Comportamento

Saber do outro mundo

A ciência se abre para o estudo de preceitos e fenômenos religiosos e até de assuntos considerados esotéricos, como a astrologia

Ricardo Giraldez / Hélcio Nagamine

Em São Paulo, o médico Rivas (acima) cria a Faculdade de Teologia Umbandista e Mãe Sylvia de Oxalá prepara escola de candomblé

Ciência e religião não combinam, certo? Nem sempre. Há indícios de que num futuro breve essas duas linhas do conhecimento possam se dar as mãos no estudo da compreensão do ser humano. O movimento de aproximação, mais comum em países com mais dinheiro para pesquisa, como os Estados Unidos, começa a dar sinais por aqui. Acadêmicos se debruçam sobre preceitos religiosos, fenômenos espirituais, seus efeitos no dia-a-dia e até temas renegados pela ciência, como a astrologia. Se por um lado, o templo entra na universidade por meio de pesquisas, por outro a instituição acadêmica chega a redutos antes destinados apenas a iniciados. Em São Paulo, foi inaugurada este ano a Faculdade de Teologia Umbandista e está em andamento a instalação do Primeiro Seminário Teológico de Candomblé do Brasil. No Paraná, duas faculdades funcionam dentro da filosofia espírita. Há cerca de um mês, também entrou no ar a Uniespírito, uma universidade virtual que terá uma filial na França, terra natal de Allan Kardec, o codificador do espiritismo. O braço francês do projeto brasileiro será lançado em outubro, durante o IV Congresso Espírita Mundial, que acontecerá em Paris.

Com menos de um mês, a Uniespírito, criada com o apoio das Casas André Luiz, já conta com 2.500 alunos inscritos. A primeira matéria tratada na faculdade versa sobre as alterações orgânicas e psíquicas ocorridas no médium durante o transe. “Vamos estudar o mundo espiritual e o material, usando o método científico. Os conhecimentos devem ser popularizados”, defende o psiquiatra Sérgio Felipe de Oliveira, presidente da Associação Médico-Espírita de São Paulo e coordenador do projeto. Para o estudioso, desvincular a religião da ciência é um engano, perpetuado pelo preconceito e pelo corporativismo. “Sempre houve os estudiosos dos fenômenos. Jung (Carl Gustav Jung, psiquiatra suíço, 1875-1961), por exemplo, estudou o transe mediúnico, que, aliás, é classificado no Código Internacional de Doenças com critérios claros para que se possa distingui-lo de patologias como psicose e histeria. As faculdades desprezam o que está lá, em suas próprias bibliotecas”, completa ele.

Outra mostra de que a ciência está se permitindo ir além do estudo das células é a formação do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Formado em 2002 por quatro psiquiatras, o grupo agora é multidisciplinar. “Pesquisas, a maioria feita nos Estados Unidos, mostram que esse sentimento ajuda a prevenir doenças. Também sabemos que jovens religiosos são menos propensos ao uso de drogas”, aponta o psiquiatra Alexander Moreira de Almeida, coordenador do grupo. Isso não se deve, segundo Almeida, a conceitos como pecado e castigo, mas ao sentimento de mais valia que as religiões passam a seus adeptos. Esses estudos têm alterado a visão da ciência, que, até os anos 80, entendia que adotar uma religião era indício de personalidade imatura. “Freud (Sigmund Freud, pai da psicanálise, 1856-1939), entre outros, a achava prejudicial devido à repressão que vinha com ela”, diz Almeida.

Max G Pinto

O psiquiatra Almeida estudou as curas de um médium de Goiás

Um dos focos de pesquisa do grupo foi o médium João Teixeira de Faria, de Goiás. Trinta pacientes foram examinados antes e depois das cirurgias espirituais realizadas por ele e o material retirado de seus corpos também foi examinado em laboratório. “Ele fazia incisões com faca de cozinha sem anestesia, suturava sem assepsia e o paciente não sentia nada nem tinha infecção. Isso constatamos. Quanto ao material levado a exame, era apenas pele e tecido gorduroso”, conta o psiquiatra. Como se processam as curas e se elas são duradouras, não se pôde saber, mas a possibilidade de fraude foi descartada pelo grupo.

