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Os últimos passos da campanha

Barack Obama e Mitt Romney chegam ao capítulo final da disputa pela Casa Branca num momento em que o país se recupera da crise econômica, mas permanece dividido

Os últimos passos da campanha

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DEMOCRATA
Em busca da reeleição, Barack Obama
tem vantagem entre latinos e mulheres

Os ventos trazidos pelo furacão Sandy não poderiam ter vindo em momento político mais inoportuno. A poucos dias da escolha do novo presidente, num cenário já incerto – as pesquisas mostram os dois principais candidatos rigidamente empatados –, o cenário eleitoral ficou ainda mais nebuloso. Em solidariedade às vítimas do desastre, os compromissos de campanha foram cancelados, deixando dois dias livres para especulações sobre o efeito que Sandy poderia ter no desfecho da acirrada disputa.

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REPUBLICANO
Mitt Romney tem imagem de bom gestor e é o
favorito quando se fala em orçamento e emprego

O atual presidente, Barack Obama, imediatamente assumiu o papel de gerenciador de emergências. Ele viajou a Nova Jersey, uma das regiões mais afetadas, e no dia seguinte aparecia em todos os jornais ao lado do governador local, o republicano Chris Christie, um de seus críticos mais ferrenhos e grande apoiador de Mitt Romney. “Estamos aqui por vocês e não os esqueceremos”, disse o presidente numa coletiva de imprensa. “Vamos acompanhar para ter certeza de que vocês receberão toda a ajuda que precisarem até que tudo seja reconstruído”. Christie foi o primeiro a elogiar a atitude de Obama.

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SUPERAÇÃO
Ann Romney nunca trabalhou, mas é admirada
por ter vencido duas doenças graves

A jogada caiu como uma bomba na campanha adversária. Romney não só perdeu um inevitável espaço nos noticiários, justo quando crescia num embalo suscitado por sua melhor performance nos debates. Jornalistas e analistas políticos de toda parte relembraram uma infeliz declaração do republicano, quando ele ainda disputava as primárias para ser o candidato de seu partido, de que era “imoral” que o governo federal gastasse tanto dinheiro em assistência pós-desastres naturais. Romney disse ainda que essa obrigação deveria ser dos Estados ou, “melhor ainda, direcionada para o setor privado”. Questionado sobre o assunto na semana passada, o candidato se esquivou – mas o estrago já estava feito. A lembrança do furacão Katrina, que destruiu Nova Orleans, é o pior pesadelo dos candidatos. À época, o presidente George W. Bush, do Partido Republicano, demorou quatro dias para ir até o local e foi fortemente criticado. A negligência foi admitida como “um erro enorme” pelo próprio Bush anos depois.

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CARISMA
Mais popular que seu marido, Michelle Obama é considerada um triunfo democrata

O posicionamento dos candidatos em relação à ajuda federal no caso Sandy ilustra bem o que está em jogo nesta eleição. Os americanos terão essencialmente que escolher entre a continuidade de uma política econômica com maior intervenção do Estado, representada por Obama, ou a volta ao liberalismo clássico, do Estado mínimo, modelo preferido de Romney. “Como a economia é a principal preocupação dos americanos, essa eleição será um referendo sobre a forma como Obama conduziu a crise”, disse à ISTOÉ Karlyn Bowman, do American Enterprise Institute. “A economia está melhorando, mas será que isso é suficiente?” Quando assumiu a presidência, em 2009, após uma campanha fundamentada num sentimento de esperança, o primeiro presidente negro do país herdou uma severa depressão econômica. Durante seu mandato, declarou falência de empresas gigantes, aumentou os investimentos públicos e lançou bilionários pacotes de estímulos econômicos, na expectativa de salvar e criar empregos. “Os Estados Unidos moveram-se em direção a um governo mais intervencionista nos últimos anos”, afirma James Gwartney, professor da Universidade do Estado da Flórida. “Mas a recuperação foi certamente fraca.” Em setembro, a taxa de desemprego surpreendeu os economistas e chegou ao nível mais baixo desde que Obama chegou à Casa Branca: 7,8%, bem abaixo do índice da Zona do Euro (11,6%), mas acima do Brasil (5,4%), por exemplo.

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Enquanto a maioria dos eleitores acha que Obama sabe se conectar com cidadãos comuns e tem opiniões consistentes e moderadas, as tarefas de reduzir o déficit no orçamento federal e melhorar a situação do emprego estariam melhor nas mãos de Romney, de acordo com o Pew Research Center. O republicano, que teve sua candidatura “enterrada” ao menos duas vezes (após cometer inúmeras gafes em sua turnê internacional e depois da divulgação de um vídeo em que criticava pobres), vinha se recuperando nos últimos dias. Assim, a busca por votos acirrou-se nos tradicionais Estados-pêndulo (leia quadro). Entre eles, o resultado de Ohio é o mais aguardado. “Se Obama vencer lá, será extremamente difícil para Romney se eleger”, afirma Marty Linsky, da Universidade de Harvard. “Se Romney levar os votos de Ohio, há ainda chances para Obama com os delegados de outros Estados”. Para Michael McTeague, professor da Universidade de Ohio, o resultado da votação no Estado é imprevisível, porque ele se divide entre grandes centros urbanos, que recebem mais assistência do governo (onde os democratas têm vantagem), e áreas rurais, mais autossuficientes (que tendem aos republicanos).

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Num tom bem mais leve, a disputa entre as primeiras-damas proporcionou momentos divertidos da campanha. Michelle Obama venceu um tradicional concurso de melhor receita de cookie contra Ann Romney, no início de outubro. Antes disso, já havia brilhado na Convenção do Partido Democrata, com um discurso entusiasmado sobre a trajetória do marido até a presidência. Ann, em contrapartida, é um símbolo nacional de superação por ter enfrentado um câncer de mama e levar uma vida ativa, apesar de ser portadora de esclerose múltipla. Muito diferentes entre si, Michelle e Ann são o retrato de um país que poucas vezes esteve tão dividido. 

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Fotos: Win McNamee/Getty Images; Chuck Kennedy