Edição nº2487 11.08 Ver edições anteriores

No céu

Um acidente difícil de explicar tirou a vida de um dos mais competentes e carismáticos paraquedistas brasileiros

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A foto foi propositalmente invertida para que lembremos de
Alex “Sangue” Adelmann como ele era. Sempre pra cima.

O garotão sorridente que você vê na página ao lado voando livre se chamava Alex Adelmann. Muito pouca gente sabia disso. É que há muito tempo, nos picos de paraquedismo e em todos os cantos, Alex só era conhecido e chamado pelo apelido “Sangue”, uma versão mais curta da expressão “sangue bom”, que servia como luva para definir sua personalidade. É comum pessoas que morrem virarem sinônimos de virtudes, verdadeiros santos. O apelido era uma das provas de que Alex esbanjava virtudes muito antes de falecer de maneira trágica num acidente recente na área de saltos de Boituva, interior de São Paulo. O acidente, aliás, foi amplamente noticiado por revistas e jornais, impressos e de tevê. Lamentavelmente porém, a imprensa esteve todo tempo muito mais interessada no aspecto policial da ocorrência do que em entender quem era aquela pessoa que, atingida pelo próprio avião do qual havia saltado, perdeu a vida para desespero de centenas de amigos e dos familiares.

O atleta, nascido em Blumenau (SC), mas desde pequeno radicado em São Paulo, tinha 33 anos e começou no esporte cedo, aos 16, quando fez seu primeiro salto, espelhando-se no irmão mais velho Max. O paraquedismo, por questões legais, logísticas e pelos custos envolvidos é um esporte que geralmente atrai praticantes em idade adulta. Já Alex, por ter começado cedo, teve a possibilidade de evoluir com maior facilidade. Sua aptidão natural também era visível, o que o fez desde cedo destacar-se do pelotão. Ele começou no esporte num momento de revolução, o início da popularização de uma nova modalidade de paraquedismo, chamada Freefly. Essa modalidade consiste em voar em queda livre em todos os eixos do corpo, não somente com a barriga para baixo como o esporte era praticado anteriormente. Sangue investiu muito nessa nova modalidade, fez diversos saltos com um dos criadores do Freefly, Olav Zipser, obtendo a certificação AD #250 nos EUA. Essa dedicação trouxe a ele o tricampeonato brasileiro de freefly, ao lado dos companheiros de time, Mico Ribeiro e Anselmo Bueno (câmera). O time era praticamente imbatível em nosso País o que gerou interesse em diversos atletas em busca de ensinamentos.

Além do trabalho como treinador de Freefly, Sangue também realizava saltos como camera man, filmando times e saltos duplos, aqueles em que um instrutor salta conectado ao passageiro. Ele também era instrutor AFF (acelerated freefall), aquele habilitado para saltar com paraquedistas de primeira viagem, instruindo o novato em solo e na queda livre. Outra licença obtida era a de Tandem Master, o instrutor que salta com o aluno conectado. O experiente paraquedista Fernando “Tachinha” Meirelles define assim o amigo, “O Alex “Sangue” Adelmann era um atleta de altíssimo nível, unânime, diversas vezes campeão brasileiro. Tinha sua vida dedicada inteira e unicamente ao esporte, um paraquedista completo, excelente em todas as modalidades. Além disso, muito querido por todos, caráter incrível e uma vontade incessante de ajudar o próximo.”

As circunstâncias do acidente devem e precisam ser apuradas. Mas seja uma fatalidade, seja falha do piloto ou qual for a causa dessa enorme infelicidade, é inadmissível que não se faça jus à memória de um atleta brasileiro excepcional e não se prestem as homenagens merecidas a uma figura humana que deixava um rastro de positividade e amor por onde passava.

A coluna de Paulo Lima, fundador da editora Trip, é publicada quinzenalmente


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