Cultura

O sofá está vazio

Formada na turma de pioneiros da tevê, Hebe Camargo não tinha apenas um talento: reunia todas as características apropriadas a esse meio de comunicação

O sofá está vazio

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TÉCNICA
O selinho e as gracinhas de Hebe eram apenas charme: segundo
estudioso, ela nunca se colocou acima do seu público

Com a morte de Hebe Camargo, no sábado 29, após uma carreira de 57 anos de sucesso, encerra-se a mais longa trajetória de um artista na televisão. Tanto tempo no ar não se explica apenas pela fidelidade a uma fórmula consagrada: além de ter sido formada na geração pioneira da implantação da tevê no Brasil – e também por isso –, Hebe desenvolveu um estilo, habilidade conferida apenas a quem domina totalmente o seu metiê. “O segredo do seu sucesso é que ela reunia uma série de características técnicas apropriadas a essa mídia. Fora isso, não dava a entender que tinha mais sabedoria do que seu público”, afirma o professor de sociologia da USP Sergio Miceli, autor do livro “A Noite da Madrinha e Outros Ensaios Sobre o Éter Nacional”, dedicado à apresentadora.

Hebe, que tinha 83 anos, consagrou-se numa época em que a guerra de audiência não era tão acirrada e, ainda assim, dominava os segredos da comunicação direta com o público. Sua receita era simples, natural como a sua personalidade: travar uma conversa no aconchego de uma sala de estar, num clima de intimidade que cativava o espectador. “Ela me ensinou desde a sentar no sofá até como me aproximar da realidade”, diz a atriz e apresentadora Adriane Galisteu, uma de suas seguidoras, junto com Ana Hickmann e Luciana Gimenez. Generosa com as pupilas, Hebe lhes dava dicas pelo telefone: “Uma vez me disse que se eu tivesse vontade de chorar em frente às câmeras, que o fizesse”, conta Adriane.

Além de ter feito escola, a apresentadora tinha independência. Passou pela TV Tupi, Record, Bandeirantes, RedeTV! e se preparava para reestrear no SBT, onde trabalhou 25 anos. “O capital de prestígio que ela conseguiu acumular independia do conglomerado ao qual estava associada”, afirma Miceli. O improviso também estava entre seus trunfos. “Trabalhar sem roteiro, sem ser rebelde e sem fugir completamente do que o diretor está pedindo era também sua habilidade”, diz Adriane. Rainha da tevê, Hebe deixa vazio o trono – e o sofá. 

Foto: Marcelo Liso/AFBpress