Edição nº2492 15.09 Ver edições anteriores

Clarice e o senso comum

Redescoberta (e desvirtuada) pelas redes sociais, Clarice passou de hermética a simplória

Uma vez me vi numa discussão com um amigo inteligente, bem informado e amante do cinema (sim, pessoas assim existem). Ele comparava os geniais Jacques Tati e Charles Chaplin, tomando descarado partido do francês. Eu argumentava que Chaplin era maior porque mais abrangente etc., etc. Discussão inútil, como se vê. Tanto Tati como o pai de Carlitos foram dois gênios da raça indiscutíveis e incomparáveis, acima do bem, do mal e dos críticos de balcão de bar.

Lembro-me do episódio e reflito sobre o senso comum. Na indústria da música há a expressão “crossover” para designar o feito de uma canção arrebatar o mundo – ouvintes de todas as classes sociais, origens, idades e tribos. E na literatura, há os célebres “best-sellers”, livros que vendem como água e se espalham como gringos por Copacabana no verão carioca.

Antes de tudo, faço uma distinção: nem todo best-seller é um livro de má qualidade, assim como nem todo artista difícil é um gênio. Van Gogh foi maldito e genial. Vendeu um único quadro em toda a vida. Morreu como um louco fracassado. Arthur Bispo do Rosário era louco e internode um hospício. Foi diagnosticado como esquizofrênico e foi um artista brilhante, criando uma arte ultraoriginal a partir de trapos e sucatas que via pela frente.

Desnecessário dizer que nem todo esquizofrênico será um grande artista, assim como um grande artista, para sê-lo, não precisará ter uma patologia mental.

Sei que parecem primários todos esses argumentos, mas nunca é demais tocar nessas teclas. A aceitação de uma obra de arte a faz parecer menor aos olhos dos cultos e eruditos (ou arrogantes apenas). Assim como seu fracasso a faz parecer maiúscula aos olhos das
Farc culturais (geralmente arrogantes também). Isso faz com que alguns artistas, legitimados pelo gosto médio, sejam julgados como menores do que realmente são.

Para não me estender demais, vou passear apenas pela seara dos poetas brasileiros, território que me interessa como poucos. O senso comum (mas não só) sempre alardeou que o maior poeta brasileiro de todos os tempos é Carlos Drummond de Andrade. Mesmo recitado como um parnasiano em festas de fim de ano, banalizado por e-mails com power points e camisetas de feira hippie, também concordo que Drummond é o maior e mais abrangente e mais permanente e mais intenso de todos os poetas desta terra, embora a poesia (e a arte em geral) não seja um esporte, e por isso não necessitaria de um ranking de “melhores”. Mas listas são uma das obsessões humanas e delas nem os poetas escapam. Sim, concordo, Drummond é “o maior”. Nem a secura agreste de João Cabral, nem o lirismo desbragado de Bandeira, nem o imaginário místico de Jorge de Lima, nem a poesia multifacetada de Murilo Mendes, nem a dicção violenta e densa de Gullar conseguem suplantá-lo. Mas nem Drummond em toda sua glória é unânime.

Alguns artistas são relegados a um plano menor só por serem acessíveis. Como se o fato de ser ininteligível fosse sinal de qualidade e grandeza. Cecília Meirelles, por exemplo, é uma poeta enorme, mas por ter ganho uma aura, digamos, “escolar”, por ser aceita, lida e “entendida”, sempre foi posta num patamar inferior pelos “entendidos”. Já Clarice Lispector, outra escritora imensa, tem aura misteriosa, profunda e filosófica, quase maldita, inalcançável. Mas não quero correr o risco de ser raso. Obviamente a escrita de Clarice é mais enigmática e cheia de signos e subtextos que a de Cecília, muito mais simples e despojada, ainda que rica. Mas os lugares que ambas ocupam num suposto ranking literário é emblemático disso que explanei acima. Quanto mais difícil, mais maldito. Quanto mais maldito, mais dotado de verniz estético. Quanto mais inteligível, menor. 

Agora, redescoberta (e desvirtuada) pelas redes sociais, campeã de textos fake no “Face”, Clarice passou de hermética a simplória, rainha da autoajuda, emissária do sentimentalismo mais rasteiro, sacerdotisa do óbvio. É, este mundo é mesmo cheio de ironias. 


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