Londres 2012

A Ilha da Fantasia

Anfitriã olímpica pela terceira vez, a Grã-Bretanha se exibe ao mundo como um arquipélago de criatividade e eficiência, imune à crise de seus vizinhos do euro

A Ilha da Fantasia

FESTA

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FESTA
Estádio Olímpico de Londres, sexta-feira 27, 20h 59m
e 52seg: começa o maior evento esportivo do planeta

A festa custou R$ 87 milhões, cerca de R$ 29 milhões por hora de espetáculo, dirigido pelo extravagante Danny Doyle, que ganhou um Oscar pelo filme com o sugestivo nome de “Quem Quer Ser um Milionário”. Sobre o gramado do novíssimo Estádio Olímpico de Londres, encravado no coração de um complexo de mais de R$ 20 bilhões, ele construiu uma autêntica paisagem rural britânica, e com o auxílio de mais de dez mil figurantes e até animais vivos fez surgir o que chamou de “Ilhas das Maravilhas”. Por meio delas contou a história de uma nação que, isolada por sua condição natural, promoveu revoluções que romperam seus limites e ajudaram a moldar o mundo moderno. “Sabemos que somos uma ilha climática e de cultura”, disse Doyle dias antes de ter seu trabalho exposto a 60 mil espectadores da plateia e mais de 1,5 bilhão de pessoas através da tevê. “Por isso, independentemente da meteorologia, teremos nuvens sobre o estádio e uma delas providenciará chuva em caso de não chover de verdade”. Assim, na sexta-feira 27, quando a rainha Elizabeth II declarou abertos, na presença de mais de 100 chefes de Estado, os 30o Jogos Olímpicos, a anfitriã Grã-Bretanha exibiu-se ao mundo como uma verdadeira Ilha da Fantasia, um arquipélago de criatividade e eficiência cercado de crise por todos os lados, como se o país da libra não sofresse com as agruras de seus vizinhos do euro, como se o vendaval dos mercados globais não tivesse feito estragos permanentes na city londrina, sede de mais de 250 grandes instituições financeiras.

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CLIMA
Londres está enfeitada, mas os londrinos só mostraram
empolgação com a chegada da tocha olímpica à cidade

As Olimpíadas chegam a Londres pela terceira vez – um feito inédito. Na primeira, em 1908, em função da erupção do monte Vesúvio, na Itália, os ingleses herdaram na última hora a missão de organizar as competições, impossibilitada aos italianos de Roma. Fizeram os inesquecíveis Jogos da Solidariedade. Na segunda, em 1948, mesmo com a cidade devastada pela Segunda Guerra Mundial, assumiram o compromisso de receber as delegações do mundo todo e passar uma mensagem de paz e convivência entre os povos. Eram tempos de escassez, em que não havia como erguer novos estádios e os visitantes traziam, além de atletas, sua própria comida e até as toalhas, já que os anfitriões não tinham como oferecê-las. Ficaram conhecidos como os Jogos da Austeridade. As próximas duas semanas dirão qual será o rótulo que Londres-2012, em meio a uma crise econômica global, levará para a história. A festa milionária de abertura e tudo o que foi vendido aos ingleses e ao mundo nos anos que a precederam permitem chamá-los, temporariamente, de Jogos da Ilusão.

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10.490 atletas de 204 países disputarão 4.700 medalhas em 19 dias

Foram gastos R$ 5,5 bilhões para construir o maior shopping center da Europa, com 250 lojas e 70 restaurantes

Durante 15 dias, mais 10.490 atletas de 204 nações ajudarão a reforçar essa mensagem, atraindo corações e mentes para seus feitos esportivos. Do nadador brasileiro Cesar Cielo ao velocista jamaicano Usain Bolt, do ciclista inglês Mark Cavendish à saltadora russa Yelena Isinbayeva espera-se performances com brilho suficiente para ofuscar a visão dos catastrofistas. A face mais exibida de Londres, metrópole de mais de mil anos de história e monumentos reconhecidos no mundo inteiro, será o impressionante Parque Olímpico, que reúne oito das 34 arenas em que serão disputadas as competições, algumas delas obras-primas da arquitetura, como o velódromo e o parque aquático, desenhado pela festejada arquiteta Zaha Hadid. O parque, com 2,5 quilômetros quadrados de área, é outra ilha da fantasia. Erguido no East End, uma das zonas mais pobres e violentas da cidade, é o maior projeto de revitalização urbana na história recente de Londres. Uma nova e moderna linha de trem foi construída para ligar a região ao centro da capital. Onde hoje está a Vila Olímpica surge um bairro confortável, com 11 mil novas moradias e a expectativa de criação de oito mil novos empregos permanentes. Junto ao Parque Olímpico, uma empresa australiana ergueu, ao custo de R$ 5,5 bilhões, o maior shopping center da Europa. Quem chega aos Jogos de trem não tem como não passar por suas 250 lojas, 70 restaurantes, cinemas e até cassinos. Nas vésperas da abertura olímpica, seus corredores estavam lotados, sobretudo de visitantes. “Estou certo de que a grande maioria das pessoas que vêm aos Jogos parará, dará uma boa olhada e, estamos torcendo, consumirá. Mas, pelo menos estando por aqui, criarão uma ótima atmosfera”, afirma John Burton, diretor da Westfield, companhia dona do shopping.

