Economia & Negócios

O Mickey virou Tio Patinhas

Impulsionada pelo crescimento do número de visitantes e pelo sucesso de seu braço cinematográfico, a Disney obtém o maior lucro da história e já planeja novos investimentos mundo afora

O Mickey virou Tio Patinhas

Os filmes da Pixar e da Marvel, compradas pelo presidente Robert Iger (à esq.), elevaram em 28% os lucros do braço cinematográfico ()

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CIDADE-LUZ
O próximo passo da Disney deve ser a incorporação
do deficitário parque de Paris, na França

Enquanto a economia americana sofre para voltar aos trilhos, a Walt Disney Company, dona dos parques temáticos mais conhecidos do mundo, estúdios de animação, resorts e redes de mídia, parece ter transformado Mickey, seu ícone máximo, em Tio Patinhas, o bilionário dos desenhos e das histórias em quadrinhos. Nunca a Disney viu tanto dinheiro. No terceiro trimestre fiscal (encerrado em 30 de junho), o grupo alcançou o maior lucro de sua história: US$ 7,62 bilhões, o que representa um acréscimo de 14% sobre o mesmo período do ano passado. “Foi um resultado fenomenal”, resumiu Robert Iger, presidente da empresa. “A Disney soube se manter como um divertimento razoavelmente barato e conveniente para as famílias”, disse à ISTOÉ Sam Hamadeh, chefe da consultoria PrivCo. “Há poucas opções de férias pelo mesmo valor.” O faturamento de US$ 9,4 bilhões no acumulado de 2012 só no segmento de parques e resorts foi impulsionado pelo crescimento dos visitantes e o aumento de seus gastos nos complexos domésticos, como os da Flórida e da Califórnia, e das linhas de cruzeiro, que atravessam opostos como o Caribe e o Alasca. Outro pilar do desempenho econômico foi o braço cinematográfico do grupo, que viu seu lucro crescer 28% na comparação com 2011, graças principalmente às bilheterias do filme “Os Vingadores”, e da animação “Valente”.

Os estúdios da Marvel e da Pixar, responsáveis pelos blockbusters, expõem a forte influência do presidente Robert Iger no sucesso recente da empresa. Sucessor de Michael Eisner, que comandou a Disney com mãos de ferro por 20 anos, Iger assumiu a presidência em outubro de 2005. Poucos meses depois, costurou com Steve Jobs, desafeto de Eisner, o acordo de compra da Pixar por US$ 7,4 bilhões. À biografia do fundador da Apple publicada por Walter Isaacson em 2011, Iger disse que se deu conta da importância do estúdio de animação quando, durante uma das tradicionais paradas da Disney, percebeu que os únicos personagens no desfile que haviam sido criados na última década eram da Pixar. A aquisição da Marvel por US$ 4,3 bilhões aconteceu três anos depois. Durante o período, a empresa faturou com o lançamento de novos produtos e investiu em expansão e novas atrações para seus parques de diversão. O executivo, que deve se aposentar em 2015, foi bem recompensado. Só no ano passado, ele recebeu US$ 33,4 milhões da Disney.

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Os filmes da Pixar e da Marvel, compradas pelo presidente Robert Iger (acima),
elevaram em 28% os lucros do braço cinematográfico

A saúde financeira da Walt Disney Company deve encorajar o grupo a fazer novos investimentos mundo afora. Segundo a revista americana “Time”, a organização planeja aumentar sua participação acionária na Euro Disney, que hoje é de 39,8%. Apesar de ter recebido um número recorde de turistas em 2011 – 15,6 milhões – e de ser, para a surpresa dos mais puristas, uma das atrações mais visitadas do continente, a Disneylândia de Paris nunca foi um bom negócio. Desde sua inauguração, em 1992, apenas oito anos terminaram com as contas no azul. Nos últimos cinco anos, os prejuízos chegaram a € 212 milhões, mesmo depois que a Disney americana abriu mão da cobrança milionária de royalties e taxas de administração. A aquisição de um negócio tão problemático, que já passou por duas reestruturações financeiras, seria atrativa como forma de recuperar esse investimento e expandir os negócios do grupo, avaliam os analistas Harold de Decker e Mohamed Abdennadher, do banco francês Oddo. Em contrapartida, os economistas argumentam que a transação não é só financeira e poderia se tornar um problema político em razão da parceria público-privada que a Euro Disney tem com o governo francês. Apesar desse entrave, Mickey está animado para fazer novos negócios.

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Fotos: Chad Ehlers; Jamie Rector/The New York Times