Comportamento

O brasileiro que venceu o mito

Ao desbancar Oscar Pistorius, o velocista Alan Fonteles cala o Estádio Olímpico e mostra ter condições de disputar os Jogos regulares

O brasileiro que venceu o mito

NA ESPORTIVA

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NA ESPORTIVA
Pistorius (à dir.) alegou que Fonteles (à esq.) estava usando próteses
irregulares. Mas depois voltou atrás e reconheceu a justa vitória

Até sete anos atrás, o paraense Alan Fonteles, 20 anos, corria com as próteses de madeira que usava para caminhar. Vítima de uma infecção generalizada aos 21 dias de vida, o jovem nascido em Marabá teve as duas pernas amputadas ainda bebê. Aos nove meses colocou sua primeira prótese, a única comprada pela família humilde – todas as outras foram adquiridas por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). O garoto que fez fisioterapia para aprender a andar até os 3 anos entrou para o mundo das corridas aos 8, por meio de um projeto de iniciação esportiva ligado ao governo do Pará. Por cinco anos, sangrou ao correr com suas próteses de madeira pelas pistas de atletismo e só foi incorporado à equipe permanente paralímpica no fim do ano passado. Em sua primeira paralimpíada, desbancou um mito, o velocista sul-africano Oscar Pistorius, e calou as 80 mil pessoas presentes ao Estádio Olímpico de Londres no domingo 2 de setembro. Primeiro atleta sem as duas pernas a competir em uma Olimpíada e tido como homem mais rápido do mundo em sua categoria, a T44, Pistorius perdeu para o brasileiro na sua prova de estreia, os 200 metros rasos.

Imediatamente após a prova, Pistorius sugeriu que a prótese de Fonteles lhe daria alguns centímetros a mais de altura e, portanto, uma vantagem “injusta” durante a prova. O brasileiro, que tem Pistorius como ídolo, não se acanhou e respondeu que pelas regras do Comitê Internacional Paralímpico ele ainda estaria três centímetros abaixo da altura máxima autorizada, de 1,85 metro. “Essa polêmica é do Pistorius, não é minha”, afirmou. Mais tarde, o ídolo sul-africano admitiu a justa vitória do atleta brasileiro, mais um paralímpico com potencial para competir nos jogos regulares. “Agora não penso nisso”, disse. “Quero continuar fazendo história em Londres, competir como atleta paralímpico no Rio, em 2016, e só depois decidir alguma mudança.”

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Se a tecnologia das próteses continuar evoluindo nessa velocidade, Alan não só pode competir, como fez Pistorius nos Jogos de Londres, mas obter resultados expressivos. Seu tempo na vitória dos 200 metros rasos na categoria T44, 21,45s, foi 1,33s menor que de Bruno Barros, brasileiro que conseguiu melhor tempo nessa prova na Olimpíada. São diferenças que, com anos de treinamento e equipamento constantemente evoluindo, podem ser reduzidas. Até lá, vale acompanhar todas as provas do fenômeno paraense.

Fotos: Michael Steele/Getty Images; Eddie Keogh/REUTERS