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É preciso ser grande

Como fazer para não desvanecer diante de monstros das artes cênicas numa produção Global luxuosa para milhões de espectadores? Basta ser gigante

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Tomado pelo personagem "Miss Piranji", o valete gay do Bataclan na novela "Gabriela",
Gero Camilo reafirma sua condição de um dos mais brilhantes e completos artistas do Brasil.

Laura Cardoso, Nelson Xavier, José Wilker, Antonio Fagundes, Mauro Mendonça, José Rubens Chachá, Ary Fontoura, Chico Diaz…como encontrar algum espaço entre unanimidades desse calibre ou ainda entre figuras cheias de energia e sangue novo, a bordo de belos corpos, de rostos impecavelmente talhados e também talentosos, como Bruna Linzmeyer, Mateus Solano, Juliana Paes, Emilio Orciollo Neto, Marcelo Serrado ou Luiza Valdetaro, circulando nus e sensuais em cenas sofisticadamente produzidas.
É preciso ser grande.
Gero Camilo é gigante.

E, só por essa razão, emocionou e arrastou olhos e corações para o homossexual “Miss Piranji”, uma espécie de dama de companhia, camareiro e pai das prostitutas do Bataclan na “Gabriela”, de Jorge Amado, brilhantemente reproduzida pela Rede Globo. O pequeno valete de Maria Machadão, um dos únicos personagens da versão atual que inexistiam na primeira, por ordem da censura que o extirpou do roteiro em 1975, funcionava como uma espécie improvável de reserva moral da Ilhéus dos anos 1920 como descrita por Jorge Amado. Mesmo na condição de “invertido” e por isso segregado do convívio das “pessoas de bem”, Miss Piranji fazia refletir sobre machismo, amor, estética e ética de tal maneira que fica difícil imaginar a bela obra com a mesma densidade que apresentou se esse personagem não tivesse ganhado vida na versão nova do folhetim, retrabalhada agora pelas mãos de Walcyr Carrasco.

Gero nasceu em Fortaleza, onde deu seus primeiros passos no teatro. Mudou-se para São Paulo para cursar artes cênicas na ECA-USP. Fez alguns filmes curtos, incluindo o que lançou Fernando Meirelles, “Domésticas”, mas foi em “Bicho de Sete Cabeças”, de Laís Bodansky, vivendo o doente mental mais crível de que se tem notícia, curiosamente batizado de “Ceará”, que seu talento monumental veio à luz. As parcerias com Rodrigo Santoro, uma espécie de sua antítese física, seguiram em frente, incluindo o notável par romântico de “Carandiru”, de Babenco, o genial travesti Lady de Rodrigo e o meliante regenerado “Sem Chance”, encarnado, outra vez de forma magistral, pelo próprio Gero.

A lista de trabalhos notáveis no cinema e no teatro vai longe, passa pela brilhante encarnação dos pintores Van Gogh e Paul Gauguin na peça de sua autoria “A Casa Amarela”, segue por filmes importantes como “Madame Satã”, “Cidade de Deus” e o excelente “Receberia as Piores Notícias de Seus Lindos Lábios”.

Gero é um artista de espectro amplo. Canta e compõe, escreve bem e muito, tem um interessante livro de contos publicado chamado “A Macaúba da Terra” e prepara outro de poesias para breve. Em sua pequena embalagem, há conteúdo de sobra. E há uma forma inteligente e elegante de pensar e atuar, não só em cena, mas na vida. Sempre de forma doce e sorridente, é capaz de pensar o Brasil de um ângulo original e muitas vezes extremamente contundente, sem nunca deixar de ser delicado e sereno. Exatamente como gostaríamos de ver as figuras públicas sendo.

O lugar de Gero Camilo é no palco. E através dele, na alma do mundo, Gero Camilo conhece seu lugar. E este lugar é nobre. É onde ficam aqueles que fazem a dureza da vida ser mais suportável. Porque fazem arte.

A coluna de Paulo Lima, fundador da editora Trip, é publicada quinzenalmente


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