Artes Visuais

Brasil com Z

Com a participação de importantes galerias estrangeiras como a Gagosian e a David Zwirner, a feira ArtRio dobra sua área e prova que os olhos do mundo estão voltados para a arte brasileira

Brasil com Z

GRANDES APOSTAS

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GRANDES APOSTAS
Serena Cattaneo Adorno, diretora da Gagosian de Paris, e uma tela à venda
de Takashi Murakami: pacote de 80 obras no valor de US$ 130 milhões

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Em sua segunda edição, a feira ArtRio, que acontece a partir da quinta-feira 13 no Rio de Janeiro, dobrou a área expositiva e aposta em vendas superiores a R$ 150 milhões, um crescimento de 25% no faturamento.

O que salta aos olhos, no entanto, é como essa performance sinaliza para a crescente participação da América Latina no mercado internacional – com o Brasil à frente. Entre as 120 galerias participantes (contra 83 no ano passado), a Sonnabend Gallery, de Nova York, marca presença abrindo mão de participar de qualquer outro evento do gênero no mundo. “O aumento do número de colecionadores interessados em arte brasileira é algo que nos atrai”, disse à Istoé o seu diretor, Jason Ysenburg. Comprometida com 15 feiras internacionais, a tradicional David Zwirner Gallery vem à América do Sul pela primeira vez. “Trata-se de uma plataforma essencial para atingirmos compradores privados e também museus”, afirma o seu diretor de venda, Greg Lulay.

Números recentemente revelados respaldam essas expectativas: pesquisa da Associação Brasileira de Arte Contemporânea (Abact), em conjunto com o programa setorial integrado (Apex), aponta que, nos últimos dois anos, o volume de negócios de galeristas brasileiros cresceu, em média, 44%, bem acima de outros setores da economia. Ainda segundo a Apex, o Brasil é o país que mais exporta arte em sua região. É um aumento de 225% no período entre 2010 e 2011. Esses índices são extremamente atraentes para as galerias da Europa e dos EUA, que apostam nas feiras brasileiras, fugindo de seus mercados em crise e mudando o foco de investimentos após o flerte com Rússia e China.

A Gagosian, por exemplo, reuniu 80 obras de 30 estrelas como Damien Hirst, Takashi Murakami e Pablo Picasso, avaliadas entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões. Segundo estimativas da Bloomberg, o pacote totaliza US$ 130 milhões. A coincidência do evento com a Bienal de São Paulo e a abertura de novos pavilhões em Inhotim (MG) contribuiu para o clima positivo. “Esperamos que esse ambiente traga mais colecionadores e curadores internacionais ao Brasil”, diz Serena Cattaneo Adorno, diretora da filial de Paris da Gagosian. Outro fator de atração é a isenção de 100% de ICMS para obras comercializadas dentro da feira, benefício também concedido à SP-Arte. Na avaliação de galeristas brasileiros, contudo, estamos distantes das facilidades oferecidas pelo mercado europeu, com taxas inferiores à metade dos valores cobrados aqui. “As políticas públicas favorecem os automóveis brasileiros, mas fazem o contrário em relação à arte”, afirma a galerista Luisa Strina, de São Paulo. Segundo Alessandra D’Aloia, diretora da Galeria Fortes Vilaça, o imposto sobre a importação de obras de arte é de 60%. “Devido ao potencial de negócios, o governo diminui as taxas durante a feira e atrai galerias a investir no País. Mas isso está longe de ser a solução”, afirma ela.

Quando esteve à frente da Abact, Alessandra encomendou uma pesquisa que já apontava esse momento favorável. Da casa de leilões Christie’s à European Fine Art Foundation, produtora de um dos mais importantes relatórios sobre o mercado de arte, o Tefaf, todos se mostravam de olho no Brasil. “Clare McAndrew, organizadora do Tefaf, acaba de me contatar. Quer ter um capítulo sobre o País no relatório de 2013”, diz Ana Leticia Fialho, autora da pesquisa. Sociedade entre empresários dos setores de arte, entretenimento e comunicações, que estão investindo R$ 9,5 milhões, a ArtRio é empreendimento em expansão. “Nosso objetivo não é crescer em números, mas em qualidade e eventos paralelos”, afirma Brenda Valansi, uma das sócias da ArtRio.

Fotos: Kelsen Fernandes/Ag. Istoé

ArtRio Fair

Entrevista com Serena Cattaneo Adorno, diretora da Gagosian em Paris

A galeria de arte contemporânea Gagosian se tornou um fenômeno ao criar um novo modelo mundial de negócios para o mercado de arte. Criada pelo marchand norte-americano Larry Gagosian no início dos anos 1980, em Los Angeles, hoje a galeria possui filiais em oito cidades da Europa e da Ásia, representando grandes nomes da arte contemporânea e da arte modernacomo o britânico Damien Hirst, Alberto Giacometti e a japonesa Yayoi Kusama. A presença inéditaq da galeria na ArtRio Fair representa um passo importante no mercado Brasileiro de arte contemporânea e o crescimento do Brasil como um local importante para novos e emergentes colecionadores. A italiana Serena Cattaneo Adorno, diretora da filial parisiense da Gagosian conversou com a revista IstoÉ por e-mail a respeito da participação inédita em uma feira brasileira e o sobre o interesse da galeria no mercado de arte latinoamericana:

De quantas feiras de arte a Gagosian participará no ano de 2012 e quais são essas feiras?