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ENCONTRO
David Cameron e Dilma Rousseff: na pauta, mais economia do que esportes

Cuidar da imagem foi uma preocupação permanente do governo britânico à medida em que as Olimpíadas iam se aproximando. O primeiro-ministro David Cameron, por exemplo, preferiu não se envolver a fundo nas discussões sobre a crise financeira que levaram países da Zona do Euro, como Grécia, Itália e Espanha, a tomar as mais duras medidas de austeridade desde sua incorporação à Comunidade Econômica Europeia. Estrategicamente, como se não fizesse parte do mesmo bloco, deixou o trabalho duro a cargo dos alemães e franceses. Seus discursos traziam sempre a promessa de um novo impulso econômico provocado justamente pelos investimentos associados às Olimpíadas. Cameron, que esteve com a presidenta Dilma Rousseff na quarta-feira 25 e citou o Brasil várias vezes em seu discurso na quinta-feira 26, usa um número mágico – 13 bilhões de libras (mais de R$ 40 bilhões) nos próximos quatro anos – para dimensionar o impacto positivo dos Jogos na economia britânica. O problema é que quando as luzes da festa olímpica se apagam, não se vê esse brilho. Nas ruas, os ingleses demonstram menos entusiasmo com o evento do que preocupação com sua rotina e seu futuro. Na movimentada estação de Victoria, na zona central da cidade, há bandeiras britânicas decorando todo o teto e placas de publicidade das empresas parceiras dos Jogos. Mas o que faz a multidão parar são os avisos do sistema de som, pedindo que os londrinos evitem circular pela cidade no período das competições, abrindo espaço para os visitantes nos ônibus, no metrô e nos trens. Várias ruas da cidade já estavam fechadas na semana passada e a previsão é de que as Olimpíadas gerassem um adicional de três milhões de deslocamentos por dia. Para quem vive aqui, o sentimento de transtorno chega a superar o de orgulho. Para quem vem de fora, há uma sensação de que a cidade não comprou totalmente a ideia de que está em meio a uma das maiores festas do mundo. Há mais de 200 mil placas de sinalização cor-de-rosa espalhadas para indicar os caminhos para as arenas, mas raramente se vê casas e lojas enfeitadas com motivos olímpicos ou as cores da nação anfitriã. Na Escócia, até mesmo o fato de não haver jogadores locais no time de futebol britânico serviu como munição para separatistas, que querem um referendo em 2014 para votar sua independência do Reino Unido. A maior demonstração pública de entusiasmo com o evento aconteceu na quinta-feira, quando o revezamento da tocha olímpica cruzou as áreas mais turísticas da cidade, como Trafalgar Square, o Palácio de Buckingham e o Hyde Park, sob aplausos de multidões concentradas nas calçadas por todo o percurso. Estrangeiros, em sua maioria. “Esperava uma cidade mais decorada, mais envolvida”, resume à ISTOÉ o ex-ministro brasileiro Marcio Fortes, atual presidente da Autoridade Pública Olímpica da Rio-2016. “No Rio certamente será diferente.”

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AVISO
Londrinos são estimulados a não circular na cidade durante os Jogos

Apenas o estilo mais reservado dos ingleses não é suficiente para explicar essa retração e a desconfiança com o discurso de Cameron. Os ingleses sentem-se traídos com o que chamam de fantasia do orçamento. Em 2005, quando ganharam o direito de organizar as Olimpíadas, o orçamento apresentado foi de US$ 5,1 bilhões. Dois anos depois, o governo aprovou novos números, elevando para US$ 14,4 bilhões. No mês passado, anunciou orgulhosamente que o total gasto ficaria quase US$ 800 milhões abaixo desse número. Mas foi duramente criticado por estar mais de 180% acima da previsão inicial. Na quarta-feira 25, apenas dois dias antes da cerimônia de abertura, foram divulgados números desastrosos mostrando que a economia britânica encolheu 0,7% no último trimestre, lançando o país na maior recessão desde os tempos dos Jogos da Austeridade. O impacto da inesperada notícia causou claro constrangimento ao governo. Na manhã da quinta-feira 26, em um encontro com líderes empresariais do mundo todo, Cameron não conseguiu desvencilhar-se do tema. “O país tem de enfrentar verdades e tomar decisões difíceis”, disse. Terá duas semanas de trégua esportiva. Não há dúvidas de que os atletas entregarão sangue, suor e lágrimas e gerarão a atmosfera de excitação que só as Olimpíadas podem oferecer. Para então deixar de vez a ilha da fantasia.

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Fotos: Roberto Stuckert Filho/PR; Michael Kappeler/DPA/ZUMAPRESS.com