Medicina & Bem-estar

O desafio de impedir a morte dos neurônios

Pesquisadores testam molécula que poderá ser capaz de proteger as células nervosas do cérebro dos danos causados por doenças como o Parkinson

O desafio  de impedir  a morte dos neurônios

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Centros de pesquisa em todo o mundo buscam com afinco substâncias capazes de proteger da morte ou de agressões as células nervosas do cérebro e da medula espinhal. O que se quer é encontrar meios de preservar os neurônios da degeneração progressiva a eles imposta por doenças como o Alzheimer, o Parkinson e a esclerose lateral amiotrófica (ELA). Na semana passada, um grupo de cientistas anunciou resultados animadores nessa direção após estudos feitos com moléculas pertencentes a uma nova classe de substâncias chamada de P7C3. Em testes feitos em modelos animais com doenças degenerativas, uma dessas moléculas, chamada de P7C3A20, aumentou a sobrevivência de novos neurônios em uma área do cérebro conhecida por giro denteado, na região do hipocampo, e foi também capaz de preservar neurônios maduros fora dessa região. “Essa molécula funciona bloqueando formas patológicas de morte neuronal. Estamos agora no processo de determinar quais são, precisamente, os seus alvos e mecanismos de ação”, disse à ISTOÉ o cientista Andrew Pieper, principal autor dos dois trabalhos a respeito do assunto, publicados pela revista científica “PNAS”. Pieper é professor de psiquiatria do Carver College of Medicine, instituição ligada à Universidade do Iowa, nos Estados Unidos.

O experimento revelou também um desempenho positivo do composto contra a degeneração das células produtoras de dopamina, neurotransmissor (substância envolvida na troca de sinais entre as células nervosas) necessário ao controle motor. Na doença de Parkinson, são justamente esses os neurônios atingidos. “A enfermidade destrói gradualmente essas células”, explica o neurologista e geneticista David Schlesinger, pesquisador do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein. A perda dessas células cerebrais leva a tremores, rigidez e dificuldade de caminhar. Pieper e sua equipe viram ainda que a molécula testada foi competente para evitar a morte de neurônios da medula espinhal e pode estar relacionada à melhora de sintomas como a coordenação e força em modelos animais com esclerose lateral amiotrófica.

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O próximo passo dos pesquisadores será aprimorar novas moléculas da família P7C3 e determinar sua eficácia em animais com lesão cerebral traumática e lesões nos nervos periféricos. Eles também estão interessados em colaborar com outros investigadores com experiência em outras formas de doenças degenerativas. De fato, há uma grande variedade de formas mal compreendidas de enfermidades desse tipo, que afetam milhares de pessoas em todo o mundo. “Nossa esperança é que o modelo químico representado pelas moléculas forneça uma base para avançar nos estudos de uma nova classe de medicamentos neuroprotetores que irão beneficiar os pacientes”, afirma Pieper. 

Atualmente, não há medicamentos com efeito neuroprotetor. “Existe uma necessidade grande e não atendida de criar substâncias com essa característica”, afirma o neurologista Rodrigo Schultz, da Universidade Federal de São Paulo. Na visão do neurologista e geneticista Schlesinger, os estudos de Pieper aprofundam o conhecimento dos mecanismos que levam à morte neuronal e acenam com novas possibilidades. “Porém, da mesma forma que a degeneração das células nervosas é fruto de diversos mecanismos distintos, a neuroproteção é um processo que envolve um conjunto de medidas e não está associada somente a um único medicamento”, pondera.

Com a finalidade de conter a deterioração neuronal, há também estudos com remédios biológicos (feitos a partir de células humanas) para frear processos que levam ao acúmulo de substâncias capazes de matar células nervosas. E, também na última semana, a ciência deu outro passo para ampliar as possibilidades de regeneração de células nervosas. Em laboratório, o pesquisador Benedikt Berninger, da Universidade Johannes Gutenberg, na Alemanha, conseguiu converter em neurônios algumas células que são encontradas na barreira hemato-encefálica que protege o cérebro. “Nosso principal objetivo é um dia induzir a conversão dentro do próprio órgão e, assim, proporcionar uma nova estratégia para reparar danos ou doenças”, disse Berninger. Testes mostraram que os neurônios recém-convertidos produziram sinais elétricos e se comunicaram com outros neurônios. 

Foto: Rafael Hupsel/Ag. Istoé