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Máquina de moer habitantes

“Uma intervenção arquitetônica pode melhorar a vida de um bairro; um plano urbanístico pode mudar o destino de uma cidade e seus habitantes”

A cabo de voltar do Brasil. O que me surpreendeu nessa curta estadia foi a sensação de não gostar mais de estar na minha cidade, São Paulo. Foi um sentimento incômodo, como se eu estivesse me traindo, ou como se me flagrasse sendo uma coisa que nunca fui: carioca, por exemplo. Ou suíça.

Fiquei doida para dar o fora dali o mais rápido possível. Até então, eu mantinha uma relação conflituosa com a cidade. Eu gostava de parafrasear o escritor Miguel Esteves Cardoso dizendo que voltar a São Paulo era como voltar a fumar. Só quem conhece o vício sabe a delícia e o terror que isso significa.

A São Paulo onde vivi por mais de 30 anos (e que já foi cenário e personagem de muitos dos meus romances) possuía a mesma ambivalência de Viena para muitos vienenses, ou seja, era passível de ser amada porque seu lado fascinante compensava a sua banda podre.

Desta vez, não consegui encontrar este equilíbrio. Minha sensação é a de que São Paulo não para de piorar. Mais motoboy, mais engarrafamento, mais violência, mais medo, mais grades e mais feiura transformam o que já foi o avesso do avesso do avesso num constructo de metrópolis mais próximo da barbárie do que da modernidade.

A história nos mostra que cidades tão ou mais problemáticas que São Paulo conseguiram se reinventar ao longo do tempo. Berlim, por exemplo, destruída e empobrecida no final da Segunda Guerra, é hoje uma rica paisagem multicultural e multirreferencial, um museu a céu aberto, que oferece grande qualidade de vida aos seus habitantes.

Lembro de um escritor francês que ao visitar São Paulo recentemente comentou que sua impressão era a de que nunca alguém havia parado para pensar em como transformar São Paulo numa cidade bonita ou habitável. De fato, nunca houve por parte de nossos políticos a preocupação de realizar uma intervenção urbana profunda, a exemplo do que fez Haussmann em Paris.

Já o Rio de Janeiro teve mais sorte com o projeto “Bota-abaixo” de Pereira Passos, que modernizou e embelezou parte da cidade e deu ao Rio de Janeiro o título de “Cidade Maravilhosa”. E agora, com o atual projeto de revitalização da zona portuária, o Rio de Janeiro mostra que continua à frente de São Paulo. Na verdade, o Rio de Janeiro está tendo uma grande oportunidade de mudar o seu destino. Imagine o que acontecerá ali se ficar mesmo decidido que a estrutura olímpica carioca será instalada nas áreas mais carentes da cidade, a exemplo do que ocorreu em Londres e Barcelona? Essa estrutura poderá funcionar como “gatilho” propulsor para a mudança e o desenvolvimento dessas regiões e bairros e o carioca acabará ganhando em qualidade de vida.

Da mesma forma que uma intervenção arquitetônica pode melhorar a vida de uma família, de um bairro ou de uma comunidade, um plano urbanístico de largo alcance pode mudar o ethos e o destino de uma cidade e seus habitantes.

São Paulo tem poder de fogo para bancar um projeto urbanístico de grande envergadura. Como disse o arquiteto e urbanista Richard Rogers, arquitetura é política. E urbanismo também.  


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