Participaremos de oito feiras internacionais. Dentre elas a Art Basel que acontece na Suíça, na versão dessa mesma feira nos EUA, a Basel Miami, da FIAC -Foire Internationale d’Art Contemporain, que é a mais importante feira de arte da França. Da Frieze London, Frieze Nova York, da Paris Photo, da Hong Kong Art Fair, que é a cidade onde abrimos nossa mais recente filial no início do ano passado e claro, da ArtRio.

O que levou vocês a participarem da ArtRio Fair?

A ArtRio teve um timing ótimo para a gente e se encaixou perfeitamente em nosso calendário. Ela coincidiu com a Bienal de São Paulo e a inauguração de novos pavilhões no Centro de Arte Contemporânea do Inhotim, localizado próximo à Belo Horizonte. Achamos que essa confluência de acontecimentos poderá atrair mais colecionadores e curadores, então nos pareceu o momento ideal de virmos participar de uma feira brasileira.

Vocês trarão trabalhos de todos os artistas que são representados pela galeria? Quais desses artistas vocês acham que terão força no mercado de arte brasileira?

Dentre os artistas que nós traremos estão John Chamberlain, Alexander Calder, Yayoi Kusama, David Smith, Robert Rauschenberg, Marc Newson, Giuseppe Penone e Franz West. Isso nos dará uma oportunidade incrível de apresentar aos colecionadores brasileiros um espectro mais amplo do nosso elenco de artistas. Acho que um dos pontos mais fortes da galeria é a qualidade da arte e dos artistas que nós representamos. Nós temos muitas obras que vêm direto do ateliê do artista, o que para muitos colecionadores é mais atraente e excitante. Eles também poderão adquirir obras importantes pelo preço que a galeria estabelece, ao invés de comprarem por meio de leilões e outros intermediários.

Como será o espaço de vocês na feira já que vocês vão trazer um grande obras de grande porte, como por exemplo, as do escultor Richard Serra?

A organização da feira foi muito generosa e nos ofereceu um espaço de 1 km² para expormos as esculturas e outras obras de grande porte. As esculturas serão colocadas em um dos galpões não restaurados adjacentes ao espaço da feira, onde o ambiente e a luz natural são muito inspiradores. Para essa exposição, nós estamos trabalhando em colaboração com a designer e arquiteta Claudia Moreira Salles, que irá criar um visual simples que nós permitirá exibir uma variedade de trabalhos dos artistas e espólios que representamos.

Vocês possuem colecionadores brasileiros entre os seus clientes? A galeria pretende representar artistas do Brasil?

Sim, nós temos muitos clientes brasileiros. No momento, nós não planejamos nenhuma exposição ou representação de artistas da América Latina. No entanto, poderemos conhecer artistas ou espólios que no futuro podem resultar em uma exposição nas nossas galerias. Mas, nada é concreto ainda.

Vocês já estiveram na Bienal de São Paulo anteriormente? Qual é o conhecimento e relacionamento da Gagosian com a arte contemporânea brasileira?

Eu visitei a Bienal de São Paulo em diferentes ocasiões. Meu pai nasceu no Rio; era carioca. Portanto, eu viajo ao Brasil desde a minha infância. Eu sou muito amiga do Tunga e venho colecionando arte brasileira há alguns anos. Eu também um grande interesse pelo design brasileiro.

Como foi exibição da exposição “Brazil: Reinvention of the Modern” _ que apresento seis dos mais importantes artistas Neo-Concretos dos anos 1960 e 1970_ quando ela aconteceu na França? Como foram as vendas?

A exposição foi extremamente bem recebida e aclamada tanto pela imprensa internacional quanto pela imprensa francesa. Muitos curadores europeus visitaram a exposição já que este é um período da arte brasileira mais desconhecido por aqui. Eu sempre pensei que seria importante ter uma exposição sobre o Neoconcretismo na França, já que inúmeros artistas do movimento viveram em Paris. O interesse foi grande, dois colecionadores adquiriram trabalhos e doaram à instituições públicas, o que de claro, foi um resultado muito satisfatório. Eu sinto que as taxas de importação e transporte criaram uma grande barreira para o diálogo entre a arte brasileira e a cena internacional.

Como a Gagosian sintiu o impacto da crise econômica no mercado de arte internacional. Quais foram os mercados e feiras menos afetados?

Eu acho que quando o trabalho tem qualidade, ele não é afetado pela crise econômica e isso é, talvez, uma demonstração de força quando se está em momento de mudanças no cenário econômico. Nós predominantemente trabalhamos com artistas estabelecidos o que torna o nosso mercado muito sólido. Eu acredito que a Art Basel ainda é a feira mais forte, mas muitas feiras e eventos similares surgiram nos últimos anos, sendo agregadas ao calendário de colecionadores que não dá nem tempo de acompanhar o verdadeiro impacto da crise no mercado de arte.