Artes Visuais

Especial ArtRio Fair – Três galeristas brasileiros comentam sobre a participação na feira

Confira as entrevistas com as galeristas Luciana Brito (Luciana Brito Galeria), Alessandra D'Aloya (Galeria Fortes Vilaça) e Daniel Roesler (Galeria Nara Roesler)

Especial ArtRio Fair – Três galeristas brasileiros comentam sobre a participação na feira

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Entrevista com Galeristas Nacionais

Entre os dias 13 e 16 de setembro, a segunda edição da ArtRio Fair coloca o Brasil em destaque no calendário das feiras de arte internacionais. Em uma série de entrevistas especiais a Revista Istoé conversou com alguns galeristas brasileiros sobre o interesse internacional sobre o mercado de arte nacional e sobre como as feiras de arte vem desempenhando um papel importante no fomento à arte do Brasil. Confira a entrevista com as galeristas Luciana Brito (Luciana Brito Galeria), Alessandra D’Aloya (Galeria Fortes Vilaça) e Daniel Roesler (Galeria Nara Roesler) sobre as expectativas para ArtRio Fair:

Entrevista com Luciana Brito-Luciana Brito Galeria-São Paulo

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Galerias brasileiras passaram a ser mais requisitadas por colecionadores e instituições estrangeiras diante do atual cenário de crescimento?
Sem dúvidas. Além de estarmos vivendo isso, existem números que provam. Se eu não me engano a Abact (Associação Brasileira de Arte Contemporânea) fez uma pesquisa recentemente sobre isso. Eventos como as feiras SPArte e ArtRio, bem como a Bienal de São Paulo também movimentam muito o mercado e fidelizam esses clientes.

Apesar da isenção fiscal concedida nas últimas feiras brasileiras (SP-Arte e ArtRio), o que falta ainda por parte do governo e do setor fiscal para impulsionar a circulação e o mercado da arte brasileira no setor internacional?
Os impostos devem ser revistos não só para durante as feiras. Ainda é muito alto o custo de importar e nacionalizar uma obra no Brasil. O setor de artes no Brasil está ganhando cada vez mais notoriedade e cresce exponencialmente. É muito importante que as regras fiscais sejam revistas para acompanhar esse momento.

Tem sido comum durante as feiras de arte brasileiras o incentivo a aquisição e doação de obras para coleções de Museus e outras Instituições de arte por empresas. Mesmo assim, a prática desse tipo de ação é escassa no cenário nacional. Por que se investe pouco no colecionismo da arte contemporânea quando esse setor nunca esteve em tanta evidência? Que incentivos deveriam ser criados para modificar esse cenário?
Acho que ainda é deficiente devido à falta de incentivo e conhecimento. Educação e informação contam muito nessas horas e quase nunca acompanham a onda de crescimento do setor. Isso é uma característica do Brasil, não só para o setor das Artes. Mas também acredito que esteja mudando, melhorando.

A sua galeria já teve obras adquiridas ou doadas à coleções brasileiras ou internacionais? Quais?
Sim, muitas. Nem saberia dizer. Todos os artistas que representamos possuem obras em coleções importantes, sejam doadas ou adquiridas.

Feiras de arte se multiplicam pelo mundo. Por que é importante estar na maioria delas? Quantas feiras a galeria fará este ano? Qual é a mais importante para a galeria?
Participamos de uma média de 8 feiras por ano. As feiras são um canal não só para vendas, mas também para conexões, contatos e visibilidade. As feiras servem também como um termômetro para o setor. Ficamos atualizados com o que acontece no mundo nessa área participando das feiras. Não acho que exista uma feira que se destaque para a galeria. Cada uma tem sua vantagem.

