Edição nº2476 26.05 Ver edições anteriores

90 por cento de certeza

Cronistas esportivos e cientistas políticos não se satisfazem mais em emitir sua opinião. Têm que dar números, cifras, palpites estatísticos e prognósticos

Tevê ligada, ouço o comentarista esportivo dizer: “Tenho 90% de certeza de que o time tal não se classifica para a Libertadores.” Pausa:……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….
(Essa lacuna acima não é só um recurso para ganhar espaço – embora isso não seja má ideia quando se tem de tirar um texto de três mil toques da cartola –, mas para tentar expressar o meu silêncio mudo e espantado diante de tal afirmação.)

Meu Deus, quanta filosofia! Sim, sim, filosofia pura – o homem tinha 90% de certeza. Vejam bem, não 70, 80 nem 100, mas precisamente 90% de certeza. Consideremos que a certeza humana sobre determinado assunto possa compreender de fato integrais 100%. Então o sujeito estaria muito próximo da razão plena, seria quase um clarividente. Em meu raciocínio lógico, óbvio e ululante, deduzo que, com mais 10% de certeza, ele teria então a certeza total, absoluta, irrefutável. Ora, ninguém pode ter 100% de certeza em nada, nem mesmo 90. 10%, vá lá, talvez possa ser aceitável. Por quê? – perguntará o leitor. Porque toda certeza tem a sombra da dúvida, apesar da existência da sonora e bela expressão popular “sem sombra de dúvida”.

Ela, a sombra da dúvida, está sempre lá. Nunca se sabe completamente tudo sobre algo, nunca se está totalmente seguro e confiante em relação a nada. Nunca saberemos quem mente ou fala a verdade (às vezes nem nós mesmos sabemos sobre nós), se Tom Cruise é bom ator ou canastrão, se determinada memória foi sonho ou realidade, se o mundo acabará em dezembro deste ano, se eram os deuses astronautas, se Paulo Coelho faz mesmo chover, se Shakespeare existiu ou, caso tenha existido, se era mulher ou homem, se Carminha será punida no último capítulo da novela… Entre a certeza e a dúvida, há milhares de nuances possíveis que embaralham os sentidos. Tudo está sempre sob suspeita e, nessa toada, nem Deus, representante sobrenatural do Absoluto, escapa da dúvida e da incerteza humanas – aí estão os ateus que não me deixam mentir.

Ok, mas o cara tinha 90% de certeza quanto a um prognóstico esportivo. Ora, no esporte então, e no futebol especialmente, a dúvida é um componente quase tão importante quanto a expertise do atacante ou a falha fatal do zagueiro. Quantos adversários mais fracos já venceram outros incrivelmente mais fortes – ocorrência que ganhou a zoológica e simpática alcunha de “zebra”; quantos craques falharam na hora extrema e quantos cabeças de bagre se consagraram por acaso ou destino; quantos times tidos como favoritos ficaram no meio do caminho, os chamados “cavalos paraguaios”; quantos goleiros infalíveis entraram para a história como “frangueiros” por conta de um lapso banal e definitivo…

Uma certa necessidade de precisão parece ser um valor de nossa época. Cronistas esportivos, cientistas políticos, âncoras de telejornal, articulistas, críticos e espécimes similares não se satisfazem mais em apenas emitir sua opinião sobre as matérias em questão. Têm que dar números, cifras, palpites estatísticos e prognósticos certeiros nesses tempos de profetas de quiosque.

Meu caro comentarista, peço que ensine a nós, mortais, como sermos capazes de ostentar 90% de certeza sobre o que quer que seja. A humanidade agradece, endividada, sua dica metafísica. Sem sombra de dúvida.  

Zeca Baleiro é cantor e compositor


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