Edição nº2488 18.08 Ver edições anteriores

Torre de Babel

A única briga entre israelenses e palestinos, brasileiros e argentinos, iranianos e americanos foi sobre quem venderia mais livros

É no “Gênesis” que encontramos um dos mitos mais paradigmáticos da ambição humana. Trata-se da Torre de Babel, construída pelos descendentes de Noé, com o objetivo de alcançar a casa de Deus. O criador, indignado com a pretensão humana, semeou a diversidade linguística e fez com que os homens se desentendessem e acabassem por destruir a torre.

A diversidade das línguas sempre foi e continua sendo uma barreira efetiva entre os homens. Mas a literatura, como diz Amos Oz, é capaz de ultrapassar essa barreira e servir como uma ponte de união entre os povos.
É nesse sentido que a Feira de Frankfurt pode ser chamada de Torre de Babel.

Estive presente nesta última edição para lançar meu livro e fazer uma leitura no Hessisches Kultur Forum, e foi impossível não pensar na história mítica de Babel enquanto caminhava pelos imensos pavilhões onde, a cada quatro metros, saltava-se de países tão díspares entre si, como Uzbequistão e Bélgica, Nigéria e México, sem nenhum desentendimento. Vi um cazaque apreciando a culinária típica do seu país, ao lado de um turco saboreando sua halvá. A única briga que existiu entre israelenses e palestinos, brasileiros e argentinos, iranianos e americanos na Feira de Frankfurt foi a que dizia respeito a quem venderia mais livros.

A feira, que neste ano focou a Nova Zelândia, terá o Brasil como tema da edição de 2013. Trata-se de uma oportunidade ímpar para o Brasil mostrar que a cultura faz parte, sim, do seu desenvolvimento econômico (Cultura, Dilma!).

Eu a havia visitado há dez anos. Na época achei o evento sensacional e Frankfurt sem graça. Uma cidade anódina, “cityless city”, como a descreveu um amigo. Desta vez, a feira estava ainda melhor, mais organizada, mais bonita visualmente, com uma programação mais diversificada e interessante. Nenhuma surpresa. Os alemães são diligentes e obstinados a ponto de erguer uma Torre de Babel que funciona perfeitamente. Quanto a Frankfurt, esta, sim, foi uma grande surpresa. A cidade, que foi praticamente destruída na guerra e que era inexpressiva em termos urbanos há dez anos atrás, se reinventou urbanística e arquitetonicamente.

A primeira coisa que notei foi a predominância de uma arquitetura de vanguarda que alterou o skyline da cidade. Com 700 mil habitantes, dos quais 250 mil são estrangeiros, Frankfurt tem ritmo dinâmico, cosmopolita, ao mesmo tempo que oferece uma grande qualidade de vida aos seus habitantes. A cidade é toda plana e cheia de parques. A bicicleta é o meio de transporte mais popular. A oferta cultural é imensa e diversificada. Seu teatro de ópera já é um dos mais importantes do mundo, com a programação mais arrojada e interessante de toda a Europa. São mais de 20 museus espalhados pela cidade. Só tive tempo de visitar o Stadel Museum, onde vi duas exposições: uma sobre o romantismo negro (de Goya a Max Ernst) e outra sobre a pintura moderna (de 1800 a 1945).

Não há como observar tudo isso e não pensar no Brasil. É deprimente perceber o descompasso enorme que existe entre nossa nova realidade econômica e nossa realidade cultural.

É claro que a Alemanha está bem economicamente e vem surfando na crise que abate a Europa. Mas o Brasil também.
A diferença é que o Brasil não se preparou, em termos educacionais e culturais, para enfrentar o tempo de vacas gordas, quando o mundo todo olha para nós com curiosidade.

A edição de 2013 de Frankfurt, assim como as Olimpíadas e a Copa vão ser uma grande oportunidade para que o Brasil repense seu desejo cultural. 


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