Entrevista com Daniel Roesler- Galeria Nara Roesler – São Paulo

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Galerias brasileiras passaram a ser mais requisitadas por colecionadores e instituições estrangeiras diante do atual cenário de crescimento?
Já faz algum tempo que o interesse internacional pela arte brasileira aumentou. Hoje é normal recebermos visitas de colecionadores estrangeiros na galeria em São Paulo. Além disso, depois de anos participando de feiras internacionais, temos uma rede de relações com colecionadores e instituições de bom tamanho.

Apesar, da isenção fiscal concedida nas últimas feiras brasileiras (SP-Arte e ArtRio), o que falta ainda por parte do governo e do setor fiscal para impulsionar mais ainda a circulação e o mercado da arte brasileira no setor internacional?
Acredito que a isenção fiscal oferecida na feira _ a isenção de ICMS_ deveria ser transformada em definitiva para estimular a circulação cultural. A arte ainda é tratada um como bem de consumo de luxo. Porém, o incentivo deve desonerar igualmente as importações e a circulação doméstica. No mínimo o Mercosul deveria ter uma livre circulação de obras, sem barreiras à importação. A APEX (Agência Brasileira de Promoção de Importações e Investimentos) tem atuado no estímulo à exportação com ótimos resultados. Acho que esse projeto poderia ser incrementado e ganhar nova escala.

Tem sido comum durante as feiras de arte brasileiras o incentivo a aquisição e doação de obras para coleções de Museus e outras Instituições de arte por empresas. Mesmo assim, a prática desse tipo de ação é escassa no cenário nacional. Por que se investe pouco no colecionismo da arte contemporânea quando esse setor nunca esteve em tanta evidência? Que incentivos deveriam ser criados para modificar esse cenário?
Acredito que a escassez se deva mais ao processo usado nas leis de incentivo, que dificulta programas de aquisição dos museus _o museu precisa aprovar no Ministério da Cultura um projeto de aquisição de obras específicas, comprovar preços com três fornecedores e conseguir os patrocinadores_ o que resulta em uma enorme lentidão neste processo e muitas dificuldades práticas. Ainda há a questão de que o percentual de isenção da Lei Rouanet faz com que somente empresas muito grandes tenham volume suficiente para bancar os projetos. Seria importante pulverizar a possibilidade de apoio para formação de coleções entre empresas de tamanho menor. Empresas familiares, por exemplo, poderiam ter mais vínculos com coleções de arte , ao invés de focar a captação de recursos apenas por grandes corporações que estão em busca de oportunidades de marketing.

A sua galeria já teve obras adquiridas ou doadas à coleções brasileiras ou internacionais? Quais?
O MoMA adquiriu obras de Abraham Palatnik, Antônio Manuel, Cao Guimarães. A Tate Gallery tem na coleção Paulo Bruscky e Antônio Manuel. O Walker Art Center adquiriu obras de Hélio Oiticica & Neville D’Almeida. O SFMoMA possui trabalhos de Cao Guimarães. Na Espanha, a Colección Jumex, o Museu de Madri, o Centro de Arte de Burgos e a Fondation Cartier, que é francesa, adquiriram obras do artista José Patrício.

Feiras de arte se multiplicam pelo mundo. Quantas feiras a galeria fará este ano? Qual é a mais importante para a galeria?
As feiras são o ponto de encontro do mundo da arte. Lá, em quatro dias, se dão trocas muito importantes entre os colecionadores, curadores, galeristas e artistas. A construção das relações também é acelerada com os encontros nas feiras. Esse ano estaremos em sete, todas importantes pro nosso projeto de galeria.

Entrevista com Alessandra D’Aloia, Galeria Fortes Vilaça_ São Paulo

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Feiras de arte se multiplicam pelo mundo. Por que é importante estar na maioria delas?
As feiras de arte se tornaram importantes centros por atraírem um público especializado, e proporcionarem a atuação de uma rede de contatos altamente especializada. Hoje curadores, galeristas e artistas viajam o mundo para participar de feiras com o intuito de acompanhar, adquirir ou ainda conhecer o melhor da produção dos artistas. No entanto, não creio que seja importante estar na maioria delas, e sim traçar uma estratégia que se encaixe com o perfil da galeria e de seus artistas. Para uma galeria jovem é importante fazer muitas feiras, para nós é importante estar apenas onde já construímos uma base. Felizmente o Brasil já comporta duas feiras, a SP Arte e a ArtRio, com visibilidade internacional.

