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Corrida pelo voto latino

Candidatos se digladiam pelo apoio do grupo que mais cresce nos EUA. A preferência dos imigrantes pode desequilibrar a eleição

Corrida pelo voto latino

OBAMA NA OFENSIVA

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OBAMA NA OFENSIVA
Presidente americano dá mais espaço a descendentes
de hispânicos na convenção dos democratas

"A história de minha família não tem nada de especial. Especial é a América que faz nossa história possível." A afirmação carregada de patriotismo é do neto de mexicanos Julián Castro, prefeito da cidade de San Antonio, no Texas. Castro, uma das jovens promessas do Partido Democrata, abriu a convenção partidária na terça-feira 4 em Charlotte, na Carolina do Norte, fazendo o discurso que foi considerado o mais importante da noite. Seu alvo eram os descendentes de hispânicos que se constituem no grupo de americanos que mais cresce no país, numa taxa quatro vezes superior ao do restante da população. Hoje, os americanos de origem latina já são mais de 50 milhões e quase metade deles estão aptos a votar. A conquista desse eleitorado é, portanto, fundamental para decidir uma disputa presidencial apertada. Segundo as últimas pesquisas o presidente Barack Obama tem 47% das intenções de voto, enquanto o republicano Mitt Romney chega a 46%.

“Os latinos podem fazer a diferença em Estados-chave como Flórida e Colorado”, disse à ISTOÉ Rodolfo de la Garza, professor de ciência política da Universidade de Colúmbia. Por isso, os republicanos também trataram de adular hispânicos ascendentes na convenção do partido em Tampa, na Flórida, no fim de agosto. O senador Marco Rubio discursou sobre suas origens (“meu avô nasceu numa família de agricultores na Cuba rural”) e contou a história de sua família (“meus pais emigraram para a América com pouco mais do que a esperança de uma vida melhor”). Duas horas antes, Craig Romney, filho do candidato republicano, havia discursado em espanhol fluente. “É uma tática válida para transmitir a mensagem de inclusão, mas não é suficiente para convencer os latinos de que Romney é sensível a seus problemas”, diz Antonio González, presidente do Instituto William C. Velásquez.

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NOVAS ESTRELAS
Marco Rubio (acima) foi o destaque hispânico da convenção do Partido
Republicano. Julián Castro foi o escolhido dos democratas

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O caminho dos republicanos para conquistar os imigrantes é mais complicado do que o de Obama. Afinal, no início da campanha, quando lutava para ganhar a confiança da ala mais à direita do partido, Romney usou de uma severa retórica anti-imigratória e contrária à anistia dos ilegais. Ele chegou a dizer que a resposta para as questões dos latinos seria a “auto-deportação”. Mas as palavras se suavizaram à medida que Romney foi se firmando como o candidato da oposição. Nas eleições de 2008, Obama recebeu dois terços dos votos e teve expressiva vantagem entre esses eleitores em Estados. Mas ele também tem seus tropeços: durante os quatro anos de seu governo, mais de um milhão de pessoas foram deportadas, o que é um número recorde. “É difícil separar o presidente de um Congresso controlado pelos republicanos”, pondera De la Garza. “Os latinos vão continuar o apoiando, porque Obama aprovou a reforma da saúde, por exemplo, que é ótima para a comunidade.”

Ao menos um grupo de imigrantes decidiu expor sua decepção com o governo e a ausência de uma reforma na imigração. Quarenta jovens ilegais percorreram mais de três mil quilômetros e 11 Estados no verão americano para pressionar os candidatos e chamar atenção para o tema, desafiando os agentes da imigração. O trajeto, completado num ônibus de 1972, que quebrou duas vezes durante a viagem, terminou em Charlotte, sede da Convenção Democrata, na semana passada. Em seu site oficial, o movimento No Papers, No Fear (“sem documentos, sem medo”, numa tradução livre) diz que a viagem é “um palco de mobilização”. Mas, apesar de relevante, a imigração não é preocupação única dos latinos. Diretor do centro de pesquisas Pew Hispanic, Mark López afirma que a economia é, para os hispânicos assim como para a maioria da população, o fator mais importante na hora de escolher o presidente. “A desaceleração econômica dos últimos anos afetou fortemente os hispânicos e eles não têm sido beneficiados pela recuperação como os outros grupos”, disse à ISTOÉ. A taxa de desemprego oficial entre os latinos, de 10,3%, ainda está muito acima da média nacional, de 8,3%. Para eles, Obama ainda não fez o suficiente.

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Fotos: Mandel NGAN/AFP PHOTO; Mike Segar, Jason Reed – REUTERS