Londres 2012

Prontos para a largada

Investimento bilionário, aparatos tecnológicos e estrutura inédita fazem com que o Brasil leve a Londres a melhor seleção olímpica de sua história

Prontos para a largada

AUTÓGRAFOS

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AUTÓGRAFOS
Na pista do Crystal Palace, Ana Cláudia é uma
das atletas mais requisitadas pelos torcedores

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MEDALHISTA
Cesar Cielo, um dos primeiros atletas a chegar
a Londres, em pose exclusiva para ISTOÉ

 

 

 

 

A história do esporte brasileiro é sustentada por duas verdades absolutas. A primeira: torcedores e dirigentes só dão bola para o futebol. A outra: o Brasil não forja campeões em outras modalidades porque os atletas não dispõem de estrutura capaz de despertar seus talentos. Basta dar uma volta pelo Crystal Palace, centro esportivo de alto rendimento localizado na zona sul de Londres, para que essas duas máximas deixem de fazer sentido. Cercado por plátanos imensos e campos habitados por numerosas famílias de esquilos, o espaço foi alugado pelo Comitê Olímpico Brasileiro para dar suporte à delegação nacional. O Palace tem piscina certificada pela Federação Internacional de Natação, pista de atletismo com piso parecido ao que servirá de palco para as competições olímpicas, dez ginásios cobertos, clínica de fisioterapia e centro médico especializado em esportes. Embora muito longe de ser potência esportiva, o Brasil se exibe em Londres como se fosse uma. Só Estados Unidos, Rússia, Alemanha e Austrália, países colecionadores de medalhas, possuem estrutura parecida. “Parece bobagem, mas acredite: faz uma diferença absurda contar com um lugar como esse”, diz Marcus Vinícius Freire, superintendente executivo do Comitê Olímpico Brasileiro (COB). O Crystal Palace é apenas um exemplo do esforço do País para deixar de ser figurante em Jogos Olímpicos. “Jamais chegamos para a uma competição internacional com uma equipe tão preparada”, afirma Freire.

É impossível cravar se as vitórias virão, mas elas certamente serão resultado de uma torrente de dinheiro despejada no esporte brasileiro desde 2009, quando o Rio de Janeiro foi escolhido como sede dos Jogos de 2016. Mais de R$ 1 bilhão foram investidos principalmente na construção de centros de treinamento, contratação de treinadores e suporte a atletas de alto rendimento. O valor corresponde ao triplo do que foi destinado para a formação do time que viajou a Pequim, em 2008, e é apenas 30% menor do que os Estados Unidos gastaram para chegar a Londres, com a diferença de que os americanos devem brigar com a China pela liderança no quadro de medalhas. A influência do dinheiro na performance brasileira poderá ser medida no final desta semana, quando terminam as competições de natação e judô. Estas duas modalidades devem ser responsáveis por boa parte das 15 medalhas que o COB prevê para o Brasil em Londres – mesma quantidade obtida em Pequim. Se os investimentos triplicaram, o que explica a estimativa de desempenho idêntico ao de quatro anos atrás? O COB fez uma projeção tímida por um simples motivo: diminuir a expectativa dos torcedores e especialmente da mídia, e assim evitar cobranças caso os resultados não sejam positivos.

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ESTREIA
Na primeira partida da seleção de futebol Neymar ignorou
as provocações e marcou o seu contra o Egito

Não é exagero afirmar que o Brasil pode, sim, quebrar a marca de Pequim. Maior estrela olímpica do País, o nadador César Cielo começa a disputar sua principal prova, os 50 metros livres, na quinta-feira 2. Atual campeão olímpico da distância, Cielo foi um dos primeiros atletas a chegar a Londres (o americano Michael Phelps, maior nome da natação mundial, desembarcou na capital inglesa três dias depois do brasileiro). Na fase de preparação, o brasileiro trancou-se no Crystal Palace e evitou atividades prosaicas, como subir escadas e carregar malas. “Preciso economizar energia para as provas”, justificou. O time nacional da natação conta com 19 atletas e pelo menos metade deles tem chance de chegar às finais. “Esta é a melhor seleção brasileira de todos os tempos”, diz Ricardo de Moura, chefe da equipe brasileira de natação.

O que explica o fato de o Brasil ter três nomes entre os dez primeiros do ranking mundial em suas respectivas provas (Cielo, Felipe França e Thiago Pereira)? Além dos recursos que bancam treinamento nos melhores centros internacionais, os nadadores contam com inovações só adotadas por grandes potências. O trabalho de Paulo César Marinho, doutor em biomecânica pela Unicamp, é exemplo de como a tecnologia é aliada do esporte de alto nível. Marinho analisa os movimentos dos atletas dentro e fora das piscinas. Primeiro, o especialista estuda o impulso do atleta no mergulho, depois as braçadas e por fim a batida de mão na placa eletrônica. Os movimentos são comparados, em computador, com os de atletas detentores das melhores marcas mundiais e os resultados são apresentados aos treinadores para que possam aperfeiçoar seus comandados. Esse trabalho está sendo realizado em Londres e terá continuidade no desenrolar das provas.

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RETIRO
Brasil isolou seus 14 judocas a 250 km de Londres

O judô passa pela mesma evolução. Único esporte brasileiro a subir ao pódio nas últimas sete Olimpíadas, terá em Londres sua equipe mais forte em todos os tempos. O Brasil é o terceiro país em número de atletas entre os dez primeiros do ranking mundial, atrás do Japão, berço do esporte, e da França. Para evitar o assédio durante o período de preparação, os 14 judocas brasileiros isolaram-se em Sheffield, a 250 km de Londres, e só foram para a Vila Olímpica às vésperas das competições. Diversas ações da Confederação Brasileira de Judô vêm alavancando o esporte. Apenas o Brasil sedia duas competições que somam pontos na lista da Federação Internacional (O Grand Slam do Rio e a Copa do Mundo de São Paulo) e a formação de seleções de base permanentes garante a sucessão de campeões. “O atleta percebe que é respeitado dependendo do jeito que os adversários olham para você”, diz o peso meio-médio Leandro Guilheiro, bronze em Atenas-2004 e Pequim-2008. “Vestir uniforme do Brasil impressiona todo mundo.”

Em Londres, é curioso observar o efeito que a delegação brasileira provoca em estrangeiros. E não se trata apenas dos atletas do futebol, que estrearam, na quinta-feira 26, com a vitória por 3×2 contra o Egito. Na quarta-feira 25, a seleção feminina de vôlei treinou na arena Earls Court, palco da competição olímpica, sob os olhares de dezenas de jornalistas europeus e americanos. Ao mesmo tempo, em uma quadra ao lado, a equipe da Coreia do Sul ensaiava jogadas, para desinteresse total dos presentes. “O assédio é enorme e você precisa ter cabeça firme”, diz o técnico José Roberto Guimarães, que levou o time à medalha de ouro em Pequim-2008. Até esportistas relativamente desconhecidas recebem inesperada tietagem. Atual recordista brasileira e sul-americana dos 100 metros rasos, Ana Cláudia Lemos diz que, no Brasil, deu no máximo uns dez autógrafos em toda a sua vida. “Aqui no Crystal Palace, os ingleses querem conversar com a gente, saber se você tem chance de medalha”, diz Ana. “Dei tanto autógrafo que até perdi a conta.”

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