Alan Rodrigues

O médico Oliveira coordena o
projeto da Universidade de
Ciências do Espírito

Mas, se essas iniciativas surpreendem, mais impacto causa a Universidade de Brasília, que decidiu pousar um olhar
sério sobre assuntos como astrologia, ufologia e conscienciologia. Professores do Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais se debruçam sobre a inteligência parapsíquica, entendida como a capacidade intelectual ligada a mediunidade, telepatia, clarividência e poder de cura. Eles querem entender a ação da bioenergia, força gerada por qualquer massa, seja um corpo humano, seja uma montanha de cristal. “Queremos saber por que a força do pensamento desorganiza a configuração dos átomos dos metais e se ela pode ser identificada e calculada como se faz com a energia elétrica, que não conhecemos por inteiro, mas todos acreditam que existe e a usam”, explica Álvaro Luiz Tronconi, físico agnóstico com doutorado na Universidade de Oxford, nos Estados Unidos. Ele terá como objeto de estudos o paranormal Luiz Carlos Amorim, que não só entorta talheres, mas participa até de operações policiais.

O pesquisador considera a crença em Deus uma bengala psicológica, mas acredita em cirurgia espiritual. Só que para ele não se trata de um fenômeno religioso. Ele teve essa certeza ao ser curado de uma hérnia-de-disco pela força mental de uma enfermeira. Raios X, feitos antes e depois do episódio, comprovam a cura. Ela se concentrou, colocou a mão sobre sua coluna vertebral e “navegou” mentalmente pelo interior do seu corpo – um fenômeno, segundo o professor, conhecido como projeção heteroscópica. “Se podemos melhorar nossa oratória, também podemos dominar a bioenergia e usá-la para nos teletransportar ou curar doenças”, diz. Apesar da resistência de muitos colegas, Tronconi pretende medir a energia emitida pelas mãos e seus efeitos no crescimento de camundongos.

Astros – Também sofre resistência o engenheiro civil Paulo Celso dos Reis. Coordenador do Núcleo de Estudos de Fenômenos Paranormais, ele fez uma pesquisa com 50 voluntários para saber se há lógica científica na interpretação da influência dos astros na vida humana. O estudo mostrou um acerto de 95% na análise dos astrólogos. “A astrologia segue as leis da física. Os ângulos formados entre os planetas e a Terra podem fazer com que aqueles que nascem em determinadas coordenadas tenham características parecidas”, diz ele. Para entender a influência dos astros, os pesquisadores contaram também com o engenheiro Hiroshi Masuda, que criou uma fórmula matemática para explicar as semelhanças psicológicas entre pessoas que nasceram na mesma cidade, em horário parecido e no mesmo ano. Responsável por algumas análises feitas na pesquisa, o astrólogo Francisco Seabra, autor do recém-lançado A química do amor, ficou feliz com o resultado do projeto. “A universidade faz uma revolução ao reconhecer que a astrologia é uma ciência”, comemora.

Até o século XVII, a astrologia tinha tanto prestígio que um médico devia ser
astrólogo para exercer a profissão. Não existia uma separação clara entre astrologia e astronomia. Na verdade, o saber e a religiosidade andaram juntos por muito tempo. O divórcio começou no século XVIII e se concretizou no XIX. “Isso aconteceu quando Freud e Darwin (Charles Darwin, naturalista, 1809-1882) assimilaram o materialismo e começaram a defender essa visão para a ciência”, diz a jornalista Dora Incontri, que faz pós-doutorado em ética, filosofia, religião e artes na USP. Segundo a pesquisadora, nem Giordano Bruno (pai da filosofia moderna, 1548-1600), nem Galileu Galilei (astrônomo, 1564-1642), nem Nicolau Copérnico (astrônomo, 1473-1543) eram materialistas. “Eles apenas não aceitavam os dogmas da Igreja. Viam a ciência como uma maneira de interpretar as leis divinas”, opina ela. Eduardo Basto de Albuquerque, professor de história das religiões da Unesp, lembra que a maioria dos cientistas guarda e mantém sua religiosidade, apesar de a academia ser renitente em fazer concessões. “Há uma minoria aguerrida que considera que a religião ainda impede a construção do conhecimento. É um resquício da experiência do Ocidente na Idade Média, época em que a Igreja controlava a sociedade”, explica ele.

