas. “Quase tudo o que podia contribuir para torná-lo mais devastador aconteceu”, sintetiza José Henrique Alves, oceanógrafo brasileiro que trabalha no serviço de previsão do tempo americano. Alves explicou que o vento muito forte elevou o nível da água, na chamada maré meteorológica. O efeito foi reforçado pela lua cheia e a maré alta, que tem efeito parecido. Quando a tempestade chegou ao continente, em Atlantic City, no Estado de Nova Jersey, a média dos ventos estava em 145 km/h, com rajadas de até 230 km/h. Em vez de enfraquecer, como era esperado, Sandy esbarrou de frente com uma tempestade de neve vinda do interior do país. “Em um furacão menor, o aumento do nível do mar é mais localizado e escoa. Mas como o Sandy nunca se viu, pelo menos nos últimos 100 anos”, avalia Alves. Em geral, os furacões apenas margeiam a Costa Leste dos EUA.

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CENAS DA CATÁSTROFE
Remoção de paciente de hospital que ficou sem luz.

Os estragos foram piores no sul da ilha de Manhattan, que ficou sem luz e sem internet. A previsão era de retorno da eletricidade somente no fim de semana. “O pior é à noite. Temos que ligar lanternas para mostrar que estamos em casa. Se acontecer algum problema de segurança, não temos comunicação para pedir ajuda”, disse Leonardo Alvim Botelho, 31 anos, contador brasileiro morador do Gramercy. O silêncio noturno tomou conta da região, que é considerada o epicentro da badalação da cidade, com seus bares e restaurantes da moda. “Os carros particulares foram proibidos temporariamente de circular com menos de três pessoas a bordo. As ruas já estão cheias de lixo porque a coleta não foi regularizada e a comida começa a estragar sem eletricidade”, conta ele. Moradora do Brooklyn e estudante da School of Visual Arts, em Manhattan, a carioca Laura Lannes, 20 anos, não sabe ainda como voltará às aulas. “Os túneis de metrô Brooklyn-Manhattan estão sem previsão de conserto. A faculdade suspendeu as atividades esta semana, mas e depois?”, questiona ela.

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CENAS DA CATÁSTROFE
Região do World Trade Center vira cachoeira e garagem de táxi submersa

A preocupação da estudante é a mesma de especialistas: até quando a cidade ficará parcialmente parada? “As pessoas não estão indo trabalhar. As lojas, fechadas. Até 0,6 ponto percentual do crescimento do Produto Interno Bruto pode ficar comprometido”, analisa Fernando Roberto de Almeida, professor de economia política internacional do Instituto de Estudos Estratégicos (Inest). Até a campanha eleitoral sofreu um apagão após a passagem de Sandy. O presidente Barack Obama se postou como comandante da reconstrução, acelerou a transferência de recursos e deve sair com crédito da situação. Já Mitt Romney, candidato a presidente pela oposição, que queria reduzir os recursos destinados ao sistema de emergências, saiu atingido pelo furacão.

Colaborou Mariana Brugger 
Foto: Peter T./Demotix
Fotos: Kirsten Luce/The New York Times; John Minchillo, Charles Sykes-ap