Quantas feiras fará este ano? Qual é a mais importante para a galeria?
Faremos 6 feiras no total. Fizemos a Frieze NY em Março, a SP Arte em Maio, Basel em Junho, e faremos a ArtRio em Setembro, Frieze em Outubro e Miami Basel em Dezembro. Cada uma delas tem seu diferencial, as vendas devem sempre entrar como um fator primordial pelo investimento que representam, mas também há questões de visibilidade, alcance curatorial e institucional, ou formação de mercado (novos colecionadores). Em resumo, cada uma delas é importante por um motivo diferente, se a feira não tem nenhum destes pontos fortes, não vale a pena fazê-la, é muito trabalho.

A feira é importante para compor parcerias com galerias estrangeiras?
É extremamente importante. Temos que entender que as feiras nos dão possibilidades muito além de só vender uma obra de arte. Ali é um grande ponto de encontro onde artistas galeristas, curadores e museus se encontram, trocam idéias, exposições, e vendas. Muitas parcerias acontecem numa feira, tanto de novos artistas para expor em nossa galeria assim como parcerias de nossos artistas em outras galerias. É o caso de Iran do Espírito Santo e Leda Catunda que abriram ontem uma mostra em Buenos Aires, na galeria Ruth Benzacar. Esta exposição foi planejada há 2 anos atrás em Miami Basel e um Museu Argentino já sonda os artistas para fazer uma exposição, razão a qual esta parceria é fundamental.

Que impacto a crise econômica teve no mercado de arte contemporânea?
Em 2008 quando o mercado internacional sofreu a crise econômica estávamos em Londres, e achamos que não venderíamos nada. De fato a crise veio, mas o mercado não parou. Acredito que haja hoje mais consciência na hora de comprar arte por parte do mercado internacional, e o Brasil passa por um momento áureo onde além de sermos procurados por colecionadores internacionais e grandes museus com interesse em nossa arte, despertamos o interesse por parte do brasileiro que ainda não comprava , possibilitando galerias e museus a transformá-los em futuros colecionadores.

Apesar, da isenção fiscal concedida nas últimas feiras brasileiras, O que falta ainda por parte do governo e do setor fiscal para impulsionar mais ainda a circulação e o mercado da arte brasileira no setor internacional?
Hoje o governo trata a arte da mesma forma que trata a indústria de calçados, por exemplo. O que falta é transformar e olhar para esta indústria como uma indústria cultural. Falta o governo tomar conhecimento de dados quantitativos de nossa área. Em Dezembro de 2007, um grupo de galerias fundou a ABACT- Associação Brasileira de Arte Contemporânea, com o intuito de mapear as necessidades deste mercado. Fizemos primeiramente um planejamento estratégico que nos ajudou a compreender nossos gargalos e priorizar nossas ações. Dois anos depois assinávamos o Convênio entre ABACT e APEX. Um dado importante para mencionar é que o governo não nos via até então como um setor e isso é grave. Em Abril do ano passado, com o intuito de ampliar nossas ações com o governo e trazer apoio ao setor, a ABACT se reuniu com o BNDES com a finalidade de criar parcerias e buscar apoio. Hoje taxamos em até 60% a importação de uma obra de arte brasileira(ou internacional), impedindo que a cultura volte para casa. Por causa do potencial de negócios apontados pelas feiras de arte no Brasil, o governo inicia uma diminuição das taxas de importação, que se estende ao período da feira, e que atrai galerias a investirem em nosso país, mas isso está longe de ser nossa solução.