André Dusek

Em Brasília, os pesquisadores Reis e Masuda, juntamente com o astrólogo Seabra (à dir.), estudam o aspecto científico da astrologia

Ritos – Muitos religiosos, cansados talvez de esperar o reconhecimento da academia, se adiantaram em levar seus credos para os bancos escolares. Este ano, foi criada a primeira turma da Faculdade de Teologia Umbandista, em São Paulo, com a devida autorização do Ministério da Educação. Entre os 50 alunos, médicos, advogados, engenheiros e apenas dois pais-de-santo. O curso dura quatro anos e o currículo atende aos dois mundos, o etéreo e o corpóreo. Além dos ritos, inclui português, inglês, filosofia, ciências políticas, psicologia umbandista e biologia espiritual. “A umbanda é tida como uma cultura de periferia e é até mesmo estigmatizada como idolatria pagã. A faculdade, primeira no Brasil, é um avanço”, afirma o cardiologista Francisco Rivas Neto, que dirige a instituição. O objetivo do curso não é formar pais-de-santo, mas pessoas capazes de divulgar de forma correta a religião.

No terreiro de Mãe Sylvia de Oxalá, de São Paulo, a intenção é tirar do papel o Primeiro Seminário Teológico de Candomblé do Brasil. O projeto prevê a formação de religiosos num curso de sete anos. Nas aulas, além dos fundamentos do culto, haverá filosofia, sociologia, ética, economia, administração, história e teologia da fé nos orixás. O tempo extenso do curso não garantirá ao estudante a condição de pai-de-santo ou mãe-de-santo. Os mistérios do candomblé só são passados aos eleitos. “Para assumir essa responsabilidade é preciso indicação dos orixás”, explica Mãe Sylvia.

Veterana, as Faculdades Integradas “Espírita”, de Curitiba (PR), há 33 anos oferecem 12 cursos de ciências humanas, sob orientação da doutrina espírita. No Laboratório de Pesquisa em Ciência do Espírito, eles estudam o corpo espiritual, a vida após a morte, a interferência magnética do passe mediúnico, entre outros assuntos pouco palpáveis. “Nem todos os estudantes são praticantes do espiritismo. Eles se interessam em conhecer o que envolve a doutrina”, afirma o sociólogo Otávio Wlisséa, diretor da faculdade. Na mesma cidade, a Faculdade Dr. Leocádio Correia oferece há um ano o primeiro curso de graduação de teologia espírita do Brasil, com disciplinas que vão de português a física quântica, passando pela obra de Allan Kardec. “O estudo acadêmico dos princípios cardecistas evita o ranço religioso”, afirma Maury Rodrigues da Cruz, idealizador do curso e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Espíritas. Os alunos não vão em busca de um diploma para o mercado de trabalho. O interesse da maioria é entender e difundir a doutrina.

Questões – Em geral, todo esse movimento de vai-e-vem entre a universidade e os templos é bem-vista pelos praticantes religiosos. Mas algumas questões são levantadas. O médium Robério de Ogum, do Templo Âmara de São Paulo, acha que a ciência e a espiritualidade inauguram uma nova era de desenvolvimento. Alerta, porém, que é preciso ficar atento ao tipo de ensinamento que está sendo passado. “Na umbanda e no candomblé, há várias linhas de entendimento entre os adeptos. Como dizia Chico Xavier, a espiritualidade é um poço profundo, ao fundo do qual estamos longe de chegar”, analisa ele. Já o presidente da Federação Espírita do Estado de São Paulo, Avildo Fioravante, vê como um sinal de maturidade o fato de os cientistas se abrirem à pesquisa do imponderável, mas não apóia a formação de teólogos de sua crença. “O diploma pode abrir espaço para uma hierarquia e um profissionalismo que não estão nas bases da doutrina”, diz ele. Hoje, os cursos sobre a religião são dados gratuitamente pelas casas espíritas. Só na Federação há cerca de sete mil alunos. “São médicos, juízes e outros sem nenhuma formação. Uma convivência importante, porque a sabedoria pertence ao espírito. Não depende só do status que se tem nesta vida”, defende ele.